domingo, 25 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> violins

Este ano tentarei escrever algo sobre todos os discos ouvidos e não apenas alguns como venho fazendo até agora. Os meus 2 ou 3 leitores percebem que venho tentando acertar um formato decente para esta coluna faz tempo, vamos ver se desta vez vai.

VIOLINS - Tribunal Surdo
(2007)



Deplorável. Se me pedirem uma única palavra para descrever este álbum, é exatamente esta. Tribunal Surdo expõe a imundície da alma humana sem nenhum tipo de disfarce ou metáfora. É direto, bruto, cru e violento. Um soco na boca do estômago, um chute no saco. Senão vejamos alguns trechos:

Delinquentes belos
se ninguém vir eu nunca peço perdão
se cada um é um assassino sem coração
esperando pra rir dentro de um camburão com sangue nas mãos

nós somos delinquentes belos em mundos possíveis
nós somos imperadores sérios em quartos de hospício
nós somos assassinos ébrios em frente aos seus filhos


O Anti-Herói (pt. 1)
tranque a porta que eu já ouvi barulho lá fora
pode ser que queiram roubar a minha moto nova
e queiram te violentar mas isso nem importa
é bem a cara desse mundo, você só deve olhar pela janela

e de repente eu pensei que puta morte bela se eu morrer
pra defender os bens que eu comprei a prazo e a prestação
e fingir que é teu meu coração, fingir morrer por nós
mas não, eu mato o ladrão e agora você me tem devoção
a mim, um lambedor de chão, que nem sei beber sem te meter a mão


Percebam que o narrador não é um observador da podridão: ele próprio faz parte da desgraceira, refletindo o que existe de toda esta merda dentro de cada um de nós. Mais um pouco:

Grupo de Extermínio de Aberrações
tá faltando soco inglês
o estoque de extintor não chega ao fim do mês
não tô pedindo aqui fortuna pra vocês
a gente quer limpar o mundo de uma vez

e eu garanto que seus filhos agradecem por crescer
sem ter que conviver com bichas e michês, pretos na TV,
discípulos de Che e putas com HIV


Esta última música chegou a ser alvo de denúncias de discriminação. Porém, é evidente a intenção da banda, principalmente quando se escuta o disco inteiro. Esta música, em particular, representa decerto boa parte dos sonhos inconfessáveis da classe média.

Interessante: a banda Terminal Guadalupe toca esta música em shows e substitui o segundo verso do trecho citado acima por "eu sou fiel ao papa bento xvi". Emblemático.

Missão de Paz na África
quando você me falou que ia se alistar
para lutar pelo bom eu tava tonto num bar
e eu não pensei que você já falava mesmo em lutar
você pensando em morrer e eu pensando em transar

seja bom se esse é o seu dom.

quando o navio partiu te levando pro mar
eu quis chorar de emoção
eu quis até te avisar que eu amei sua irmã no banco do meu passat
eu te desejo o melhor,
proteja o povo de lá e seja bom se esse é o seu dom


O Anti-Herói (parte 2)
e eu quero mais é te bater em paz
sem ouvir um choro, sem ouvir um 'Socorro'
(...)
e eu quero mais é te comer em paz
sem ouvir um gozo, sem ouvir um 'Socorro'


22
é que eu comprei uma 22 pra mim
e eu nem treinei, não sei como te acertei daqui
foi deus quem mirou por mim e eu sempre quis te ver assim
Você, besta, achou que eu sempre adorei te ver viva andando por aí

eu pensei em fugir levando o stilo mas me deparei com o cerco da polícia
então gritei "foi deus quem agir por mim"
ele sempre quis me usar assim
e vocês sabem bem que eu sempre adorei viver livre andando por aí


Ford
Desculpe o punhal.
É meu jeito de abordar



E tem mais do que isso. Quem ler estes trechos pode se lembrar da escatologia de um Rogério Skylab, mas na obra deste a selvageria vem em forma de escárnio, quase piada. No Tribunal Surdo não: é tudo sério, é tudo verdade, é o pequeno diabo que vive em cada mente. Ao terminar o disco, sente-se um gosto ruim na boca: isto é o ser humano. Não é apenas isto, mas também - e muitas vezes - é isto.

Em termos de som, é um disco sombrio, cheio de guitarras, ainda que a voz limpa e melodiosa de Beto Cupertino (também o autor das letras) destoe um pouco da sujeira geral. As melodias também são bastante interessantes.

Incrível como eu ainda não havia dado a devida atenção a esta banda, talvez pelos nomes de músicas esdrúxulos como Campeão Mundial de Bater Carteira, Vendedor de Rins e Padre Pedófilo (sim, um pré-julgamento tosco, mas fazer o quê?). Violins é uma das grandes bandas da nova geração da música brasileira.

Um comentário:

dezt . 07 disse...

Tem toda razão, essa banda é excelente, mas no Brasil de hoje, quando abordamos temas como estes, as pessoas tem medo de discutir, debater e tentar compreender a realidade.

Tenho todos os álbuns aqui, posso dizer com certeza que essa não é daquelas bandas que vem com apenas 2 músicas boas por álbum, todas as músicas tem suas histórias, delírios, angústias e realidade.

Ultimamente tenho escutado muito Violins e Rancore (outra banda muito boa também).