quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> rogê

ROGÊ - Brasil em Brasa
(2008)



Este é um disco estranho. Rogê é um sambista/pagodeiro/MPBzeiro/reggaeiro e sabe-se-lá-mais-o-quê carioca e é difícil imaginar o que pode sair disto. A constante no disco é o clima de animação que está sempre presente (mesmo com a barra-pesada dos dois covers). O disco abre exatamente neste clima, com a faixa-título, um samba festejando o calor - figurado e literal - do Brasil. Depois vem Numa Cidade que inicia com uma narração: "Numa cidade muito longe daqui/Que tem favelas que parecem com as favelas daqui/Que tem problemas que parecem os problemas daqui...". Quando eu ouvi me pareceu já conhecer isto de algum lugar e depois me lembrei: das cenas finais do filme Tropa de Elite. Depois descobri também que foi gravada por Marcelo D2 e outros. Da letra se extraem ótimos momentos como:
"Porque tem homem mau
Que vira homem bom
Quando ele compra o remédio
Quando ele banca o feijão
Quando ele tira pra dar
Quando ele dá proteção

Porque tem homem da lei
Que vira homem mau
Quando ele vem pra tirar
Quando ele caga no pau
Quando ele vem pra salvar
E sai matando geral"


A letra é realmente muito boa e narra um encontro e um diálogo entre um policial corrupto e um traficante que caem baleados e são levados para a mesma ambulância. Vai um trecho, embalado por um pagode daquele das antigas, com direito a cuíca e tudo mais:
"(bandido) você levou tanto dinheiro meu e agora tá querendo me prender
(policia) eu te avisei, você não se escondeu, deu no que deu e a gente tá aqui pedindo a Deus pro corpo resistir
(ambos) será que ele tá a fim de ouvir?
(policia) você tem tanta pistola, bazuca, fuzil e granada, me diz pra que tu tem tanta munição
(bandido) é que além de vocês nós ainda enfrenta o outro comando, outra facção que só tem alemão sanguinário, um bando de otário marrento querendo mandar. Por isso que eu tô bolado assim
(policia) eu também tô bolado sim, é que o judiciário tá todo comprado, o legislativo tá financiado e o pobre operário que joga seu voto no lixo, não sei se por raiva ou só por capricho coloca a culpa de tudo nos homens do camburão
(ambos) eles colocam a culpa de tudo na população
(bandido) mas se eu morrer vem outro em meu lugar
(polícia) e se eu morrer vão me condecorar
(bandido) e se eu morrer será que vão lembrar?
(polícia) e se eu morrer será que vão chorar?
(bandido) e se eu morrer...
(polícia) e se eu morrer...

(narrador) chega de ser subjugado, subnutrido, subtraído, sub-bandido de um submundo, subtenente de um sublugar, um subproduto de um subpaís, sub-infeliz


Só esta música já vale o disco. E dá o que pensar.

Outro bom destaque do disco é outra versão: Construção. O sujeito teve a manha de transformar a música em um reggae e, sim!, ficou muito bom, inclusive o crescendo que existe na música original. A inserção de Deus lhe Pague também ficou excelente, algo meio rap. É assim que se faz versões, inovando, acrescentando elementos, sem pagação de pau. Ponto pro Rogê.

O resto do disco é preenchido por sambinhas, coisas meio Nando Reis e até um samba-rock. Eu gostei bastante e recomendaria o disco se tivesse a mais vaga idéia de quem gostaria de um disco de samba tão incomum.

Nenhum comentário: