terça-feira, 26 de agosto de 2008

resenha >> MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia

MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia
(Excelente Discos, 1996)



O mundo livre s/a - se alguém ainda não sabe de quem se trata - é, junto com Chico Science & Nação Zumbi, o maior expoente do movimento Manguebit - ou manguebeat, como o movimento acabou ficando conhecido.

Depois do aclamado début Samba Esquema Noise, o mundo livre s/a surpreende e lança seu disco mais roqueiro, quase punk. Nada dos climas eletrônicos de Carnaval na Obra e Por Pouco, os dois discos imediatamente posteriores. Os pandeiros pouco dão o ar da graça. Em compensação, guitarras, guitarras e mais guitarras.

O discurso - esse, uma constante nos discos da banda - afiadíssimo e inspirado, o Zero Quatro de sempre pondo o dedo na ferida de modo lírico e inteligente.

Guentando a Ôia saiu pela Excelente Discos, gravadora do Carlos Eduardo Miranda na época. Apesar de hoje em dia ser jurado do Ídolos, ele produziu muito do que houve de melhor e mais original na música brasileira dos anos 90: mundo livre s/a, Graforréia Xilarmônica, Raimundos, Virgulóides etc.

Vamos ao disco, que abre com Free World, iniciando com um breve mas belo dueto do cavaquinho de Zero Quatro e da guitarra de Bactéria Maresia - sim, este é o nome artístico do tecladista/guitarrista -, para cair num clima Jorge Ben - ídolo de Zero Quatro - dos velhos e bons tempos. Destaque para a sensacional cozinha de Fábio Malandragem (baixo) e Tony Regalia (bateria).

Segue Destruindo a Camada de Ozônio, com participação de Chico Science dividindo os vocais com Zero Quatro. Creio que um dos únicos registros oficiais dos dois cantando juntos. Originalíssima linha de guitarra de Zero Quatro acompanhada pelos teclados de Bactéria, e uma tímida participação de Otto Fuleiragem nas percussões. Participação tímida, aliás, em todo o disco, tanto nas composições quanto na participação nas músicas, o que provavelmente já era sinal do desgaste de Otto no grupo. Depois deste disco ele saiu da banda, abandonou o "Fuleiragem" do nome artístico, lançou o original e elogiadíssimo Samba Pra Burro e o resto é história.

O pau come em Computadores Fazem Arte, música de Zero Quatro que havia sido gravada por Chico Science & Nação Zumbi dois anos antes, em seu disco de estréia, Da Lama ao Caos. É grande o contraste da versão lenta e suingada do CSNZ com a levada quase hardcore do mundo livre s/a.

Em Desafiando Roma, Zero Quatro saúda o Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, à época praticamente desconhecido no Brasil. O EZLN é uma organização de resistência dos indígenas do estado de Chiapas, no México, contra o governo nacional. É uma canção belíssima, uma das melhores do disco, tem uma delicada cama de teclados (Bactéria) sobre a criativa guitarra de Zero Quatro. "Essa parte do texto eu ainda estou maquinando/Tem de ser direto e epidêmico/Não esquecerei de mencionar os banqueiros americanos/César há de tremer/Viva México!", diz a letra, incorporando Marcos em um de seus manifestos publicados através da Internet.

O cavaquinho volta à cena, e muito bem trabalhado, em A Música que os Loucos Ouvem (Chupando Balas), uma balada em que a ironia de Zero Quatro chega às raias do punk: "Essa não é a música que os arcebispos ouvem quando estão fornicando/Essa não é a música que os jornalistas ouvem quando estão mentindo". Destaque para o minimalismo e a perfeita integração cavaco/baixo/bateria.

Em Tentando Entender as Mulheres volta o clima Jorge Ben e entra em cena a veia machista pero bem humorada: "Todo homem deveria ter um carro/Ou senão nem precisava ter testículos/De que serve um testículo sem carro?/Sem o carro o testículo é um saco". Engraçadíssima e boa faixa.

Rock 'n' roll puro e guitarras a dar com o pau em Girando em Torno do Sol, que descamba num clima meio psicodélico, cheio de teclados. A faixa termina com a não creditada música incidental Celular de Naná, de Otto, um pagode tocado como que num bar entre copos de cerveja, tambores e cavaquinho. Essa música viria a ser registrada no CD de estréia de Otto, Samba Pra Burro.

A melhor e a mais experimental música do disco é Seu Suor é o Melhor de Você. Se você conhece a música sabe do que estou falando. Se não conhece, tente imaginar: uma guitarra distorcida, cavaquinho e bateria de samba-reggae, um surdo na marcação e surtos hardcore no refrão. Apesar de toda essa salada, a música tem um ritmo irresistível. Fora a letra escatológica: "Você tá cheia da vida/Logo logo vai menstruar/Guarde um pouco pra mim/Você quer foder com o mundo/Basta abrir as pernas/Deixe o resto pra mim". Um dos pontos altos da música brasileira dos 90.

Em Militando na Contra-Informação, a banda inova mais uma vez. Zero Quatro simplesmente repete a conversa do ex-Ministro da Fazenda Rubens Ricupero - aquele do "O que é bom a gente fatura, o que é ruim esconde", lembram? - com o repórter da Rede Globo Carlos Monforte. A conversa foi inadvertidamente transmitida e muitas pessoas conseguiram assistir de suas casas através das antenas parabólicas. Entre outras pérolas, o ministro dizia que fazia campanha para Fernando Henrique Cardoso simplesmente falando bem do Plano Real, que ele era o melhor cabo eleitoral de FHC e ninguém poderia falar nada. E que isso, para a Rede Globo, teria sido "um achado", pois não precisaria dar um "apoio ostensivo" como fez na campanha do Collor. Era só por o ministro no ar elogiando o Real e ninguém poderia falar nada. Seria uma "solução indireta". Ponto para o mundo livre s/a.

Segue Leonor, uma belíssima canção de voz e cavaquinho. As limitações vocais de Zero Quatro ficam em total evidência. Contudo, é exatamente esta sinceridade extrema que dá vida à canção. Diz-se que Carlos Eduardo Miranda, o produtor do disco, teria acordado Zero Quatro no meio da madrugada para gravar a música, já no apagar das luzes das gravações. A impressão é que a música foi gravada em um só take, ou quase. Mais punk impossível, mesmo que só com voz e cavaco.

Hardcore e vocais semi-guturais. Em Roendo os Restos de Ronald Reagan o mundo livre s/a abre a caixa de ferramentas contra o ex-presidente dos Estados Unidos, misturando-o com a lenda recifense da Perna Cabeluda. Só faltou fechar um pouco mais as distorções das guitarras.

Zero Quatro encarna Jorge Ben - é inconfundível a influência, tanto nos vocais quanto em melodias e arranjos - em Pastilhas Coloridas, uma alusão diretíssima às experiências químicas do pessoal da "Ilha Grande". "Quando a erva faltava/Qualquer droga era boa", diz a letra.

A faixa-título fecha o CD, com outro belo experimentalismo rock 'n' roll, alusões ao "Pastor (Roberto?) Marinho", cujo rebanho "goza sofrendo".

Guentando a Ôia, subestimadíssimo disco do mundo livre s/a, é o mais roqueiro e, até certo ponto, mais direto da banda. É dificílimo enquadrar uma banda tão própria como o mundo livre em qualificações. Mesmo para os heterogêneos padrões do manguebit, é um disco bastante atípico. Só ouvindo pra crer. Vale muito a pena, é um - se me perdoam o trocadilho - excelente disco!

5 comentários:

José disse...

é verdade! esse disco é do caralho!!ouvi muito.samba punk.

George Gomes Coutinho disse...

Puta disco e instigante resenha Rodrigo.

Para os que não conhecem serviu pela síntese pedagógica...

Para os que conhecem instigou a dar uma olhadela para conferir ;).

Fábio Novais disse...

Este disco é um dos meus favoritos do Mundo Livre, acredito que só não seja menos "underground" do que "O Outro Mundo de Manuela do Rosário". Mas o peso misturado ao ritmo do samba é algo que até hoje é impar na música brasileira, mesmo que hoje seja uma espécie de moda misturar samba a tudo. Bela resenha.

www.todasurdezseracastigada.blogspot.com

Rodrigo Manhães disse...

@José:

Esse disco é ótimo mesmo! Valeu a visita!

@George:

Valeu pelos elogios, véio! Depois te pago aquela cerveja! Falando em cerveja, vamos beber quando pô?

@Fábio:
Eu acho que ele é até mais underground que o "outro mundo". Guentando a ôia é um dos discos mais injustiçados - em termos de reconhecimento - da música brasileira.

Em tempo: seu blog é muito legal, já devidamente RSSficado aqui.

Dolfo disse...

Disco fantástico! Um dos melhores que a banda já fez... A dificuldade que é o segundo disco parece que foi esquecida nessa situação. Samba Esquema Noise ótimo e Guentando a Ôia na mesma linha.
Viva Mundo Livre S/A, viva Pernambuco!