sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu ajudei a espalhar bobagens sobre um problema sério no Rio

O título do blog é mentiroso: eu não ajudei a espalhar coisa alguma. Mas tem muita gente na blogosfera repercutindo o risível texto "Eu ajudei a destruir o Rio", publicado aparentemente em um tal "Jornal de Brasília" pelo seu editor-chefe, chamado "Sylvio Guedes". Como tem sido praxe no tratamento da mídia a respeito das drogas ilícitas, muito discutidas atualmente após a chamada "reconquista de território" no Complexo do Alemão, o texto resvala no lugar-comum mais rasteiro.

É uma gigantesca inversão da lógica dizer que o consumo é o responsável pelo tráfico de drogas. Ora, só há "tráfico" se uma certa mercadoria foi declarada proibida. Se não há proibição, é impossível haver tráfico. Portanto, seguindo a mesma lógica simplista do autor do texto, posso dizer que a proibição é a responsável pelo tráfico. A história mostra isto com a malfadada "Lei Seca" nos Estados Unidos. "Mas", alguém dirá, "não há venda se não hṕa consumo!" O consumo de drogas é uma prática ancestral da humanidade e é simplesmente impossível querer bani-lo. Pessoas se drogam em uma quantidade absurda em qualquer agrupamento humano, seja álcool, cigarro, ahayuasca, ansiolíticos, maconha, cocaína ou antidepressivos. Algums foram escolhidos para ser ilícitos e outros para ser lícitos segundo certos critérios, que não são absolutos. Portanto, em uma sociedade onde o álcool é um dos principais componentes de socialização (a "cervejinha" é uma verdadeira instituição nacional), falar em proibição de drogas, principalmente leves como a maconha, soa como nonsense ou hipocrisia. Há outros argumentos como gastos com saúde pública que também se quebram à mera citação das drogas lícitas que também enchem os hospitais públicos com seus efeitos nocivos ao organismo.

O que conservadores, a direita, parte da esquerda, a mídia e as pessoas que são levadas pelo senso comum mais tosco não discutem e não trazem à tona é que o problema da violência das drogas no Rio de Janeiro é fruto simplesmente do descaso e do completo abandono das favelas, abrindo espaço para que grupos criminosos (traficantes, milicianos) dominassem e fizessem destas comunidades feudos e quartéis-generais. O termo "controle do território", muito usado ultimamente, é sintomático. Os traficantes nunca precisaram arrancar o território do Brasil, por que agora o território teve que ser "conquistado"? Simplesmente porque favelas eram, do ponto de vista do Estado, terra de ninguém. A única política pública para estas comunidades sempre foi polícia. O que esperavam que ocorresse? Depois de décadas de total abandono do Estado, a culpa é do "artista", do "jornalista" e do "intelectual" maconheiros e cheiradores? Sério mesmo que é isso que eu estou vendo a blogosfera repercutir em peso?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Declaração de voto: Chico Alencar (PSOL)


Esta será a segunda vez que voto no Chico Alencar para deputado federal, e por um motivo simples. Mais que preciso, é absolutamente necessário ter na Câmara vozes de esquerda que não estejam ligadas ao arco de alianças (e esse arco inclui boa (?!) parte da pior direita) que sustentou o governo Lula e sustentará o provável governo Dilma. E, vale dizer, a única voz de esquerda no Congresso fora do governo é o PSOL. Bom, tem o PV e o PPS, que acham que são de esquerda, mas até aí todo mundo tem o direito de achar o que quiser, certo?

Estas vozes de esquerda independentes são importantíssimas exatamente por isto: independência. Não têm que atender a orientações partidárias por conta de questões relativas a alianças. Não têm contas a prestar a financiadores de campanha, pois o PSOL não aceita doações de pessoas jurídicas. Ter deputados verdadeiramente independentes e de esquerda no parlamento é algo que não tem preço.

