sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Manifesto para um selo natimorto

Em um mundo com internet, redes P2P – eDonkey, eMule, Kazaa, Soulseek – não há mais lugar para o velho e carcomido modelo das gravadoras convencionais, baseadas na dura e fria aplicação do copyright. Estas foram, sem sombra de dúvida, derrotadas pela história. A evolução tecnológica, gerada e fomentada pelo sistema capitalista para exponenciação de seus lucros, acabou por colocar à beira do abismo um setor inteiro do sistema: a indústria fonográfica.

Na prática, o que impede que alguém simplesmente baixe de programas ou redes de compartilhamento de arquivos as MP3 daquele CD novo que é anunciado na televisão? Desde que se tenha acesso à internet – e qualquer um que possa se dar ao luxo de pagar 30 ou 40 reais em um CD tem –, a resposta é um tiro seco: nada.

Como que para reforçar esta tendência, estas mesmas tecnologias hoje permitem que se possa gravar um álbum no computador de casa, com uma qualidade que pouco deixa a dever a gravações feitas em estúdios. A perda de qualidade é perceptível se comparada às gravações milionárias em estúdios superequipados? Por enquanto, sim. Mas nada impede que, em breve, tudo venha a se equiparar. E mesmo assim, esta perda de qualidade técnica de gravação é um preço pequeníssimo a pagar pela plena liberdade artística e criativa, algo que é impossível sob o investimento – e a evidente espera de retorno fácil – de empresas de entretenimento. E entretenimento, amigos, não é sinônimo de arte. E no mais das vezes passa bem longe disto.

A indústria do entretenimento – emissoras de televisão, rádios comerciais, produtoras, estúdios cinematográficos, estúdios de animação, gravadoras – tem a tendência, como indústria capitalista que não tem como deixar de ser, de buscar lidar com povos, espaços e gostos o mais homogêneos possível, sem especificidades ou diferenciações, sujeitos a ser enquadrados em estratégias padronizadas de produção, consumo e marketing. Assim, as grandes gravadoras buscam sempre o grande sucesso, que venda para o maior número possível de pessoas. A estas empresas não interessa a inovação, mas somente a repetição exaustiva de velhas fórmulas e a criação de pacotões musicais, como foram o axé music, sertanejo, pagode e o forró. E mesmo estilos tradicionais, como os três últimos, ao entrarem no jogo das gravadoras, são pasteurizados, perdem suas especificidades e passam por uma padronização de roupagem pop.

Neste contexto surge a Tímpano Discos. Não somos uma gravadora, no sentido podre e decadente que as caracterizamos. Gostamos de nos definir como uma antigravadora, um anti-selo, no sentido em que nos interessamos por aquilo que esta grande mídia não se interessa, por tudo aquilo que não se enquadra em suas estratégias mercadológicas artisticamente nulas. Nos interessamos pela música, seja de que estilo for, desde que feita com alma e sem preocupações comercialóides. O verdadeiro artista, para nós, produz simplesmente aquilo que deseja expressar, sem concessões. O verdadeiro artista não aceita pressões ou imposições de qualquer tipo.

Levantamos a bandeira da gravação caseira, low-tech. Acreditamos que talento e criatividade independem de sofisticação tecnológica. Apostamos num modelo de produção e distribuição independentes. Sabemos que as dificuldades são imensas. Pagamos o preço por nossas posições, que a muitos parecerão radicais. E este preço é, invariavelmente, estar do lado oposto de onde correm dinheiro, holofotes e favorecimentos políticos. Estamos certos, porém, de que o tempo mostrará que não estamos errados.

Artistas associados a nós optarão pelo copyleft, que libera a cópia e a distribuição, mas que obriga a citação da autoria. Alguns poderão ir além e abrir os "fontes" da sua obra, possibilitando até a modificação e redistribuição por terceiros. Uns poucos, talvez, continuarão no modelo tradicional de copyright. Mas mesmo estes sabem ser impossível a distopia que reside no coração das gravadoras, que é proibir toda e qualquer cópia não autorizada de seu material.

Sim, nossos CDs serão vendidos. Afinal, todos têm que comer e novas gravações têm que se realizar. Porém, a idéia é praticar o menor valor possível, bem próximo do custo. Parcerias com gráficas, com fornecedores de CDs podem ajudar nesta tarefa. E, para as bandas adeptas do copyleft, quem não quiser comprar o CD, vá à internet e baixe. Algumas disponibilizarão, inclusive, a arte do CD para download. Quem comprar nossos CDs saberá que está fazendo crescer e se desenvolver uma iniciativa que busca saídas para o atual massacre do "mais do mesmo" musical a que somos vítimas. Quem adquire CDs de grandes gravadoras estará financiando um sistema opressor, anticriativo e antiartístico, que destruiu o Napster, o AudioGalaxy e que busca cercear, a qualquer custo, a liberdade em nome do lucro. Nos consideramos co-irmãos das iniciativas de selos independentes por todo o Brasil e pelo mundo, que buscam o mesmo que nós: diversidade, liberdade, arte.

Enfim, esta é a proposta da Tímpano Discos. É isto o que pensamos da música e do mundo. Apóie essa iniciativa perguntando, opinando, sugerindo, comprando os CDs, baixando as músicas, indo aos shows. Venha pensar e fazer música com a gente!

Escrito provavelmente por volta de 2003. O selo - já diz o título do post - não chegou a vingar. Porém, boa parte das premissas do manifesto vêm sendo realizadas aqui e ali e cada vez mais pessoas e artistas percebem que existe vida inteligente além do óbvio.

3 comentários:

Zamana, ô André! disse...

nkniaxcjCaralho!!!!

thiago kerzer disse...

Estou cada vez mais convencido de que fazendo um material de qualidade, podemos ser pessoas que conseguem não viver, mas pelomenos aumentar nossa renda e financiar os próprios discos tocando de forma independente.
A endorama não sabe ainda que caminho vai tomar. É certo que estudaremos muitas idéias e que também tenmtaremos vários caminhos, mas nosso cd continua sendo feito, em sua maior parte, no sistema low-tech (ou seja, no meu computador). Porém, o diferencial é que agora eu tenho muito mais conhecimento para lidar com isso.
Fora isso, Dr. Zamana é um dos caras mais inteligentes nessa área e está nos apoiando 200%! Nosso cd vai sair (se tudo correr bem) até o fim do ano e tenho certeza que será muito melhor que muito "capital inicial" que eu escuto por aí...
E aí, vão botar os novos Eps do Tributo de Ódio pra ferver?

Rodrigo Manhães disse...

@Thiago:

Low-tech com conhecimento de causa na maioria das vezes é muito melhor que high-tech conduzido por mentes obtusas.

A respeito do manifesto, lendo-o hoje, é bastante ingênuo em muitas coisas, mas, na essência, o escreveria de novo e também acredito no que você falou.

Quanto ao Tributinho, já te falei que tem que botar prazo nessa porra, se ficar no "vamos fazer" eu não faço nada. Vamos combinar direito essa parada no fim de semana! E gostei do plural ("novos Eps"), tá com disposição!!