quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

eternidades da semana >> el mato a un policia motorizado

EL MATÓ A UN POLICIA MOTORIZADO - Dia de los Muertos
2008


O nome da banda sugere um punk, vociferando contra tudo e todos. A banda argentina, porém, segue uma linha meio indie rock, lembrando em alguns momentos Radiohead e em outros Counting Crows. Não costumo ouvir muita coisa deste estilo e me interessei pela banda mais pelo nome do que por qualquer outra coisa. Afinal, pessoas que põem um nome desses em uma banda são, no mínimo, dignas de dois centavos de atenção.

Apesar de não fazer muito meu estilo, é um som legal de se ouvir, bem tocado, boas melodias, bons vocais, ainda que um tanto depressivo. Este disco - o quarto da banda - é o terceiro de uma trilogia sobre nascimento, vida e morte. O tom depressivo do disco pode vir do tema, mas como não conheço os outros discos da banda, não posso afirmar.

Destaques para Noche de los Muertos, Mi Próximo Movimiento e El Último Sereno. É um disco que gruda na mente: estou há dias com vozes portenhas cantarolando na cabeça. Minha esposa gostou bastante e acabou virando hit no rádio do carro.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

eternidades da semana >> Aline Muniz e Digital Groove

Trabalhando no recesso, escrevendo artigo. Isto é motivo pra ouvir um monte de música. A elas então.

Aproveito para remover as datas desta seção. Nunca foi semanal mesmo... :-)

ALINE MUNIZ - Da Pá Virada
2008


Soa o sinal vermelho: cantora de MPB. Pé atrás é pouco. O disco, contudo, abre muito bem. Básica é um sambinha muito legal, tem um ritmo irresistível, boa letra, arranjo muito interessante e melodia daquelas que grudam. Continua de maneira excelente com Cidade de Isopor, algo meio samba-rock. Fosse o disco inteiro como as duas primeiras músicas, eu estaria diante do primeiro disco de cantora de MPB que realmente gosto. Infelizmente não foi desta vez.

Em algumas músicas o álbum resvala um pouco em uma MPB mais péla-saco, tipo música de barzinho, Djavan e tal. Lá pro final - a penúltima - o disco se recupera e manda a excelente faixa-título Da Pá Virada, ótimas letra e ritmo. Mas o disco fecha voltando a pagar pau prestar tributo à MPB tradicional com versão de Carlos Lyra e Dolores Duran, O Negócio é Amar.

Não parei para análises mais profundas mas as letras me parecem boas, de modo geral.

É um álbum certinho e bonitinho demais para o meu gosto, mas é um bom disco, principalmente para quem gosta da MPB lado A.


DIGITAL GROOVE - Rabeca, Sanfona e Pife
2006


Eu nunca ouviria sem maiores recomendações o disco de uma banda chamada Digital Groove, mas o título do disco me chamou a atenção e resolvi encarar. O resultado é pra lá de esquisito e até agora não sei se gostei ou não. Independente de meu gosto musical, o disco tem seus méritos, pois soa bastante experimental e sempre é de se admirar quem ousa, principalmente fazendo misturas nem sempre bem vistas pelos puristas dos estilos.

Destaques para Jacira e Tubarão, nas quais a eletrônica caiu como uma luva, e Maria do Sertão e Na Boléia da Toyota, cantadas pelo grande Silvério Pessoa. Esta última, por sinal, uma versão tecno-alucinada da música, fecha muito bem o álbum.

domingo, 28 de dezembro de 2008

O meme da página 161

Sei que é notícia velha, mas eu ainda não conhecia: entre um link e outro, descobri isto aqui, um meme (se é que o termo é realmente adequado a estas correntes) que consiste em postar a quinta frase da página 161 do livro que estiver mais próximo (mas o troço tem que ser espontâneo, não vale procurar). Vai então a frase que deu aqui, o supra-sumo da irrelevância para a esmagadora maioria da humanidade, mas curiosamente uma importante informação que os "analistas" mundo afora ignoram solenemente:

"Finally, there are some reasons to go with a schema that is quite distinct from the object model, even when the database is being created specifically for your system."
Domain-Driven Design: Tackling Complexity in the Heart of Software, Eric Evans

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

eu fui >> encontro dos blogueiros no terapia's

Fui ontem ao encontro dos blogueiros no Terapia's. Ótimos papos (a indefectível dobradinha música e política) e muita cerveja (os outros, eu não bebi!). Creio que a melhor definição do "evento" foi a do Xacal: formação de quadrilha.

Relatos:
Urgente
Xacal
Roberto Moraes

Maus tratos à língua?

Postei algo no twitter outro dia que me deixou com a pulga atrás da orelha. Eu dizia que a língua portuguesa era maltratada, e percebi que falei isto apenas porque é o que todo mundo fala, o tipo de chavão do senso comum que repetimos sem pensar. Quer dizer, eu até pensava assim há algum tempo, até começar a ler uma coluna escrita por um linguista (acabou o trema, certo? pois já vai tarde!), chamado Marcos Bagno na Caros Amigos. Os textos publicados nesta coluna têm me feito mudar de opinião sobre o "falar errado". Descobri o site do sujeito e acabo de ler um interessantíssimo artigo. Vai um trechinho abaixo:

Com isso, os elaboradores das primeiras obras gramaticais do mundo ocidental definiram os rumos dos estudos lingüísticos que iam perdurar por mais de 2.000 anos:
  • desprezo pela língua falada e supervalorização da língua escrita literária;
  • estigmatização das variedades não-urbanas, não-letradas, usadas por falantes excluídos das camadas sociais de prestígio (exclusão que atingia todas as mulheres);
  • criação de um modelo idealizado de língua, distante da fala real contemporânea, baseado em opções já obsoletas (extraídas da literatura do passado) e transmitido apenas a um grupo restrito de falantes, os que tinham acesso à escolarização formal.
Com isso, passa a ser visto como erro todo e qualquer uso que escape desse modelo idealizado, toda e qualquer opção que esteja distante da linguagem literária consagrada; toda pronúncia, todo vocabulário e toda sintaxe que revelem a origem social desprestigiada do falante; tudo o que não conste dos usos das classes sociais letradas urbanas com acesso à escolarização formal e à cultura legitimada. Assim, fica excluída do "bem falar" a imensa maioria das pessoas - um tipo de exclusão que se perpetua em boa medida até a atualidade.


O texto na íntegra pode ser lido aqui.

Quem se interessar em ler o artigo inteiro pode ir direto pra lá e ignorar o restante do meu post. Quem estiver com preguiça - ou não se interessar pela coisa - segue abaixo uma explicação a respeito dos nossos 'bicicreta', 'prano', 'broco' e afins.

Ao contrário da Gramática Tradicional, que afirma que existe apenas uma forma certa de dizer as coisas, a Lingüística demonstra que todas as formas de expressão verbal têm organização gramatical, seguem regras e têm uma lógica lingüística perfeitamente demonstrável. Ou seja: nada na língua é por acaso.

Por exemplo: para os falantes urbanos escolarizados, pronúncias como broco, ingrês, chicrete, pranta etc. são feias, erradas e toscas. Essa avaliação se prende essencialmente ao fato dessas pronúncias caracterizarem falantes socialmente desprestigiados (analfabetos, pobres, moradores da zona rural etc.). No entanto, a transformação do L em R nos encontros consonantais ocorreu amplamente na história da língua portuguesa. Muitas palavras que hoje têm um R apresentavam um L na origem:
LatimPortuguês
blandubrando
clavucravo
dupludobro
flaccufraco
fluxufrouxo
obligareobrigar
placereprazer
plicarepregar
plumbuprumo

Assim, o suposto "erro" é na verdade perfeitamente explicável: trata-se do prosseguimento de uma tendência muito antiga no português (e em outras línguas) que os falantes rurais ou não-escolarizados levam adiante. Esse fenômeno tem até um nome técnico na lingüística histórica: rotacismo.
Esse é só um mínimo exemplo de que tudo o que é chamado de "erro" tem uma explicação científica, tem uma razão de ser, que pode ser de ordem fonética, semântica, sintática, pragmática, discursiva, cognitiva etc. Falar em "erro" na língua, dentro do ambiente pedagógico, é negar o valor das teorias científicas e da busca de explicações racionais para os fenômenos que nos cercam.

O exemplo apresentado acima (mudança de L para R em encontros consonantais) não deve levar ninguém a supor que esses fenômenos variáveis e mutantes só ocorrem na língua dos falantes rurais, sem escolarização, pobres etc. Eles também ocorrem na língua dos falantes "cultos", urbanos, letrados etc., muito embora esses mesmos falantes acreditem ser os legítimos representantes da língua "certa".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Quem quer manter a ordem?

Estava há pouco lendo um texto bastante lúcido - como sempre - no Urgente vinculando os "insignificantes infortúnios urbanos" à desgraceira das catástrofes anuais naturalizadas. Não naturais, naturalizadas mesmo. Querem um exemplo? Hoje pela manhã vi em um programa na televisão - Balanço Geral, acho - o apresentador mostrar os alagamentos na região e terminar desejando força e coragem aos atingidos para superar a situação, como se esta fosse apenas uma cega e aleatória catástrofe natural. Seria explicável se fosse a primeira vez, mas as cheias se repetem periodicamente. Ou seja, ao invés de inesperadas as inundações são anunciadas. Estou longe de ser especialista neste tipo de coisa, mas não acredito que não haja meios técnicos para pelo menos minimizar o problema. Como agora, os diques irregulares em propriedades rurais foram apontados como catalisadores da cheia em Ururaí. Ora, é preciso esperar dar merda para explodir diques construídos irregularmente? Pois é, em lugar de contribuir para diminuir o problema, a conivência cuida de o agravar. E a reação da mídia oficial é simplesmente naturalizar a situação. Tem gente que acredita.