Enfim, precisamos de parlamentares que defendam o não contingenciamento de investimentos em serviços públicos; que combatam a bancada ruralista e lutem pela reforma agrária; que defendam os direitos humanos; que lutem pela redução da jornada de trabalho e pelos direitos trabalhistas; que lutem pelos direitos das mulheres e dos homossexuais; que combatam o racismo; que apoiem os movimentos sociais; que lutem pelas reformas política e urbana. Além, claro, daquilo que deveria, para além de posicionamentos políticos, ser um pré-requisito para qualquer cargo público (mas acaba virando bandeira - falsa - para muitos): honestidade, probidade, ética, responsabilidade, espírito público.

Tudo isto, e ainda mais, é o que Chico Alencar tem feito na Câmara, raramente não sendo lembrado quando são listados os melhores ou mais atuantes deputados federais.

Diante disto, não tenho dúvidas: é 5050 para deputado federal!

Declaração de voto: Lindberg (PT)

Com meus votos em Lindberg acontece algo como no aforismo de Karl Marx que diz que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. A primeira vez em que votei nele, 1998, foi a tragédia: candidato a deputado federal pelo PSTU (1616, ainda lembro!), teve uma imensa votação (se bem me lembro algo em torno de 90 mil votos) mas não o suficiente para se eleger, uma vez que o PSTU encarava - e este tipo de firmeza eu admiro - sozinho, sem coligações, a eleição. Na mesma eleição, Luiz Sérgio (PT) conseguiu uma vaga com cerca de 15 mil. Certamente foi um baque para Lindberg (foi pra mim que só votei, imagine para o próprio). O que talvez explique - mas decerto não justifica - as suas alianças atuais, cujas propagandas constituem insistentes tentativas de me fazer deixar de votar nele. Se alguém há um ano me dissesse que eu votaria em um sujeito que aparece em placas ao lado de Sergio Cabral e Jorge Picciani, eu certamente diria a este alguém que está variando. Pois é, esta é a minha situação com o voto no 131, e talvez seja esta a "farsa" - ou drama, vai saber - como a qual a história se repete.

Mas você poderia votar nulo no segundo voto pra senador, alguém diria (pois o primeiro, óbvio, é do Milton Temer). O problema são os competidores: além do Lindberg, os cinco candidatos a senador no RJ mais bem colocados nas pesquisas são Marcelo Crivella (PRB), Cesar Maia (DEM), Jorge Picciani (PMDB) e Waguinho (PT do B). Entendeu a merda em que estamos metidos aqui no RJ?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Declaração de voto: Marcelo Freixo (PSOL)


Começo desenrolando o porquê dos meus votos na ordem da urna eletrônica.

O voto pra deputado estadual este ano é para mim a escolha mais fácil, simples e óbvia de todas. Marcelo Freixo (PSOL) fez, certamente, um dos melhores mandatos de deputado estadual que o Rio de Janeiro já teve.

Explico: além dos requisitos mínimos que se esperariam de um político (mas que uma quantidade ínfima de candidatos consegue atingir), Freixo encabeçou a luta contra as milícias no Rio de Janeiro, sendo presidente da CPI das Milícias, tendo indiciado 225 envolvidos, fato que fez com que o deputado esteja sendo ameaçado de morte pela milícia. Caso não seja eleito, Marcelo Freixo terá que deixar o país. Como disse o delegado da Polícia Civil Vinicius George, coordenador da segurança do deputado, o "preço do cadáver de um deputado é muito mais alto do que o de um professor de história". Além disto, militantes que se arriscam a fazer campanha para Freixo em áreas dominadas por milícias são ameaçadas. Após a CPI, alterou-se a visão que as pessoas tinham sobre as milícias, que são nada menos que organizações de tipo mafioso. Antes, havia espaço para seres do naipe de um Cesar Maia chamá-las de "auto-defesa comunitária" ou Eduardo Paes defendê-las abertamente sem se desmoralizar. Hoje não mais.

Só isto já valeria, e muito, o voto no Marcelo Freixo. Mas ainda tem mais. Pediu a cassação de deputados envolvidos na "bolsa fraude", da ALERJ, o que deu na cassação das deputadas Renata do Posto e Núbia Cozzolino. Pediu e obteve aprovação também da cassação do deputado Álvaro Lins. Aprovou lei para o reconhecimento do funk como movimento cultural musical (funk não é muito o perfil deste blog, mas a questão está muito além do gosto musical). Apresentou pedidos de CPIs para investigação de corrupção na Federação de Futebol do Rio de Janeiro e superfaturamento de compra de medicamentos na Secretaria de Saúde; apresentou projetos de lei contra a tortura, pelos direitos humanos, pela fiscalização dos royalties do petróleo e mais.

E tudo isto não abrindo mão um milímetro de suas posições de esquerda e em defesa dos direitos humanos, e sendo o único deputado de seu partido, o PSOL, partido que não tem aliança com nenhum outro no Rio de Janeiro. Ninguém, repito, fez tanto em uma situação tão adversa, e com tanta coragem, contrariando grandes interesses e a despeito de gravíssimas ameaças de morte.

Por falar nisto, o PSOL caminha com uma dignidade política que não se vê desde os tempos do antigo PT. O PSOL tem parlamentares para reeleger (e parlamentares que estão entre os melhores - se efetivamente não o são - e farão imensa falta ao Brasil e aos estados caso não consigam se reeleger) e, mesmo assim, não se curva às alianças espúrias, vindo sozinho nas eleições, em uma opção corajosa, com o perigo de não conseguir o quociente eleitoral necessário. Além disto, o PSOL não aceita doações de empresas e boa parte da campanha é tocada em trabalho de formiguinha por voluntários, como o dono deste blog vagabundo.

Com tudo isto, devo dizer que nunca votei para deputado com tamanha convicção. 50123 é Freixo!

domingo, 26 de setembro de 2010

declaração de voto

Seguindo o exemplo do caro amigo Vitor Menezes, vou também declarar meus votos nestas eleições.

Na próximaNesta semana, pretendo desenvolver o porquê do voto em cada um. Mas não se enganem, pode ser mais uma daquelas promessas não cumpridas como "dessa vez volto a escrever com regularidade no blog". Vamos lá!

Presidente: Dilma (13 - PT)
Governador: Jefferson Moura (50 - PSOL)
Senador: Milton Temer (500 - PSOL)
Senador: Lindberg (131 - PT)
Dep. Federal: Chico Alencar (5050 - PSOL)
Dep. Estadual: Marcelo Freixo (50123 - PSOL)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

o desastroso trânsito de campos

A cidade de Campos dos Goytacazes/RJ não tem sido famosa por nada de bom. Apesar de ser a terra dos royalties, maná que cai religiosamente do céu (mar?), a cidade é, na falta de melhor termo, uma merda. Diante do lamaçal geral, o desastre que é o trânsito da cidade é mero detalhe. Mas é sintomático do modo como as coisas acontecem na planície.

O trânsito de Campos dos Goytacazes/RJ é uma zona de guerra. Andar, pedalar e dirigir aqui são sempre empreitadas de alto risco. Aqui se tem medo de atravessar com o sinal verde, mesmo de carro. Aliás, aqui semáforos não significam absolutamente nada. Aqui uma imensa porcentagem da frota, especialmente carros de uns 5 anos para cá, é inimputável. Aqui, guardas de trânsito têm uma função desconhecida, uma vez que ignoram todo tipo de infração, em pleno centro da cidade. Aqui, há ruas inteiras exibindo placas erradas. Aqui, esquinas são estacionamentos. Aqui, todas as ruas têm vagas dos dois lados, mesmo que a marcação no asfalto indique o contrário. Aqui, engarrafamentos ocorrem por estacionamentos em fila dupla e todo tipo de parada em lugares proibidos. Aqui (bem, isso talvez nem só aqui), a classe média acha que é dona da cidade. Cidadania? Pfff...

