sábado, 19 de dezembro de 2009

LULINA - Cristalina

[2009]



Outra excelente surpresa de 2009, Cristalina é um disco desencanado como poucos. Lulina é uma cantora de voz pequena, sendo impossível não lembrar da Fernanda Takai ao ouvi-la. Além da voz, um certo tom da agradável esquisitice presente no som do Pato Fu, principalmente nos primeiros discos, está presente por aqui. A despeito das semelhanças, Lulina e seu Cristalina têm brilho próprio.

O disco é muito, mas muito legal. As músicas versam sobre temas completamente díspares, e mesmo falando de assuntos por vezes esdrúxulos e bizarros, as músicas são sempre de uma delicadeza extrema. O som é bem legal e foge muitas vezes do convencional, mas sempre é simples e direto, sem firulas nem virtuosismos, se encaixando bem na voz de Lulina e no clima de cada uma das músicas.

Mesmo tendo a certeza de cometer injustiças com as músicas não citadas, pois todas são, no mínimo, ótimas. A música de abertura, Criar Minhocas é um Negócio Lucrativo, fala de morte em um diálogo com minhocas e, pelo nome e pelo tema, poderia descambar em escatologia e podreira, mas a música consegue ser, ajudada pelo clima viajante, bem mais sutil e delicada que chocante. Nós é uma das melhores do disco, cantando "A vida é desfazer nós/Nós de nós mesmos" ao som de um rockzinho com um ritmo legal. Do You Remember, Laura? é a mais delicada do disco, chega a ser comovente em sua simplicidade, evoca de imediato a infância de qualquer um que escute. Se eu tivesse que coletar uma "Arca de Noé" contemporânea, Do You Remember Laura? seria minha primeiríssima escolha. Blebs fala sobre "bolhas na pleura" e a estupefação da cantora após o diagnóstico, sob uma levada levemente puxada ao funk carioca com um quê de música infantil, divertida e desencanada. A proposta de Subtexto, com seus violões e percussões, é bem original e engraçada, mostrando as diferenças entre o que se diz e o que realmente se quer dizer. Meu Príncipe descreve um "Amélio", bem divertida. Balada do Paulista é um rockinho divertido que zomba das gírias e do modo de dizer várias palavras sem dizer nada: "Então puta meu, tipo nossa cara, tipo assim, tipo puta meu". Sangue de ET, outro rockinho, fala sobre uma cachaça do mesmo nome, que "cura todo mal", trazendo uma pérola que me fez rir sozinho: "O sangue de ET tem poder". Sem falar que a cachaça seria uma "hemodiálise de aliens". Tem mais músicas legais, Jerry Lewis, Bosta Nova, Poesia, Narcolepsia, Bichinho do Sono, mas acho que já é possível ter uma boa noção do disco.

As letras são, de modo geral, bem acima da média. O som é aquilo que eu chamo de "música brasileira contemporânea". Não é rock, mas também não se filia à imagem embolorada que se tem de MPB. E é impressionante, uma vez que você abandona a mídia como fonte de novos artistas, a quantidade e qualidade de novos trabalhos que vêm aparecendo nessa seara, mas isto é assunto pra outro post.

A esta altura eu sempre falo do que não gostei no disco. Lamento, mas desta vez não há nada a escrever. Provável topo da minha lista dos melhores do ano. E não custa falar de novo: fazia tempo que eu não escutava um disco tão legal!

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