O curioso é que eu nem ia falar disto. O que me motivou a escrever foi um comentário no post do Urgente que linkei no início, de uma pessoa que pedia o estabelecimento da "ordem". De minha parte, eu dispenso. Com pedidos de "ordem" sempre vem junto muito mais coisa, e nada bom. Da última vez que pediram isso, o país foi sequestrado durante 21 anos. Eu gostaria simplesmente de respeito ao espaço público, cidadania, essas coisas, e creio que era disto que falava o post. Essa coisa de "ordem", é melhor que fique mesmo só na bandeira. E olhe lá.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Primeira divisão

Eu sei que todo mundo já viu isto, mas não poderia deixar de participar de um movimento tão bonito.

Porque alguma alegria com isto a gente tem que ter...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O desabafo de um cidadão

Trecho de carta aberta do professor Sérgio Soares, morador de Ururaí.

Algumas perguntas me martelam e insistem em sangrar. Onde está o prefeito de nossa cidade que não se manifesta? Onde está o IBAMA que persegue os pescadores e seus pequenos peixes (nesses dias corretamente), pobres senhoras com seus papagaios e não enxerga a construção de um dique em área de escoadouro de água do rio Ururaí? Onde está o meu direito de cidadão que não pode vir a tona sem que eu vá à justiça para buscá-lo? ... a mesma justiça que garante ao fazendeiro uma maior valia para seus bois, indiferentes às nossas vidas que pouco a pouco vai sendo levada pelas águas, com toda sorte de destruição e doenças que podem aparecer a qualquer instante.

Na íntegra no Diário de Classe.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

eternidades da(s) semana(s) - 23 a 29/11/08

Tirando o atraso. Vamos nessa!

ROGÉRIO SKYLAB - Skylab VIII
2008


Eu nunca achei que isto fosse durar tanto: Rogério Skylab chega ao oitavo CD. Nono, se contarmos o primeiro disco, que não entrou na numeração.

O disco começa com Tira Tudo, um experimentalismo bem legal com violões. O início promete. Não há pressa alguma no disco: das 16 músicas, apenas quatro têm menos de 4 minutos. Algumas mais de sete.

O som continua, como já é costume, excelente. Músicas impecavelmente bem tocadas e bem gravadas, mantendo o padrão cultivado desde o já longínquo Skylab II. É possível perceber em todos os momentos a obsessão de Skylab pela repetição: sons, linhas melódicas, letras. Em mãos menos habilidosas, isto, somado a músicas grandes, poderia ser um tedioso desastre sob todos os aspectos, mas não. Aqui tudo parece calculado, e talvez seja mesmo.

As letras, por incrível que pareça, estão mais palatáveis para sensibilidades, digamos, mais amenas. Mas mesmo assim ainda dá pra se chocar com as letras do Skylab, como em Meu Diário.

Ou seja, pra quem já conhece o trabalho do Skylab, nada mudou. Pra quem não conhece, vale a pena ouvir um maldito moderno com o trabalho em construção. Porém, o melhor ponto de entrada para a obra de Skylab - e até hoje o melhor disco de sua carreira - é o Skylab II. Um megaclássico, que um dia terá neste blog sua devida resenha (resenha de verdade, na seção resenhas, não as impressões corridas desta coluna).

Os destaques vão para: Casas da Banha (uma regravação de seu primeiro disco), que os mais antigos certamente se lembrarão da musiquinha "vou dançar o cha-cha-cha/casas da banha/alegria vem de lá/casas da banha" e curtirão a visão skylabiana sobre o assunto; Eu Sou Cliente de Lá e Peida, Peida, respectivamente, uma balada e um rockão que trazem de volta o bom e velho Skylab; Preciso de Você Comigo, música lentinha na qual a voz de Skylab me lembrou muito outro maldito, Jards Macalé, e O Ar, inacreditavelmente leve, desencanada e divertida.

Não é o melhor trabalho do Skylab, nem mesmo um dos melhores, mas ainda assim é um disco bem legal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A história das coisas

Video muito interessante a respeito do papel do consumo como o alfa e o ômega da sociedade moderna e como isto torna a vida de todos uma porcaria e como isto está destruindo o planeta.

Extremamente didático, vale muito a pena perder 20 minutos da sua vida com ele.

A história das coisas

domingo, 23 de novembro de 2008

eternidades da(s) semana(s) >> 2 a 22/11/08

Escrever neste blog está mudando a forma como ouço música, pois tenho ouvido os discos mais devagar e de modo mais analítico. Por conseqüência, tenho ouvido menos coisas. Acho que a mudança é pra melhor.

Não foi desta vez que isto ficou semanal, mas um dia eu consigo. Vamulá!


PAULO MIKLOS - Paulo Miklos
(1994)



Nunca acreditei muito no Paulo Miklos, e não achava que seus discos solo seriam grande coisa. Daí que foi uma ótima surpresa o seu primeiro disco solo, lançado no distante ano de 1994, porém somente ouvido por mim esta semana. Está longe de ser a revolução da música brasileira, mas é um disquinho bem legal!

De cara, se sobressai o excelente trampo de violões. O som soa algo como um neo-MPB ou um rock nacional mais sofisticado. Quando se consegue isto sem burocratizar a coisa toda - como Miklos conseguiu - é muito bom! Destaques para as músicas Ele vai se vender ("ele vai se vender/e por isso ele não vale nada" é um achado!) e Aos 500 Surfistas Ferroviários Mortos. Apesar de eu não ter prestado toda essa atenção nas letras, elas parecem ser boas, pelo menos têm um bom ritmo.

O único porém é que algumas músicas soam um tanto tediosas, especialmente se você ouve o disco várias vezes, mas nada que tire o mérito do disco como um todo.

Mais um disco legal entre os trabalhos "por fora" dos integrantes dos Titãs. Quem não conhece não sabe o que perde.


NÃO RELIGIÃO - A Verdadeira História de um Brasileiro
(1987)



Eu nunca havia ouvido coisa alguma do Não Religião, mas achava que era algo na linha Plebe Rude. Pois foi uma grande surpresa começar a ouvir este disco e ver um punk/hardcore imundo e mal gravado, com todos os cacoetes do gênero.

Confesso que não tenho muito a dizer sobre este disco, pois tenho tido bastante preguiça de ouvir coisas mal gravadas. Isto não me trouxe um grande desapontamento, pois várias músicas deste disco foram regravadas em melhores condições nos discos posteriores.

As letras são bem cruas e diretas, bem punk mesmo, sem qualquer sofisticação.

Destaques para o vocal parecido com Marcelo Nova na cover de Sérgio Reis (!!) Coração de Papel, a boa levada de Brasil e a porradaria de Atestado de Pobreza.


NÃO RELIGIÃO - Pegaram Jesus pra Cristo
(1991)



Quatro anos depois, o Não Religião aparece bem mais polido. As guitarras distorcidas continuam lá, mas o som é mais cadenciado e a gravação muito melhor. Porém, não gostei de cara da primeira música, Estado de Sítio. Mas o disco vai melhorando depois.

Apesar do som mais trabalhado, as letras continuam na mesma crueza do primeiro disco, o que às vezes as faz soar deslocadas. E as letras que se tentam menos punks não se saem melhor.

Destaques para as músicas Jesus Crucificado no Poste da Light, Te Dói, Qualquer Tipo de Religião e Mulher no Caos no País do Carnaval.

Esta última seria apenas um amontoado de grosserias machistas ("você quer mulher pra quê? só pra comer/ você quer mulher na cama? diz que a ama"), porém o título aludindo a mulher no país do carnaval é brutalmente irônico.


NÃO RELIGIÃO - Ninguém Me Escuta
1994



Em Ninguém Me Escuta a banda aparece ainda mais cadenciada. As letras, porém, ainda são tão toscas quanto as do primeiro disco.

O destaque absoluto vai para a excelente versão de A Face de Deus, megaclássico dos Inocentes.

Outras músicas legais são: Pecado, cuja letra lista de modo curioso as coisas que "é pecado!!!"; Tra-La-Lá, cujo início me lembrou muito Garotos Podres; Ninguém Me Escuta, que lembra um pouco CPM-22 e coisas do tipo mas ainda assim é legal; A Sangue Frio, um metal, sobre o massacre do Carandiru.

Dos três é o que considero o melhor disco da banda, pelo menos foi o único que ouvi várias vezes.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

lembranças do terapia's

Não conheço muitos botecos, de modo que o tema da Rede Blog de hoje é um tanto estranho para mim. Porém, freqüentei por um bom tempo o Terapia's, quando era ali perto do Liceu, e tenho várias boas lembranças de lá.

Lá passei inúmeras horas e e bebi ainda mais inúmeras cervejas. Participei ali de várias reuniões e entrevistas do Campos Underground (saudoso site que mapeava o underground campista), formei bandas, fiz (ou fortaleci) amigos, tive excelentes papos e lá cheguei um dia solteiro e saí com uma namorada, que até hoje, quase 10 anos depois, ainda divide comigo as alegrias e tristezas da vida.

E eu, ao escrever este curto post, me surpreendo por ter tantas boas lembranças - que não vinculava ao nosso glorioso bar - do Terapia's. Vida longa!

Em tempo: sim, trapaceei o dia pra ficar bem na fita. Agora são precisamente 23h25min do dia 23 de novembro de 2008. Mas escrevi o primeiro parágrafo no dia certo, juro!

domingo, 2 de novembro de 2008

Cidadania pede passagem

Na questão dos contratados da prefeitura de Campos, vale linkar reflexões de Cleber Tinoco, sob o filtro de Vitor Menezes.