O medo do sinal verde


A regra para atravessar com o sinal verde em Campos é simples. Quando aparecer o sinal verde, espere mais ou menos uns 5 segundos para atravessar, especialmente em horas de maior tráfego. Se a pista estiver limpa, nunca, eu repito, NUNCA atravesse sem parar caso o sinal tenha acabado de abrir. Se você não é daqui e está se perguntando por que, eu explico. Aqui, é comum que 5 ou 6 carros passem após o sinal fechar, mesmo que o verde do outro lado já esteja aceso. Lembrem-se que há um momento que dura uns 2 segundos, onde ambos os sinais estão vermelhos, justamente para evitar acidentes causados por carros passando no vermelho. Não contentes com os 2 segundos, os motoristas de Campos exigem 5 ou 6 (ônibus, vans e caminhões cobram um pouco mais: é lei do mais forte). Nenhum pedestre em Campos atravessa uma faixa sem que os carros estejam parados diante dela. Atravessar com algum carro ainda em movimento, de modo algum. O comportamento incivilizado dos motoristas de Campos é notório, e ninguém arriscaria - na melhor das hipóteses - uma temporada no hospital por confiar que um motorista daqui vá se ater a miudezas como respeitar a sinalização.

Há algum tempo, um carro atropelou uma pessoa em pleno sinal vermelho, e o atropelamento (inclusive o sinal vermelho) foi perfeitamente filmado por uma câmera de vigilância e estampado em todas as emissoras locais de TV. Pensei que, com o impacto visual haveria algum tipo de conscientização ou alguma ação da prefeitura visando domar os animais, mas nada aconteceu. Ingenuidade minha.

Campos é a cidade onde todos os sinais são vermelhos para uns e todos são verdes para outros.

Os carros 007


Alguém se lembra que o agente James Bond, o famoso 007, tinha permissão para matar? Pois é, grande parte da frota de Campos tem permissão, se não para matar, para estacionar em qualquer lugar, furar qualquer sinal vermelho ou cometer qualquer outro atentado à cidadania sem temer multas e coisas do tipo. Trata-se dos carros com placa do Espírito Santo. Para quem não entendeu, permitam-me uma melhor explicação. O IPVA do estado do Rio de Janeiro é absurdamente caro, obra do filho da planície, o sr. Anthony Garotinho, quando foi governador do estado. Com o aumento do imposto, virou padrão que os carros zero vendidos na cidade saiam com placas do estado vizinho do Espírito Santo, onde o imposto é mais barato e não há a necessidade de vistoria anual. Um erro não pode justificar outro.

Quando se fala nisto, as pessoas sempre aludem a evasão fiscal e outras coisas, mas não atentam para um efeito colateral que torna o trânsito de Campos ainda mais intolerável. Carros com placa do ES são simplesmente inimputáveis. Como as multas em vias não federais não são repassadas de um estado da federação a outro, temos que estes carros têm toda a liberdade de tornar o trânsito da cidade um inferno muito pior do que já seria sem eles.

Campos é a cidade fluminense onde metade dos motoristas é "capixaba".

Quem vigia os vigilantes?


A atuação dos guardas municipais é outro ponto que causa estranheza. Em qualquer passagem pelo centro da cidade, é possível ver todo tipo de infração. Logo, deduzo que os guardas de trânsito não multam ninguém. Pois se multassem um quinto dos carros que infringem as leis no centro da cidade, seria a convulsão social da classe média, já que esta só se levanta quando alguém questiona sua liberdade de atropelar a liberdade alheia.

Eu mesmo já presenciei um guarda municipal sugerir a um motorista que estacionava em uma rua estreita do centro na qual é proibido parar e estacionar (em frente à Livro Verde, para quem é daqui se localizar melhor) que este subisse com metade do carro na calçada, "para não obstruir a via".

Na semana passada, na hora do rush, uma cena ainda mais inusitada, na esquina da Conselheiro Otaviano com a Beira-Valão: guardas municipais que paravam o trânsito quando o sinal ficava vermelho e liberavam quando o sinal estava verde. Como os motoristas de Campos não estão acostumados nem a parar no sinal vermelho nem a respeitar os guardas de trânsito, temo pela vida destes bravos funcionários públicos. Percebam o absurdo: o guarda ficava simplesmente repetindo o sinal. Não sei qual era a intenção disto, mas que é uma cena bizarra, mesmo para os padrões de Campos, isso é.

Campos é a cidade onde os guardas municipais são backup de semáforo.

E então...


Como diria João, há muito mais coisas que poderiam ser ditas sobre o completo absurdo que é o trânsito de Campos, mas nem em todos os blogs do mundo caberiam os bytes que seriam escritos. Certamente voltarei ao assunto. Mas acho que, por hoje, já está bom, não acham?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ECAD novamente (a última, espero!) + blog abandonado

Este ano eu deixei o blog abandonado. Apesar disto ser um clichê, creio que no meu caso seja verdade: peço desculpas a meus 7 leitores e estou agora em mais uma tentativa de mantê-lo regularmente atualizado. Vamos lá!

Já que o momento é de volta, é hora de tocar a bola pra frente, mas não sem antes pagar algumas dívidas com o passado. Há alguns meses, iniciei uma discussão aqui sobre ECAD e direitos autorais, inicialmente questionando os caminhos pelos quais o dinheiro vai parar nas mãos de quem é, em tese, devido. Depois, levantei a bola de novo ao ver a Karina Buhr reclamar em seu twitter a respeito das cobranças do ECAD. Em ambas as postagens, as discussões nos comentários foram mais interessantes que o meu texto e vale a pena que sejam lidas.

E o que isso tem a ver com as tais "dívidas com o passado"?

Algum tempo depois da segunda postagem, recebi um e-mail de alguém que assinava por "Marketing ECAD" discorrendo a respeito da lisura e idoneidade da instituição. Porém, os pontos questionados por mim e pelos comentaristas (que inclusive contaram casos reais acontecidos com os próprios) não foram atacados:
  • Como se pode aceitar pagamento sem saber exatamente quais foram as músicas e seus autores?
  • Uma vez que o pagamento é feito mesmo se as músicas tocadas não forem registradas, o dinheiro vai pra quem?
  • Se as músicas forem de domínio público, o dinheiro vai pra quem?
  • Se as músicas forem de autores que, por um motivo ou outro, não podem ser facilmente encontrados, o que se faz com o dinheiro?
  • É verdade que o dinheiro que sobra - esse aí mesmo que não vai pra ninguém - é dividido entre o top 50 (ou algum outro número)? Se é verdade, isto é justo? Ou não é um Robin Hood ao inverso?

Enfim, nenhuma destas perguntas foi respondida pelo "Marketing ECAD". Segue abaixo a íntegra da mensagem.


de ecadnaweb@ecad.org.br
para rmanhaes@gmail.com
data 28 de dezembro de 2009 17:18
assunto Ecad
enviado por ecad.org.br

28/12/09

Prezado Rodrigo Manhães,

O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) está direcionando seus esforços para aprimorar o relacionamento com os usuários de música, com o objetivo de intensificar os esclarecimentos sobre o pagamento de direitos autorais de execução pública musical no Brasil.

Percebemos que você postou um comentário no no blog “Fanatismo Indeciso” sobre a falta de fiscalização do Ecad. Gostaríamos de esclarecer que o trabalho do Ecad é auditado anualmente por empresas independentes de renome no mercado, e por órgãos públicos como Receita Federal e INSS, sendo seu desempenho aprovado ano após ano. Além disso, apesar de não haver obrigação da instituição em divulgar seu Balanço Patrimonial e Social e Relatório de Sustentabilidade, por ser uma entidade privada sem fins lucrativos, a instituição faz questão de divulgar tais resultados em jornal de grande circulação e no site www.ecad.org.br, comprovando sua transparência e ética profissional. Sua conduta correta levou a instituição a receber prêmios como o Certificado de Empresa Cidadã, concedido duas vezes pelo Conselho Regional de Contabilidade do Rio de Janeiro; Prêmio Responsabilidade Social – Segmento de Serviços Diversos, concedido pela Revista Isto É Dinheiro; e Prêmio Balanço Social, recebido por dois anos seguidos.

