quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Maus tratos à língua?

Postei algo no twitter outro dia que me deixou com a pulga atrás da orelha. Eu dizia que a língua portuguesa era maltratada, e percebi que falei isto apenas porque é o que todo mundo fala, o tipo de chavão do senso comum que repetimos sem pensar. Quer dizer, eu até pensava assim há algum tempo, até começar a ler uma coluna escrita por um linguista (acabou o trema, certo? pois já vai tarde!), chamado Marcos Bagno na Caros Amigos. Os textos publicados nesta coluna têm me feito mudar de opinião sobre o "falar errado". Descobri o site do sujeito e acabo de ler um interessantíssimo artigo. Vai um trechinho abaixo:

Com isso, os elaboradores das primeiras obras gramaticais do mundo ocidental definiram os rumos dos estudos lingüísticos que iam perdurar por mais de 2.000 anos:
  • desprezo pela língua falada e supervalorização da língua escrita literária;
  • estigmatização das variedades não-urbanas, não-letradas, usadas por falantes excluídos das camadas sociais de prestígio (exclusão que atingia todas as mulheres);
  • criação de um modelo idealizado de língua, distante da fala real contemporânea, baseado em opções já obsoletas (extraídas da literatura do passado) e transmitido apenas a um grupo restrito de falantes, os que tinham acesso à escolarização formal.
Com isso, passa a ser visto como erro todo e qualquer uso que escape desse modelo idealizado, toda e qualquer opção que esteja distante da linguagem literária consagrada; toda pronúncia, todo vocabulário e toda sintaxe que revelem a origem social desprestigiada do falante; tudo o que não conste dos usos das classes sociais letradas urbanas com acesso à escolarização formal e à cultura legitimada. Assim, fica excluída do "bem falar" a imensa maioria das pessoas - um tipo de exclusão que se perpetua em boa medida até a atualidade.


O texto na íntegra pode ser lido aqui.

Quem se interessar em ler o artigo inteiro pode ir direto pra lá e ignorar o restante do meu post. Quem estiver com preguiça - ou não se interessar pela coisa - segue abaixo uma explicação a respeito dos nossos 'bicicreta', 'prano', 'broco' e afins.

Ao contrário da Gramática Tradicional, que afirma que existe apenas uma forma certa de dizer as coisas, a Lingüística demonstra que todas as formas de expressão verbal têm organização gramatical, seguem regras e têm uma lógica lingüística perfeitamente demonstrável. Ou seja: nada na língua é por acaso.

Por exemplo: para os falantes urbanos escolarizados, pronúncias como broco, ingrês, chicrete, pranta etc. são feias, erradas e toscas. Essa avaliação se prende essencialmente ao fato dessas pronúncias caracterizarem falantes socialmente desprestigiados (analfabetos, pobres, moradores da zona rural etc.). No entanto, a transformação do L em R nos encontros consonantais ocorreu amplamente na história da língua portuguesa. Muitas palavras que hoje têm um R apresentavam um L na origem:
LatimPortuguês
blandubrando
clavucravo
dupludobro
flaccufraco
fluxufrouxo
obligareobrigar
placereprazer
plicarepregar
plumbuprumo

Assim, o suposto "erro" é na verdade perfeitamente explicável: trata-se do prosseguimento de uma tendência muito antiga no português (e em outras línguas) que os falantes rurais ou não-escolarizados levam adiante. Esse fenômeno tem até um nome técnico na lingüística histórica: rotacismo.
Esse é só um mínimo exemplo de que tudo o que é chamado de "erro" tem uma explicação científica, tem uma razão de ser, que pode ser de ordem fonética, semântica, sintática, pragmática, discursiva, cognitiva etc. Falar em "erro" na língua, dentro do ambiente pedagógico, é negar o valor das teorias científicas e da busca de explicações racionais para os fenômenos que nos cercam.

O exemplo apresentado acima (mudança de L para R em encontros consonantais) não deve levar ninguém a supor que esses fenômenos variáveis e mutantes só ocorrem na língua dos falantes rurais, sem escolarização, pobres etc. Eles também ocorrem na língua dos falantes "cultos", urbanos, letrados etc., muito embora esses mesmos falantes acreditem ser os legítimos representantes da língua "certa".

Um comentário:

Bárbara Oliveira disse...

o prouni não resolveu isso não?!! na minha humilde opinião, língua portuguesa devia ser ensinada como língua estrangeira, ia ser mais honesto. E cá entre nós, conhecemos uma penca de "degetos" (é assim mesmo que se escreve isso?)pós academizados que sodomizam, sem ressaca moral nenhuma, a língua amada salve salve....quem jogaria o primeiro trema ou cecedilha? rss