E o pior é alguém ter que dizer algo que deveria ser óbvio, e a ainda chocar alguns.

sábado, 1 de novembro de 2008

Pelegando na rede blog

Só agora me dei conta de que furei com a Rede Blog de outubro.

eternidades da semana >> 25 a 31/1110/08

A partir desta semana vou tentar fazer do eternidades da semana algo que deveria ter sido desde o início: um rápido apanhado de tudo de inédito (pelo menos para mim) que escuto durante a semana. Ultimamente tenho sido prolixo demais e publicando miniresenhas, que dão um trabalho da peste e eu acabo não escrevendo nada. A idéia agora é mandar tudo, nem que seja pra comentar só com uma linha (não são resenhas, apenas impressões imediatas). Vamos ver se agora isso fica semanal mesmo!

BRANCO MELLO - Eu e Meu Guarda-Chuva
(2001)



Mais um disco paralelo de um dos membros dos Titãs. Eu e Meu Guarda-Chuva é um disco de música direcionada a um público infantil (veio junto com o livro homônimo), onde o Branco Mello atua como uma espécie de "diretor geral" do disco, que conta com a participação de figuraças da música brasileira contemporânea como Falcão (O Rappa), Frejat, Marcelo D2, Arnaldo Antunes, Elza Soares, Toni Garrido, Cassia Eller, Rodolfo (ex-Raimundos) e o próprio Branco Mello.

As músicas são muito boas, indo de experimentalismos (O Mistério de Jonas [Arnaldo Antunes], O Buraco do Metrô [Marcelo D2]), jazz (Hércules e Seu Amigo Asterix [Elza Soares e Toni Garrido]), música tipicamente infantil (Museu Ideológico [Coro Infantil da Escola de Música da Rocinha]) e o bom e velho rock n' roll (Eu Sou Um Rei [Cassia Eller], Dona Nenê [clássico dos Titãs intepretado por Rodolfo]).

A iniciativa evoca os clássicos da música infantil com grandes nomes da MPB como Arca de Noé e Casa de Brinquedos. É um disco muito legal de se ouvir. É impossível não sair cantarolando a maioria das músicas. Agora mesmo não me sai da cabeça a música O Prisioneiro (cantada por Falcão). Altamente recomendável.


TITÃS - Como Estão Vocês?
(2003)



Os Titãs já não são mais aqueles. Como Estão Vocês é praticamente uma continuação do disco anterior A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana. É um bom disco de pop rock, boas canções, bem tocado e bem produzido. Mas não há mais nada da imagem que se tem dos Titãs da época do Cabeça Dinossauro, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas ou mesmo da fase semi-underground e esporrenta de Tudo ao Mesmo Tempo Agora e Titanomaquia.

Entendam, não é um disco ruim, longe disso. Mas não bate, não dá sangue, não dá vontade de ouvir mil vezes (como é o caso dos 4 últimos discos citados). É como o A Melhor Banda..., bonitinho, legalzinho mas meio insosso.

Os destaques vão para o sucesso novelístico Enquanto Houver Sol, Eu Não Sou Um Bom Lugar e - de longe a melhor do disco - As Aventuras do Guitarrista Gourmet Atrás da Refeição Ideal, uma bonita homenagem ao guitarrista Marcelo Fromer, morto em 2001.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Miséria eleitoral

A coisa está tão feia em Campos que nem a boa e velha campanha pelo voto nulo pode ser feita decentemente: periga pensarem que estamos querendo que votem em Arnaldo Vianna.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

twitter

Eu agora estou no Twitter. É bem legal, recomendo.

os mitos da pirataria

Aqui um interessante e ilustrativo texto a respeito dos mitos alardeados pelas milícias anti-pirataria. Outro fato curioso é que o autor sequer está perto de ser de esquerda e chega a citar um texto do (argh!) Instituto Von Mises.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

eternidades da semana >> 6 a 12/10/08

MONOBLOCO - Ao Vivo
(2005)

O Monobloco é uma banda que confirma uma antiga suspeita minha, de que seria possível fazer uma coisa legal e não burocrática com bateria de escola de samba. Eu já conhecia o DVD há algum tempo, mas só agora fui escutar o disco. A banda é uma união de figuraças: Pedro Luís (& a Parede), Sérgio Loroza (o Figueirinha de A Diarista), Rodrigo Maranhão (Bangalafumenga) e outros. Esta é a formação do disco, não sei como está atualmente.

Sobre o disco, é simplesmente excelente, o que é estranho para o meu gosto, já que é um álbum de covers e eu costumo não gostar destas coisas. Porém, a proposta é muito boa e bastante bem executada. É uma rara união de pop (no sentido de música para arrebatar multidóes) e qualidade. Loroza é uma figuraça, e entre os vocalistas (são 3) é quem se sai melhor. Covers inusitados como Taj Mahal (Jorge Ben), Imunização Racional (Tim Maia), Miséria S/A (O Rappa), Tropicana (Alceu Valença), tudo tocado com bateria de carnaval. Alguns dos arranjos são bastante ousados, fugindo completamente do óbvio que se poderia esperar de um grupo com um grande número de integrantes.

Além destas, coisas mais tradicionais para o estilo como Coisinha do Pai, Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua e Aquarela Brasileira. Ainda tem participação especial de Lenine (e também de Fernanda Abreu, mas não vejo relevância alguma nisto).

O ponto alto disco fica com os MCs Júnior e Leonardo cantando em um pout-pourri de 10 minutos com funks da dupla carioca. Seria de se esperar que o resultado ficasse no mínimo estranho, porém a mistura destes dois ritmos brasileiros é explosiva, sendo o melhor trampo de percussão do disco, chegando a lembrar, por vezes, os maracatus envenenados da Nação Zumbi. A parada é simplesmente viciante, já devo ter ouvido umas 300 vezes.

Enfim, quem é "rock'n'roll na veia" vai achar uma merda, mas estará perdendo um dos melhores blockbusters já feitos no Brasil.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pra entender

Também em dúvida com o cenário político maluco da nossa cidade? Se Arnaldo rodar vai ter outra eleição? Rosinha é prefeita? E aí?

Talvez ajude ler isto, isto e isto.

domingo, 5 de outubro de 2008

Lixo político, literalmente

Que estamos atolados no lixo político todos já sabem. Porém, venho reclamar do lixo político literal, milhares de papéis de propaganda política espalhados pelas ruas do IPS e bairros vizinhos. É muito, mas muito lixo.

Que tipo de idiota acha que irá ganhar votos espalhando lixo pela cidade e contribuindo para enchentes caso haja uma chuva? Se em época de campanha tratam a cidade deste modo, pode-se imaginar a desgraceira que farão se eleitos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Programação radical

Conheça meu hemisfério esquerdo.

faça seu ouvido feliz >> pouca vogal

Como complemento ao último post, cabe informar que o disco/dupla/projeto Pouca Vogal, formado por Humberto Gessinger e Duca Leindecker (Cidadão Quem), está disponível para download aqui.

Os Engenheiros do Hawaii estão mortos! Longa vida então?

Quem conhece os Engenheiros do Hawaii e lê este blog, mesmo que não me conheça, sabe que sou fã da banda. Do nome do blog ao título de uma das seções, pipocam citações à obra dos Engenheiros. Apesar de lançar discos com regularidade desde 1985, considero a banda morta em 1994, com a saída do guitarrista Augusto Licks. Após uma reanimação em 1995, com Simples de Coração, a banda morreu de vez com a saída do baterista Carlos Maltz. Os discos que vieram depois, alguns até bem legais, são qualquer coisa, menos Engenheiros do Hawaii.

Somente agora, no primeiro trabalho de Humberto Gessinger sem o nome Engenheiros do Hawaii em mais de 10 anos (o anterior havia sido um solo, lançado em 1996), o espírito da velha banda parece estar de volta com Pouca Vogal, trabalho da dupla Gessinger+Leindecker. Eu disse "parece" porque ainda não ouvi decentemente o disco, mas os sinais são excelentes: o release (o link não vai direto, clique em 'Release' por favor, maldito Flash!) do trabalho e a resenha escrita pelo companheiro de longos anos no "engenheirismo" Rodrigo Rosselini (onde, aliás, descobri a novidade).

Ansioso para ouvir decentemente o disco (ou seja, não ouvir enquanto faço outra coisa, como trabalhar, dirigir ou cochilar).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Bem-vindo a Campos

Estava ontem subindo a Formosa de carro e, por erro meu, quase atropelei um motociclista. Seria algo não muito digno de nota - já que nada aconteceu - não fossem alguns detalhes.

Vinha, como disse, pela Formosa na faixa da direita quando o carro da frente - um desses, com design moderno, que se parece com todos os outros - simplesmente parou. Eu, que vinha atrás, parei também, esperando que descesse alguém ou algo do tipo. Nada. Como percebi que o carro não dava sinais de que iria sair dali, me preparo para passar à outra pista. Tenho um problema secular com espelhos retrovisores. Eles sempre têm um ponto cego para mim, de modo que sempre tenho que mover a cabeça ou olhar fora do carro para pegar esse tal ponto. Desta vez, puto com o sujeito com o carro parado no meio da rua, esqueci deste movimento e eis que vinha uma moto e foi o que contei no primeiro parágrafo. O cidadão desce da moto - uma destas pequenas, tipo Biz - e começa a reclamar (era daquele tipo que desce pra arrumar confusão e tal) e, como eu estava errado, simplesmente pedi desculpas e esperei que o sujeito terminasse de falar. Findo o festival de insultos, qual é a primeira coisa que o motociclista faz? Atravessa a 13 de Maio com o sinal vermelho.

A moral da história é que reclamamos de Mocaiber, Arnaldo, Garotinho, Rosinha e assemelhados mas estes são apenas a ponta do iceberg. Basta fazer um pequeno passeio de carro pelo centro da cidade para perceber que cidadania e respeito com o espaço público aqui são piada. Campos - ou pelo menos a Campos motorizada, do carrão à mobilete - merece, com louvor, os políticos que temos.

domingo, 21 de setembro de 2008

rede blog >> os novos ricos de campos: que classe é essa?