Informamos que, em 2008, fruto de um trabalho sério e responsável, o Ecad distribuiu R$ 271 milhões em direitos autorais de execução pública musical para 73.700 titulares de música como compositores, cantores, músicos, editoras musicais e gravadoras. Ao longo dos último 8 anos, o desempenho da instituição fez com que a distribuição de direitos autorais crescesse 222%, resultado dos investimentos feitos em tecnologia, controle dos processos, qualificação das equipes e na comunicação com o mercado.

Por fim, ressaltamos que sempre trabalhamos e continuaremos a atuar na defesa de milhares de compositores, intérpretes e músicos aos quais representamos. E é justamente o respeito e apoio da classe artística que nos dão forças para cada vez mais vencer resistências de grupos que buscam desacreditar o trabalho da instituição e desrespeitam a propriedade intelectual. Refletem esse apoio a participação gratuita de artistas como Fagner, Sérgio Reis, Alcione, Dudu Nobre, Tato, João Roberto Kelly, Martinho da Vila, Durval Lelys, na campanha "Vozes em defesa do direito autoral", que tem como objetivo a valorização do talento dos criadores musicais reconhecido através do pagamento dos direitos autorais.

Agradecemos seu contato, colocando-nos à disposição para eventuais esclarecimentos.

Atenciosamente,
Marketing Ecad.


Percebam que "Marketing ECAD" agradece o contato (apesar de eu não ter feito nenhum) e simpaticamente se coloca à disposição para maiores esclarecimentos. Infelizmente, eu não respondi na época oportuna o e-mail, e não o farei agora, quase 7 meses depois. Porém, fica o registro pra quem acompanhou a discussão e o endereço pra quem quiser estender o papo.

Eu estava pra colocar isso aqui faz um tempão e toda vez que ia postar não lembrava.

Bom, dívida paga, bola pra frente!

terça-feira, 13 de julho de 2010

eu fui >> o maior espetáculo da terra (el efecto)


Ok, é um exagero, eu sei. Mas foi o nítido sentimento que tive ao fim do show do El Efecto, no dia 9 de julho, no Estúdio AudioRebel, em Botafogo, Rio de Janeiro/RJ. Pescoço e pernas doendo - de banguear e pular, respectivamente -, e aquela indefectível expressão de "Ca-ra-lho!", invariavelmente apresentada por quem acaba de assistir algo memorável.

O local, bem diferente da maioria dos locais de shows - mesmo considerando-se eventos underground - é um estúdio onde cabem mais ou menos umas 80 pessoas. O motivo, também especial: a banda comemora 8 anos de existência e aproveita a oportunidade para fazer um show sozinha - ou seja, nada de festival com zilhões de bandas e show de 40 minutos - e registrar a ocasião em vídeo. A produção, à altura da comemoração, com direito a violino, flauta transversa, percussão e [substitua aqui por um instrumento metálico de sopro que não sei o nome]. Além, claro dos tradicionais trompete e cavaquinho. Filmagem profissional, três câmeras e tudo aquilo que se precisa pra fazer uma coisa legal. A princípio, segundo a banda, não será feito um DVD: o objetivo é ter um material legal de vídeo para divulgação na Internet.

Eu já havia assistido a um show da banda, em 2005 na cidade de Macaé/RJ, mas era justamente um daqueles shows de 40 minutos em meio a outras 5 mil bandas no mesmo dia. Com a exígua área do estúdio superlotada, um pouco depois das 20 horas, o show começou com Montagem da Solidão, um funk. Não, não tem nada a ver com James Brown e cia. É funk carioca mesmo, miami bass, pancadão. No palco, quatro integrantes, duas guitarras, baixo, bateria. Formação clássica de banda de rock e o funk rolando, como se a banda já anunciasse ao público: "aqui se ouvirá simplesmente música, sem rótulos". Segue-se Seres, música lançada recentemente pela banda - na verdade uma releitura de Ricardinho, presente em uma demo -, com um belo trampo de metais e flauta tocadas por 2 convidados especiais. Seguem-se o sambinha-newmetal Necessidades Básicas, o groove de Conforme a Música, o caos de Tilt, O Último Tango e outras. Esta última, com direito a sampler de Nelson Gonçalves tocado pelo vocalista e guitarrista Danton de modo bastante inusitado: um radinho de pilha colado ao microfone. As atitudes da banda têm um quê de teatral, o que torna o show como um todo bastante interessante e, por vezes, surpreendente. Também assim foi o texto lido pelo vocalista e baterista Tomás sobre o suicídio de Santos Dumont como introdução à música de mesmo nome.