A existência de interesse das pessoas pelo termo "novo rico" me parece algo curioso. Digo isto porque o termo sempre me pareceu ser utilizado por socialites e pessoas do gênero, para diferenciar aqueles detentores de "old money" do populacho emergente, com seu comportamento não condizente com a miríade de regras comportamentais da velha elite. Daí os cursos de etiqueta e bobagens afins para que os novos ricos adquiram pedigree, tornando-se aceitos em seu novo meio social, até que venha a próxima reviravolta sócio-econômica e novos grupos ascendam. Assim, como sempre associei - talvez equivocadamente - a expressão com jargão de colunismo social, considero um assunto tão empolgante quanto um tratamento de canal.

As implicações econômicas e sociais da ascensão de novos grupos são o que costuma ser o mais interessante na história toda (e por isso virou tema da rede blog). E é curioso em nosso contexto local que a expressão tenha adquirido notoriedade fora do grande vazio das coluninhas de sempre devido à chuva de dinheiro dos royalties, que pouco ou nada de bom tem trazido à cidade, mas tem aumentado bastante a quantidade de gigantescos trambolhos automotivos nas engarrafadas ruas do centro, dos quais as Hilux são porta-estandartes.

Como novato sempre dá vacilo, cometi o erro de ler antes alguns textos sobre o assunto publicados por outros blogs na rede blog e, se estender o assunto além do quase-nada que foi escrito aqui, vou simplesmente reverberar o que o pessoal escreveu. Ou seja, minha primeira participação na rede vai ser esse meia-boca aqui mesmo, mas textos muito melhores foram e talvez - apesar da hora - ainda serão escritos hoje na rede blog. Fico devendo algo melhor arrumado para o tema de outubro. Até lá!

[A rede blog é um agrupamento heterogêneo de blogs goitacás que, periodicamente, versam sobre um tema comum.]

sábado, 20 de setembro de 2008

O fanatismo não morreu

Já estou há mais de uma semana sem blogar, mas ninguém se preocupe que o blog não morre (pelo menos não agora!). É que ando muito ocupado com isto, que acabou vazando das horas não vagas para as vagas. Pode não parecer para a maioria das pessoas, mas escrever software é muito legal! Mas espero voltar a aparecer regularmente a partir de agora.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

eternidades da semana >> 01 a 07/09/2008

Com atraso (tempo, tempo, mano véio, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio), aí vão as eternidades da semana passada.

ACADEMIA DA BERLINDA - Academia da Berlinda
2007

Academia da Berlinda é um coletivo de músicos oriundos de várias bandas conhecidas do Recife como mundo livre s/a, Nação Zumbi e Eddie, tocando uma saudável mistureba de rumbas, carimbós e outras coisas que me parecem familiares mas não fui capaz de identificar. O som soou um tanto pop para ouvidos acostumados com Siba e a Fuloresta e Lia de Itamaracá ou mesmo coisas mais "modernas" como Silvério Pessoa e Mestre Ambrósio.

Os destaques do disco vão para Academia da Berlinda, uma espécie de rumba (ou pelo menos eu acho que é isso!) com um ritmo contagiante, e Envernizado, com boa participação de Jorge du Peixe (Nação Zumbi) nos vocais. Outras músicas têm um leve jeito de axé music, mas são quase todas bem legais.

O disco contou com participações de figuraças da música pernambucana moderna como Zero Quatro e China, além do já citado vocalista da Nação Zumbi. Não é a nova revolução pernambucana, mas é um disco divertido, praiano. Pena que o descobri em pleno inverno.



WALTER FRANCO - Ou Não
1973

Comentar um disco desses é uma tarefa ingrata. Ou Não, disco de estréia de Walter Franco, é um disco inexplicável. Artista considerado "vanguardista", o disco é experimental do começo ao fim. Seja com o MPBismo doentio de Mixturação, a forrozeira torta de Xaxados e Perdidos, os absurdos vocais de Pátio dos Loucos ou o radicalismo experimental de Flexa, é um disco completamente atípico. Um fato interessante é que Água e Sal e No Fundo do Poço lembram Arnaldo Antunes, tanto nos vocais quanto na letras meios concretistas.

Enfim, é um ótimo e imperdível disco, mas somente indicado para mentes abertas e para quem quer conhecer um pouco mais do lado underground da MPB. Ou não.

mais uma vitória para a estupidez e o atraso

Hoje, 09/09/2008, o blog Som Barato, que compartilhava música (atividade que chamam de pirataria), foi removido pela Google. Vitória para os parasitas da música (leia-se, gravadoras), derrota para os artistas - em sua maioria, interessados na divulgação de seu trabalho e conseqüente aumento no ganho com shows - e para apreciadores de música brasileira. E tudo isso na vã esperança de frear a troca de informações entre as pessoas.

A estupidez fala mais alto novamente.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Manifesto para um selo natimorto

Em um mundo com internet, redes P2P – eDonkey, eMule, Kazaa, Soulseek – não há mais lugar para o velho e carcomido modelo das gravadoras convencionais, baseadas na dura e fria aplicação do copyright. Estas foram, sem sombra de dúvida, derrotadas pela história. A evolução tecnológica, gerada e fomentada pelo sistema capitalista para exponenciação de seus lucros, acabou por colocar à beira do abismo um setor inteiro do sistema: a indústria fonográfica.

Na prática, o que impede que alguém simplesmente baixe de programas ou redes de compartilhamento de arquivos as MP3 daquele CD novo que é anunciado na televisão? Desde que se tenha acesso à internet – e qualquer um que possa se dar ao luxo de pagar 30 ou 40 reais em um CD tem –, a resposta é um tiro seco: nada.

Como que para reforçar esta tendência, estas mesmas tecnologias hoje permitem que se possa gravar um álbum no computador de casa, com uma qualidade que pouco deixa a dever a gravações feitas em estúdios. A perda de qualidade é perceptível se comparada às gravações milionárias em estúdios superequipados? Por enquanto, sim. Mas nada impede que, em breve, tudo venha a se equiparar. E mesmo assim, esta perda de qualidade técnica de gravação é um preço pequeníssimo a pagar pela plena liberdade artística e criativa, algo que é impossível sob o investimento – e a evidente espera de retorno fácil – de empresas de entretenimento. E entretenimento, amigos, não é sinônimo de arte. E no mais das vezes passa bem longe disto.

A indústria do entretenimento – emissoras de televisão, rádios comerciais, produtoras, estúdios cinematográficos, estúdios de animação, gravadoras – tem a tendência, como indústria capitalista que não tem como deixar de ser, de buscar lidar com povos, espaços e gostos o mais homogêneos possível, sem especificidades ou diferenciações, sujeitos a ser enquadrados em estratégias padronizadas de produção, consumo e marketing. Assim, as grandes gravadoras buscam sempre o grande sucesso, que venda para o maior número possível de pessoas. A estas empresas não interessa a inovação, mas somente a repetição exaustiva de velhas fórmulas e a criação de pacotões musicais, como foram o axé music, sertanejo, pagode e o forró. E mesmo estilos tradicionais, como os três últimos, ao entrarem no jogo das gravadoras, são pasteurizados, perdem suas especificidades e passam por uma padronização de roupagem pop.

Neste contexto surge a Tímpano Discos. Não somos uma gravadora, no sentido podre e decadente que as caracterizamos. Gostamos de nos definir como uma antigravadora, um anti-selo, no sentido em que nos interessamos por aquilo que esta grande mídia não se interessa, por tudo aquilo que não se enquadra em suas estratégias mercadológicas artisticamente nulas. Nos interessamos pela música, seja de que estilo for, desde que feita com alma e sem preocupações comercialóides. O verdadeiro artista, para nós, produz simplesmente aquilo que deseja expressar, sem concessões. O verdadeiro artista não aceita pressões ou imposições de qualquer tipo.

Levantamos a bandeira da gravação caseira, low-tech. Acreditamos que talento e criatividade independem de sofisticação tecnológica. Apostamos num modelo de produção e distribuição independentes. Sabemos que as dificuldades são imensas. Pagamos o preço por nossas posições, que a muitos parecerão radicais. E este preço é, invariavelmente, estar do lado oposto de onde correm dinheiro, holofotes e favorecimentos políticos. Estamos certos, porém, de que o tempo mostrará que não estamos errados.

Artistas associados a nós optarão pelo copyleft, que libera a cópia e a distribuição, mas que obriga a citação da autoria. Alguns poderão ir além e abrir os "fontes" da sua obra, possibilitando até a modificação e redistribuição por terceiros. Uns poucos, talvez, continuarão no modelo tradicional de copyright. Mas mesmo estes sabem ser impossível a distopia que reside no coração das gravadoras, que é proibir toda e qualquer cópia não autorizada de seu material.

Sim, nossos CDs serão vendidos. Afinal, todos têm que comer e novas gravações têm que se realizar. Porém, a idéia é praticar o menor valor possível, bem próximo do custo. Parcerias com gráficas, com fornecedores de CDs podem ajudar nesta tarefa. E, para as bandas adeptas do copyleft, quem não quiser comprar o CD, vá à internet e baixe. Algumas disponibilizarão, inclusive, a arte do CD para download. Quem comprar nossos CDs saberá que está fazendo crescer e se desenvolver uma iniciativa que busca saídas para o atual massacre do "mais do mesmo" musical a que somos vítimas. Quem adquire CDs de grandes gravadoras estará financiando um sistema opressor, anticriativo e antiartístico, que destruiu o Napster, o AudioGalaxy e que busca cercear, a qualquer custo, a liberdade em nome do lucro. Nos consideramos co-irmãos das iniciativas de selos independentes por todo o Brasil e pelo mundo, que buscam o mesmo que nós: diversidade, liberdade, arte.

Enfim, esta é a proposta da Tímpano Discos. É isto o que pensamos da música e do mundo. Apóie essa iniciativa perguntando, opinando, sugerindo, comprando os CDs, baixando as músicas, indo aos shows. Venha pensar e fazer música com a gente!

Escrito provavelmente por volta de 2003. O selo - já diz o título do post - não chegou a vingar. Porém, boa parte das premissas do manifesto vêm sendo realizadas aqui e ali e cada vez mais pessoas e artistas percebem que existe vida inteligente além do óbvio.

sábado, 30 de agosto de 2008

O fascismo apresenta suas armas

Este assunto, que também diz respeito a você, já que está lendo estas palavras, deveria estar sendo muito, mas muito mais debatido. Contudo, passa em brancas nuvens.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

eternidades da semana >> 23 a 29/08/2008

Mais uma vez, comentários e impressões imediatas a respeito dos discos ouvidos pela primeira vez esta semana.

VIRGULÓIDES - As Aventuras dos Virgulóides
(BMG, 2000)

Toda vez que ouço alguém falar que um artista adquiriu maturidade já fico com a pulga atrás da orelha e imagino uma das opções: (1) o fulano deve ter lançado um disco quadradinho, metido a cabeça e bom pra tocar em barzinho; (2) regravou chatíssimas figuras carimbadas da MPB; (3) está "revisitando" a bossa-nova com batidas eletrônicas e apresentando-a às novas gerações; (4) tudo isso junto...

Porém "maturidade" foi a palavra que me veio à cabeça pra definir o terceiro disco dos Virgulóides. E também ainda não será desta vez que os detratores vão gostar da banda: todos os defeitos ainda estão lá. Bem, quase todos. O vocalista canta a maioria das músicas com uma voz bem melhor do que o esganiço irritante que marcou os dois primeiros discos da banda. Não que eu não goste dos outros dois, gosto bastante até. Mas o vocal sempre foi o ponto fraco da banda. Seguido de perto pelas letras ridículas.

Estas, por sinal, estão melhores, ainda engraçadas (ou metidas a), mas mais contidas e certeiras. Esta mudança já se anunciava no disco anterior, em pérolas como A Tereza Quebrou. As letras continuam bem humoradas, falando sobre maconha, bebedeiras e baladas, porém mais contidas e menos pueris. Melhores, de um modo geral.

O som deixou a indefinição entre pagode e hardcore do segundo disco e apostou de vez no samba-rock. Aposta ganha: o som do Virgulóides neste disco é menos esquizofrênico (o que não é necessariamente bom) e mais bem resolvido (o que é necessariamente bom!). A banda está afiadíssima, com direito a um brasileirinho do capeta no fim de Sou Maloqueiro, E Daí?. O disco tem até mesmo uma balada, Loucura Boa, cuja letra traz um achado: "eu sei que eu não sou normal / e é exatamente isso que eu acho legal". Muito bom!

Com este disco, os Virgulóides pegaram uma ascendente, pena que foi o último.



SYSTEM OF A DOWN - Mesmerize
SYSTEM OF A DOWN - Hypnotize
(Sony, 2005)

Mesmerize e Hypnotize, discos lançados no mesmo ano, na verdade, seriam um disco só, duplo, mas que por questões comerciais acabou sendo lançado em dois discos simples, em um intervalo de aproximadamente 6 meses. O grande problema de se descrever estes discos é descobrir qual é o melhor.

No geral, é o mesmo System of a Down de sempre, o que é ótimo. Porém, algumas mudanças logo se fazem notar, como a atuação do guitarrista Daron Malakian dividindo os vocais com o cantor oficial Serj Tankian. As duas vozes fazem um contraponto bastante interessante em várias músicas, ainda que seja estranho ouvir SOAD com outra voz.

O som está mais melodioso que os anteriores (principalmente o Mesmerize), mas mantendo - e até ampliando - a mistura rítmica que é marca registrada da banda. A pancadaria também ainda está lá, intacta. As famosas misturas com música armênia também se fazem presentes. Destaques para B.Y.O.B., Violent Pornography, Cigaro, Attack, Soldier Side, Kill Rock n' Roll e Stealing Society.

Pra quem gosta da banda, é só alegria. Quem não gosta vai continuar não gostando. Quem não conhece, não sabe o que está perdendo: rock n' roll vigoroso, um pouquinho de metal (mas nada que assuste os não iniciados), excelentes melodias, ótimos músicos e vocalistas. Sofisticado sem ser cabeça e pop sem ser descartável, coisa que pouquíssimos conseguem. SOAD é uma banda extremamente criativa e inovadora, que inventou o próprio estilo. Estes dois discos apenas confirmam e ampliam esse status. Mesmerize/Hypnotize é System of a Down melhor do que nunca!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Fé na urna eletrônica

Quem me conhece - e vem alguém aqui que não me conhece? - sabe que sou desenvolvedor de software nas horas não vagas. Pois numa destas horas descobri um interessante texto a respeito das nossas incensadas urnas eletrônicas, contendo uma esclarecedora entrevista com um especialista em segurança da informação e alguns links para aprofundamento.

A conclusão é simples: estamos colocando fé demais em uma tecnologia obscura e fechada (li em algum lugar que só agora, para as eleiçoes de 2008 as urnas utilizarão Linux; o artigo que linkei, porém, fala em WindowsCE), e, nos moldes atuais, de difícil auditoria e pouquíssima transparência. Nota para os não iniciados: o sistema operacional Linux possui o código-fonte aberto, o que facilita auditorias e verificações. O VirtuOS, sistema utilizado até agora, é uma caixa-preta inauditável; o WindowsCE, caso seja utilizado, também. Além do problema tecnológico, os órgãos responsáveis pelas eleições não têm colaborado no que tange à verificabilidade do processo.

É necessário dar o máximo de transparência ao processo, para que a democracia representativa não se torne algo ainda pior do que já é, e com isso eliminando para sempre a já ínfima possibilidade de mudança real pela via institucional.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

resenha >> MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia

MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia
(Excelente Discos, 1996)



O mundo livre s/a - se alguém ainda não sabe de quem se trata - é, junto com Chico Science & Nação Zumbi, o maior expoente do movimento Manguebit - ou manguebeat, como o movimento acabou ficando conhecido.

Depois do aclamado début Samba Esquema Noise, o mundo livre s/a surpreende e lança seu disco mais roqueiro, quase punk. Nada dos climas eletrônicos de Carnaval na Obra e Por Pouco, os dois discos imediatamente posteriores. Os pandeiros pouco dão o ar da graça. Em compensação, guitarras, guitarras e mais guitarras.

O discurso - esse, uma constante nos discos da banda - afiadíssimo e inspirado, o Zero Quatro de sempre pondo o dedo na ferida de modo lírico e inteligente.

Guentando a Ôia saiu pela Excelente Discos, gravadora do Carlos Eduardo Miranda na época. Apesar de hoje em dia ser jurado do Ídolos, ele produziu muito do que houve de melhor e mais original na música brasileira dos anos 90: mundo livre s/a, Graforréia Xilarmônica, Raimundos, Virgulóides etc.

Vamos ao disco, que abre com Free World, iniciando com um breve mas belo dueto do cavaquinho de Zero Quatro e da guitarra de Bactéria Maresia - sim, este é o nome artístico do tecladista/guitarrista -, para cair num clima Jorge Ben - ídolo de Zero Quatro - dos velhos e bons tempos. Destaque para a sensacional cozinha de Fábio Malandragem (baixo) e Tony Regalia (bateria).

Segue Destruindo a Camada de Ozônio, com participação de Chico Science dividindo os vocais com Zero Quatro. Creio que um dos únicos registros oficiais dos dois cantando juntos. Originalíssima linha de guitarra de Zero Quatro acompanhada pelos teclados de Bactéria, e uma tímida participação de Otto Fuleiragem nas percussões. Participação tímida, aliás, em todo o disco, tanto nas composições quanto na participação nas músicas, o que provavelmente já era sinal do desgaste de Otto no grupo. Depois deste disco ele saiu da banda, abandonou o "Fuleiragem" do nome artístico, lançou o original e elogiadíssimo Samba Pra Burro e o resto é história.

O pau come em Computadores Fazem Arte, música de Zero Quatro que havia sido gravada por Chico Science & Nação Zumbi dois anos antes, em seu disco de estréia, Da Lama ao Caos. É grande o contraste da versão lenta e suingada do CSNZ com a levada quase hardcore do mundo livre s/a.

Em Desafiando Roma, Zero Quatro saúda o Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, à época praticamente desconhecido no Brasil. O EZLN é uma organização de resistência dos indígenas do estado de Chiapas, no México, contra o governo nacional. É uma canção belíssima, uma das melhores do disco, tem uma delicada cama de teclados (Bactéria) sobre a criativa guitarra de Zero Quatro. "Essa parte do texto eu ainda estou maquinando/Tem de ser direto e epidêmico/Não esquecerei de mencionar os banqueiros americanos/César há de tremer/Viva México!", diz a letra, incorporando Marcos em um de seus manifestos publicados através da Internet.

O cavaquinho volta à cena, e muito bem trabalhado, em A Música que os Loucos Ouvem (Chupando Balas), uma balada em que a ironia de Zero Quatro chega às raias do punk: "Essa não é a música que os arcebispos ouvem quando estão fornicando/Essa não é a música que os jornalistas ouvem quando estão mentindo". Destaque para o minimalismo e a perfeita integração cavaco/baixo/bateria.

Em Tentando Entender as Mulheres volta o clima Jorge Ben e entra em cena a veia machista pero bem humorada: "Todo homem deveria ter um carro/Ou senão nem precisava ter testículos/De que serve um testículo sem carro?/Sem o carro o testículo é um saco". Engraçadíssima e boa faixa.

Rock 'n' roll puro e guitarras a dar com o pau em Girando em Torno do Sol, que descamba num clima meio psicodélico, cheio de teclados. A faixa termina com a não creditada música incidental Celular de Naná, de Otto, um pagode tocado como que num bar entre copos de cerveja, tambores e cavaquinho. Essa música viria a ser registrada no CD de estréia de Otto, Samba Pra Burro.

A melhor e a mais experimental música do disco é Seu Suor é o Melhor de Você. Se você conhece a música sabe do que estou falando. Se não conhece, tente imaginar: uma guitarra distorcida, cavaquinho e bateria de samba-reggae, um surdo na marcação e surtos hardcore no refrão. Apesar de toda essa salada, a música tem um ritmo irresistível. Fora a letra escatológica: "Você tá cheia da vida/Logo logo vai menstruar/Guarde um pouco pra mim/Você quer foder com o mundo/Basta abrir as pernas/Deixe o resto pra mim". Um dos pontos altos da música brasileira dos 90.

Em Militando na Contra-Informação, a banda inova mais uma vez. Zero Quatro simplesmente repete a conversa do ex-Ministro da Fazenda Rubens Ricupero - aquele do "O que é bom a gente fatura, o que é ruim esconde", lembram? - com o repórter da Rede Globo Carlos Monforte. A conversa foi inadvertidamente transmitida e muitas pessoas conseguiram assistir de suas casas através das antenas parabólicas. Entre outras pérolas, o ministro dizia que fazia campanha para Fernando Henrique Cardoso simplesmente falando bem do Plano Real, que ele era o melhor cabo eleitoral de FHC e ninguém poderia falar nada. E que isso, para a Rede Globo, teria sido "um achado", pois não precisaria dar um "apoio ostensivo" como fez na campanha do Collor. Era só por o ministro no ar elogiando o Real e ninguém poderia falar nada. Seria uma "solução indireta". Ponto para o mundo livre s/a.

Segue Leonor, uma belíssima canção de voz e cavaquinho. As limitações vocais de Zero Quatro ficam em total evidência. Contudo, é exatamente esta sinceridade extrema que dá vida à canção. Diz-se que Carlos Eduardo Miranda, o produtor do disco, teria acordado Zero Quatro no meio da madrugada para gravar a música, já no apagar das luzes das gravações. A impressão é que a música foi gravada em um só take, ou quase. Mais punk impossível, mesmo que só com voz e cavaco.

Hardcore e vocais semi-guturais. Em Roendo os Restos de Ronald Reagan o mundo livre s/a abre a caixa de ferramentas contra o ex-presidente dos Estados Unidos, misturando-o com a lenda recifense da Perna Cabeluda. Só faltou fechar um pouco mais as distorções das guitarras.

Zero Quatro encarna Jorge Ben - é inconfundível a influência, tanto nos vocais quanto em melodias e arranjos - em Pastilhas Coloridas, uma alusão diretíssima às experiências químicas do pessoal da "Ilha Grande". "Quando a erva faltava/Qualquer droga era boa", diz a letra.

A faixa-título fecha o CD, com outro belo experimentalismo rock 'n' roll, alusões ao "Pastor (Roberto?) Marinho", cujo rebanho "goza sofrendo".

Guentando a Ôia, subestimadíssimo disco do mundo livre s/a, é o mais roqueiro e, até certo ponto, mais direto da banda. É dificílimo enquadrar uma banda tão própria como o mundo livre em qualificações. Mesmo para os heterogêneos padrões do manguebit, é um disco bastante atípico. Só ouvindo pra crer. Vale muito a pena, é um - se me perdoam o trocadilho - excelente disco!

domingo, 24 de agosto de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

faça seu ouvido feliz >> wado

A MPB já não é mais aquela. O que é ótimo! Nos anos 00, ela vem se reinventando e trazendo novos artistas que já não mais se dobram em vassalagem às vacas sagradas de sempre, oxigenando e removendo o ar de naftalina da MPB tradicional. Zeca Baleiro e Lenine são talvez os exemplos mais mainstream desta tendência. Comendo pelas beiradas e longe dos holofotes e da MTV vem o alagoano - de coração - Wado.

Conheci o som do cara baixando o disco mais recente, Terceiro Mundo Festivo. O disco é simplesmente excelente. Ótimas melodias, daquelas que grudam, mas sem ser descartáveis. Som minimalista e bem sacado. Letras muito boas. No início achei a voz dele bem estranha - na verdade, é mesmo estranha! - mas depois de algumas músicas eu já estava cantando junto e emulando a voz do cara sem perceber. Não vou me estender tecendo merecidos elogios ao disco: já fizeram isto. Ainda não ouvi os discos anteriores, mas estão com alta prioridade na agenda.

Além de ótimo compositor, o sujeito é antenado com os novos tempos. Seus quatro discos estão disponíveis para download no site oficial. Faça seu ouvido feliz e passa lá. E se os três primeiros têm o mesmo nível do quarto, então, é passagem obrigatória.

domingo, 17 de agosto de 2008

eu fui >> Mukeka di Rato em Macaé (16/08/2008)

Conforme anunciado outro dia aqui no blog, neste sábado fui ao show do Mukeka di Rato em Macaé. No mesmo dia se apresentaram as bandas Residüs (daqui de Campos), Cervical e Protesto Suburbano, ambas de Macaé.

Além de mim, saíram na mesma comitiva os loucos André Zamana, Gustavo "Star Wars", Thiago Kerzer e Érica (noiva do Thiago), arrastada à insanidade por este. Ao chegarmos lá, pouco antes das 19 horas, não havia quase ninguém. Gustavo ficou por lá e saímos os restantes para procurar algum lugar pra comer. Na volta, descobrimos que perdemos o show do Residüs. Mas a esfiha e o kibe estavam ótimos! E provavelmente estávamos ouvindo Bonde do Rolê na hora do show. Nota zero para nós, pois relatos no local - Gustavo - disseram que foi um dos melhores shows da banda.

A seguir, foi a vez do Cervical, do camarada Pascoal. Eu já havia assistido a um show dos caras em Campos e a coisa é realmente destruidora. Um hardcore fodido e muito bem executado. Até entrei na roda, e havia milênios que eu não fazia isso. A grande diferença deste para o show que vi em Campos foram as músicas cantadas em uníssono pela galera. Na empolgação com o show, até esqueci de tirar fotos. Thompson ficaria orgulhoso de meu desempenho como jornalista na cobertura de Residüs e Cervical. Posso dizer apenas que a roda estava do caralho e a banda com excelente presença de palco. Já que não teve foto da banda, pelo menos tirei uma da Água Mineral Cervical, que rolou - na verdade, foi inventada - por lá.

Da metade pra frente decidi abrir mão do purismo gonzo e pelo menos tirar umas fotos dos shows. Era a vez do Protesto Suburbano. A banda já é velha conhecida e fez mais um ótimo show. Assim, como aconteceu com o Cervical, todas as músicas foram berradas em coro pela galera. O ponto alto foi a clássica S.O.S. Praia do Pecado, que me fez entrar na roda e tomar um belo soco - com desculpas prontamente pedidas, como de praxe. E desta vez teve foto!

A última banda a se apresentar foi o Mukeka di Rato. Quem esperava que, agora, com gravadora famosa e tudo mais os caras fossem ficar menos toscos, se enganou. É, ainda bem, o mesmo Mukeka de sempre. Pancadaria desenfreada e uma quantidade tão grande de pessoas em frente ao palco que a roda se tornou uma massa compacta de pessoas deslizando de um lado para outro. Deslizando, porque o chão estava completamente molhado por milhões de cervejas derrubadas no meio da roda. Como eu sou um mukekeiro old school e só conheço os dois primeiros discos, boa parte das músicas eram desconhecidas para mim, mas isto não fez a menor diferença! A atuação do público foi um show à parte (as músicas Mickey e Burzum Marley, por exemplo, foram estupradas por fãs afoitos que subiram para cantar, esta última pelo George, vocal do Residüs). Volta e meia o vocalista Sandro se jogava do palco no meio da galera: numa dessas consegui cantar um pedaço do refrão de Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra. As músicas? Bom, além das já citadas, pude reconhecer Cobra Criada, Heróis da Nação Falida, Quer ir? Vai!, Homem Borracha, Praia da Bosta e outras que não vou me lembrar. Só clássico! Enfim, não foi o melhor show que eu assisti na vida (esse privilégio ainda é dividido entre o Imago Mortis em 1999 e o Sheik Tosado no Rock In Rio 3 [e o El Efecto em Macaé, 2005]), mas Mukeka di Rato é diversão garantida, sendo com certeza um dos melhores shows de hardcore pra se ver no Brasil.

[aviso: Fui editar o post para mexer na foto da água mineral, fiz merda e acabei apagando-o e tive que recuperar uma versão do meu HD. Então, se há alguma coisa diferente nesta versão em relação à anterior, não é o blogspot que ficou maluco.]

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

eternidades da semana >> 09/08/2008 a 15/08/2008

Abrindo mais uma seção no blog, eternidades da semana trará semanalmente (duh!) os discos que eu ouvi pela primeira vez durante a semana, acompanhados de mini-resenha. Só entram discos que eu nunca havia escutado antes, mesmo que sejam mais velhos que Elvis.

Aqui aparecerá música de todo tipo, de gospel a metal extremo, passando por MPB, samba e qualquer outra coisa sonora que passar diante de mim.

Quanto a letras, normalmente só farei comentários a respeito das que forem em português.

Nesta semana, os discos novos que passaram por estes calejados ouvidos foram:

I WRESTLED A BEAR ONCE - I Wrestled a Bear Once
(Independente, 2007)

Indicação de Herr Kerzer, IWABO é uma banda de loucos varridos. Imagine um deathgrind ultraviolento e bastante técnico cantado(!?) com direito a alternância entre guturais e rasgados. Imagine que esses vocais são emitidos por uma mulher, com voz suficiente pra envergonhar muito marmanjo por aí (ainda que provavelmente ela utilize algum complemento eletrônico). Imagine que o som feito pela banda é completamente quebrado, com alterações de tempos e mudanças o tempo inteiro. Imagine, ainda, que um dos membros da banda é um tecladista e DJ e as músicas do grupo têm inúmeras intervenções de instrumentos eletrônicos com passagens dançantes. Imagine que, além disto tudo, há trechos onde a vocalista canta com voz limpa, fazendo a banda soar como um Evanescence experimental. Por fim, ponha nessa banda o esdrúxulo nome de I Wrestled a Bear Once e você terá como resultado o viciante disco aqui comentado.

Mesmo ouvindo de tudo - tudo mesmo! -, não canso de me surpreender (felizmente de modo positivo na maioria das vezes) com essas bandas malucas que volta e meia me aparecem. IWABO, desde já, entrou para o seleto grupo das bandas preferidas.

Veja um clip da banda:



DISKREET - Infernal Rise
(Siege of Amida/Candlelight, 2007)

Normalmente, descarto de cara bandas ou discos com bobagens relativas a demônios, satãs, infernos e coisas do tipo. Porém, atraído pelo estranho nome da banda, acabei arriscando uma audição e Diskreet acabou se revelando uma boa surpresa. Os estadunidenses fazem um death/grind não muito original, seguindo todos os cânones do estilo, mas bastante competente. Destaque para Infernal Throne - apesar do título bobo - e The Bigger Complex. Infernal Rise é o único trabalho da banda até o momento e uma boa pedida para os fãs do chamado "technical death/grind". Pancadaria das grossas.


LYE BY MISTAKE - Arrangements for Fulminating Vective
(Lambgoat, 2006)

Um dos melhores e mais inovadores discos ouvidos nos últimos tempos. Basicamente, é uma banda de mathcore com fortes influências de grindcore e jazz, levada a cabo por um quarteto de virtuoses. O disco é simplesmente excelente, porém não possuo condições de descrevê-lo de modo adequado, tamanha a quantidade de elementos e a complexidade das músicas. Definitivamente, não é música ambiente. Vale a pena MESMO. Forte candidato, desde já, a melhor eternidade da semana de 2008.

Os caras tocando ao vivo a música mais legal do disco, Nero's Intention:



BONDE DO ROLÊ - With Lasers
(Domino, 2007)

Logo de cara um aviso: Bonde do Rolê é uma "banda" de funk. Nada de James Brown, estou falando de funk carioca, pancadão, mas uma banda curitibana formada por brancos de classe média. Isto faz toda a diferença (não necessariamente pra melhor!), ou seja, não é funk "de raiz", mas um pastiche que junta o escracho grosseiro e a batida do funk com samplers improváveis de guitarras distorcidas e um grande número de eletroniquices alheias ao funk mais tradicional.

Além de um DJ, a banda é formada por dois vocalistas, um homem e uma mulher. Ela se dá bem, pois canta(?!) à moda das funkeiras de Dança da Motinha e afins. O vocal dele é uma merda sem muito destaque, mas quem se importa? As músicas versam sobre temas tais como a relevância sexual do ânus, a sexualidade de James Bond e as desventuras sexuais de uma cachorra (a vocalista, no caso), tudo narrado nas mais escatológicas minúncias.

Por incrível que pareça, a banda tem feito muito sucesso no exterior. Caso algum leitor se interesse por correr atrás da coisa, prepare o coração pois a baixaria é extrema. Se você se leva a sério, passe longe. Só escute se tiver - muito! - senso de humor.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ainda Raul Seixas

Algumas pessoas que leram o post sobre Raul Seixas perguntaram se eu nunca havia escutado Tente Outra Vez, Medo da Chuva, A Maçã e outras, que não têm nada do rock 'n roll de que eu falei no post. Pensando mais um pouco, deduzi que, realmente, uma grande quantidade de sucessos do sujeito são baladinhas.

Comecei a pensar se essa associação do sujeito com a imagem de roqueiro tradicionalzão não seria apenas uma maluquice minha e fui pesquisar na Internet. Eis que encontrei um texto do Lobão afirmando a mesma coisa:
O Raul não era esse eterno roqueiro, ele era um músico popular brasileiro. O rock é um artifício para ele ser um artista, para poder elaborar e pensar em outras possibilidades. Existe uma endeusamento equivocado em amá-lo pelo que ele não é. Colocam o trabalho do Raul como uma coisa do ponto de vista muito simplista, como se ele fosse um heróis de história em quadrinhos. Ele era mais que isso, viveu uma série de coisas muito mais intensas e mais diversificadas do que a imagem póstuma que ficou cristalizada.

Assim fico mais tranquilo, não estou - tão - maluco.

sábado, 9 de agosto de 2008

Raul Balada Seixas

Como bom fã de coisas-que-quase-ninguém-conhece como Graforréia Xilarmônica, Japanische Kampfhörspiele, Mula Manca, Behold... the Arctopus e El Efecto, costumo torcer o nariz para medalhões. Como um exemplo disto, só fui parar pra ouvir Los Hermanos de verdade em 2007, quando todo mundo e mais mil já sabiam de cor todas as músicas.

Assim, eu nunca havia ouvido Raul Seixas com atenção. Aproveitando que o clássico eterno Thiago Kerzer tem todos os discos, livros e badulaques afins do Raulzito, resolvi dar uma chance ao "pai do rock brasileiro", segundo o seu verbete no Wikipedia. Nunca me interessei muito por me evocar a imagem estereotipada do roqueiro tradicional, ortodoxo. E ortodoxo, no meu dicionário pessoal, significa "chato pra caralho". Definitivamente, essa coisa de Raul "Rock" Seixas nunca me atraiu. Gosto muito de rock, mas nada de ortodoxia. Porém, o cara é um clássico, não conhecê-lo decentemente é uma lacuna imperdoável e tal. Desse modo, resolvi essa semana saldar esta pequena dívida comigo mesmo e simplesmente colocar o baiano pra cantar. E não é que o bagulho é do bom? Do bom e bem diferente do que eu imaginava.

Primeiro, um monte de baladas. Muitas, inúmeras, sem fim. Começa a rachar a caricatura - que eu mesmo fiz sem conhecer - do tal Raul Rock Seixas (assim era como eu sempre pensava no sujeito). Depois, um bom número de intervenções de música nordestina, e isso bem antes do manguebit. Como foi uma maratona - acho que ouvi uns 15 discos em menos de uma semana - não me lembro de detalhes da maioria das músicas nem qual faixa é de qual disco. Se por um lado o viés "esotérico" algumas - muitas? - letras e algumas bobagens como Rock das Aranha me aborreceram um pouco, por outro há verdadeiros achados como Sapato 36 e Ouro de Tolo (esta eu já conhecia, também não sou tão desconhecedor-de-tudo-que-é-conhecido assim, mas não lembrava como era boa a letra). Outra coisa interessante foi ouvir novamente, coisa pouca de mais de 20 anos depois, Carimbador Maluco e sacar que há mais sentido do que supunha a minha infantil filosofia. Fãs do Raulzito normalmente são saudosistas e lembrei bastante deles ao ouvir A Verdade sobre a Nostalgia.

As melodias em geral são bem legais e, apesar de não ter uma boa voz, o sujeito é estiloso e carismático de sobra, tornando interessantes até mesmo músicas não tão boas.

Isto aqui não tem intenção de ser uma resenha, e eu nem ouvi com este sentido (e nem seria possível dada a quantidade de coisas, a maioria eu ainda nem assimilei). A idéia é apenas compartilhar impressões imediatas e relatar como os estereótipos escondem a verdade sobre as coisas. Por trás da imagem de roqueiro, "diabo é o pai do rock" e coisas assim se esconde um artista inquieto, multifacetado e, por vezes, genial. Um baladeiro que se dá bem até mesmo quando inventa uns forrozinhos. Pai do rock? Pffff...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Uma desmesurada predileção por terno-e-gravata

Enquanto ficamos no momento com apenas três candidatos a prefeito em Campos mas ninguém acredita que isto vá durar, fico pensando: como é que a imensa maioria das condenações de políticos e outros naipes de colarinho branco por juizados de primeira instância são tão fácil e repetidamente derrubados em instâncias superiores?

Das duas uma: ou os juízes de primeira instância são uns ineptos que não conhecem nada de direito (o que não acredito, a despeito da opinião do Excelentíssimo Senhor Doutor Gilmar Mendes), ou os juízes de altas cortes têm uma desmesurada predileção por senhores de colarinho branco.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

utilidade pública >> HARDCORE SOLIDÁRIO: Mukeka di Rato, Protesto Suburbano, Cervical e Residuus

Como no post com a resenha do Gaiola eu coloquei a data errada do show - já devidamente corrigida -, vou fazer a coisa direito e mandar o recado por aqui.

Defasagem a milhão


Olha quanta coisa tem saído por aí e eu ainda não ouvi:

  • Ed Motta, Chapter 9

  • Marcelo Birck, Timbres Não Mentem Jamais

  • Flores do Clube da Esquina

  • Beck, Modern Guilt

  • Japanische Kampfhörspiele/Are You God?, Split

  • Rogério Skylab, Skylab VIII

  • Misery Index, Traitors

  • Wander Wildner, La Canción Inesperada

  • Pato Fu, Daqui Pro Futuro

  • Manu Chao, La Radiolina

  • Desgraçados do Ritmo, Carnaval 2008

  • The Medina Brothers Orteskra, B.Cab



Isso sem falar em um monte de outros lançamentos cujo artista/banda não conheço mas parecem bem recomendados ou têm títulos interessantes. E nessa lista aí em cima tem coisa até do ano passado mas que eu ainda estou me devendo. Assim que for degustando, vou postando as impressões aqui.

É, acho que ando trabalhando demais...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

resenha >> MUKEKA DI RATO - Gaiola

MUKEKA DI RATO - Gaiola
(Läjä Rëkord's, 1999)



Esquentando os tamborins - ou seriam guitarras? - para o show do Mukeka di Rato no próximo dia 916 de agosto em Macaé, vou repostando uma resenha escrita há algum tempo sobre este excelente disco.

Se para você hardcore é aquele som que o CPM 22 e o Detonautas tocam, este CD, definitivamente, lhe é totalmente contra-indicado. Gaiola, segundo disco da banda Mukeka di Rato, são 16 faixas de pancadaria das boas, espremidas em pouco mais de 21 minutos de hardcore ensandecido, com muitos momentos que beiram o grindcore. Tive a oportunidade de assistir a um show da banda na turnê deste CD. É simplesmente destruidor.

Há uma notável evolução desde o álbum de estréia Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra, tanto lírica quanto sonora, principalmente esta última. O som deixou de ser um hardcore limpinho, pesadinho e rapidinho pra se tornar uma massa sonora de extrema violência, chegando a ser ininteligível em alguns poucos pontos. A produção mais tosca, proposital ou não, contribuiu para a elevação da sujeira e agressividade do som do Mukeka a níveis estratosféricos. Não fosse o vocal limpo estaríamos diante de um dos discos mais violentos já gravados no Brasil.

O disco já abre com uma pancada de respeito, Mickey. A letra, muito bem sacada e com a concisão característica do punk, o vocalista Sandro vocifera "Mickey não brinca criança doente/Ele tem medo se contaminar/Mickey só brinca meninos bonitos/Tenham dinheiro para lhe pagar". É difícil descrever, sem cair em repetições, o peso e a agressividade que tem essa e muitas músicas do CD. Insano seria uma palavra bem adequada.

Vitória Poluída, com participação de Stéfano Bebê - que viria posteriormente a ser vocalista do Mukeka - nos vocais, é puro grindcore, trazendo um "belíssimo" dueto dos vocais guturais de Bebê e os vocais gritados de Sandro. O mesmo tipo de crítica ecológica pode ser vista na bem-humorada Praia da Bosta. Não tão pesada quanto a maioria das músicas do disco, diz ironicamente: "Vamos dar um passeio na praia/Pisar em merda e em água de vala/Comer um siri podre com conservante/Cheirinho de lixo de restaurante".

Mais um mérito de Gaiola é trazer músicas tratando de temas românticos sem cair em clichês ou melodramas. Em Nossos Filhos, a balada - se é que se pode chamar assim alguma música do Gaiola - do disco, mostra a projeção de um amor que poderia ter surgido de um encontro. Canta a ótima letra: "Nossos filhos seriam punks, straight edges, crusties, libertários/.../Na estante estariam os livros, Marx, Drummond, Monteiro Lobato/Se naquele dia em Brasília você tivesse me esperado". A turma do emocore tem muito a aprender. A outra música "romântica", Perda, chega a ser surreal, trazendo um lamento de um amor perdido sobre um arranjo absurdo de tão pesado.

As críticas sociais, bastante presentes no primeiro disco, também estão aqui, na Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra - sim, é o nome do primeiro CD, mas a música só existe no Gaiola. Pasqualin é um palhaço que vive em Vitória, cidade da banda, retratado nessa música - com ótima melodia e riffs bastante criativos - como mais um dos brasileiros que enfrentam a luta diária pela sobrevivência.

Não há em Gaiola qualquer sinal de virtuosismo, solos e outras coisas que embasbacam a tantos. Gaiola é pura e simplesmente punk, hardcore, grindcore, na sua mais pura e simples significação: rock rápido e pesado contra o sistema. E esse papel, o Mukeka di Rato cumpre com louvor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

faça seu ouvido feliz >> El Efecto


"Faça seu ouvido feliz" é uma série - que começa agora! - onde eu indicarei uma banda ou artista com trabalhos disponíveis para download.

Os primeiros da lista são os cariocas do El Efecto. Qualquer definição do som da banda seria limitá-la. Rock, samba, nu-metal, MPB, cavaquinho, guitarras distorcidas, trompete, flauta, vai de tudo na mistura sonora do El Efecto. Melodias bem sacadas, letras inteligentes, enfim, a boa e velha música brasileira em uma versão caótica a la século XXI. Assisti a um show dos caras em Macaé em 2005 e foi simplesmente um dos melhores shows que já vi. Até os headbangers com os quais eu saí em caravana de Campos pra lá se empolgaram com o show.

No site da banda, no link Museu da Imagem e do Som, tem os dois discos lançados por eles, Como Qualquer Outra Coisa (2004) e Cidade das Almas Adormecidas (2007).

sábado, 3 de maio de 2008

resenha >> CHAKAL - Deadland

CHAKAL - Deadland
(Cogumelo Records, 2002)



Se alguém achava que depois da revolução detonada pelo Sepultura no cenário da música pesada mundial, não havia mais caldo metálico em Minas Gerais, eis que da terra do Clube da Esquina surgiu em 2002 um tremendo cala-boca, confirmando a tradição brasileira de ótimas e revolucionárias bandas de metal.

Falo do ótimo disco Deadland, do Chakal, que, a seis anos do lançamento, já pode ser considerado um clássico.

A faixa título, que abre o CD, já começa com o prenúncio do que vem a seguir: nada de saídas fáceis, nada de apelo a clichês do thrash ou death metal, nada de ortodoxias e tradicionalismos que cerceam a criatividade. Deadland começa - ótima surpresa - com batidas tribais, uma guitarra quase limpa e um vocal que à primeira audição me lembrou vocais de reggae, acompanhados de transmissões radiofônicas e vocalizações ao fundo. Entra uma guitarra pesadíssima e vocais rasgados e desesperados, mesclados com outros quase sussurrantes. Há uma curta seqüência de ruídos, como numa introdução de CD, que explode num thrash-core daqueles que dá vontade de partir pra roda só de escutar, descambando numa seqüência quase nu-metal, mas rápida e empolgante. Introdução perfeita para o CD.

Entra a segunda, Amputation Prayer, que se inicia com um clima semelhante ao fim da música anterior - eu adoro essas "progressivices"! Os vocais são desesperados, temperados por um ótimo baixo. A música é completamente imprevisível - mesmo - e, numa classificação preguiçosa, poderia ser rotulada como nu-metal, mesmo sendo nada parecida com os clichês do gênero. As guitarras, dobradas, têm um peso impressionante. Perfeita para ouvir com fone de ouvido. As quebradas de tempo dão um clima caótico à música. Até som de vinil rola na parada.

Communication Room, com seus 57 segundos, é recheada de barulhos como que de rádios sintonizando. Parece uma inacreditável mistura de Obituary com Marcelo Birck.

A quarta música é Call of the Undead, a mais acessível do CD e candidata imediata a hino underground. Tem um riff matador, que gruda logo de cara e não sai fácil da cabeça, com climas hardcore, um ótimo solo, também bem diferente do usual, caídas de baixo-bateria - baixo muito bem tocado, por sinal - e guitarras psicodélicas.

Lazarus Waltz começa com um clima tribal e um excelente solo de guitarra, meio hendrix-setentista, até descambar numa passagem cadenciada e pesadíssima. Dessa vez o guitarrista é quem mostra a que veio.

Liar (Safe Place) é a balada - se é que pode-se chamar assim - do disco. Nela, a banda mostra toda a sua qualidade. Vejam bem, quando digo qualidade, não é a "qualidade" técnica de guitarristas que excretam - não há outro termo - escalas ininteligíveis à velocidade de zilhões de notas por segundo e nem de bateristas numa bizarra competição do bumbo duplo mais rápido, num inócuo show de exibicionismo, que deixa em êxtase platéias de descerebrados. Nada disso. O Chakal mostra uma incrível união de técnica - que fica a serviço da canção, e nunca o contrário - e - esta sim, é a principal - criatividade. Liar tem passagens que evocam até o rock nacional dos anos 80. Quem ler o que escrevo pode ficar com a falsa noção de uma "salada" sonora. Novamente, nada disso. Todos estes ingredientes - se é que estes foram assim percebidos pela banda - são perfeitamente combinados, sem qualquer tipo de excesso, levando o metal a novos patamares. Tem-se a impressão de que o disco foi concebido com uma radical idéia de não adesão a qualquer rótulo, o que é ótimo, ainda que muitos não gostem e prefiram o metal como em gôndolas de lojas de disco, separadas bonitinho, estilo por estilo, rótulo por rótulo.

A penúltima faixa, Flying to the Empty, mais uma vez, mostra a qualidade instrumental da banda, aliada à criatividade que permeia todo o CD. Não há qualquer preocupação com velocidade, peso ou agressividade. É fácil perceber que estes vêm naturalmente, nada é forçado. Destaque para a bateria, bastante quebrada e muito bem tocada.

Fade Out - nome bastante adequado - , fecha o CD de modo perfeito.

Quanto à produção, o único senão do disco vai para a ausência das letras no encarte. A sonoridade e a estrutura das músicas sugere um conceito, mas, sem as letras, nada posso afirmar. Outro destaque vai para a ótima qualidade de gravação. Infelizmente, o disco não teve uma grande repercussão entre o público. Atribuo isso ao estéril radicalismo e apego reacionário a tradicionalismos que, infelizmente, são comuns entre os fãs de metal. O Chakal paga o preço do pioneirismo.

Em resumo, Deadland é contra-indicado para os reacionários do metal, aqueles adeptos do tradicionalismo, da linha dura, daquilo que chamo de TFP underground. Agora, para quem quer ouvir um CD de uma banda BRASILEIRA que aponta novas e interessantíssimas direções em um estilo tão saturado como o metal, é prato cheio. Deadland mostra uma banda madura, sem excessos, mas com fôlego e criatividade de iniciante. Nota dez é pouco.