As letras da banda valem um comentário. Hoje, a música brasileira, apesar de passar por uma excelente fase, é predominantemente reflexiva e introspectiva. O El Efecto, contra a corrente, chuta esse balde e levanta uma bandeira, escolhendo claramente um lado. "Enquanto não houver justiça para todos, não haverá paz para ninguém", anuncia Danton, um dos vocalistas. As letras são, muitas vezes, ferroadas certeiras sobre a hipocrisia da classe média, vide 3 Pratos de Trigo para 30 Tigres Tristes ou Téo Vai às Compras (esta última, por sinal, a grande ausência do show). Contundentes, e muito, pero sin perder la poesia. Ainda assim, a seu próprio modo, a banda segue a tradição de antropofagia cultural e inconformismo da música brasileira.



Após um breve intervalo, a banda volta para a segunda parte do show, iniciando também com uma música recém-lançada: Ciranda, em uma belíssima execução, desta vez com outras duas participações especiais: violino e flauta transversa. Nesta segunda parte o destaque foi para a já citada 3 Pratos de Trigo para 30 Tigres Tristes, uma das músicas mais legais da banda e, aparentemente, uma das mais conhecidas - e berradas - pelo público. O público, pelo menos quem estava mais próximo ao palco, onde eu estava, cantou praticamente todas as músicas do início ao fim. Outro bom momento foi a participação do ex-baterista Uirá, que tocou duas músicas, a alucinada Deuses e Demônios e o rapmetal A Praia, liberando Tomás para dividir os vocais e fazer um dueto de flauta doce com Danton. Para fechar o show, os 10 minutos da apoteótica Fantasia em Lá Menor (onde mais eu veria um baixista tocando triângulo para logo depois emendar uma sequência prog metal junto com a banda?), fechando com um longo trecho instrumental. O show termina com banda e público esgotados após mais de 2 horas de música instigante, imprevisível e inquieta.

Bom, e a parte negativa? Sinto muito, mas não encontrei. Da minha parte, que moro a 300 km do local do show, valeu e muito cada uma das quase 11 horas dentro do ônibus, entre ida e volta. Agora, é esperar pela publicação dos vídeos no YouTube mais perto de você.

E como sempre no blog, a utilidade pública: todas as músicas da banda podem ser baixadas no site da própria banda, aqui.

domingo, 11 de abril de 2010

Vamos Fazer Barulho!: Uma radiografia de Marcelo D2

(Bruno Levinson, Ediouro, 2007)



Sou fã de primeira hora do Planet Hemp, mas não acompanho tão de perto a carreira do Marcelo D2. Assim, ler este livro me soou um pouco como rever um velho amigo. Independente disto, Vamos Fazer Barulho! é uma boa diversão, leve e despretensiosa.

Logo de cara, o autor já anuncia na apresentação que o posicionamento é completamente parcial: não uma biografia, mas uma "radiografia autorizada". O próprio autor, Bruno Levinson, criador do Festival Humaitá Pra Peixe, é personagem privilegiado dos acontecimentos, amigo do Marcelo D2 e de vários dos outros personagens da história toda. Isto não é algo bom ou ruim em si, e, de qualquer modo, ninguém lerá coisa alguma enganado.

Outro fator que chama a atenção de cara é o alto nível do acabamento e a grande quantidade de fotografias.

O formato do livro é de entrevistas, com personagens dos mais diversos: a mãe do D2, o empresário Marcelo Lobatto, o ex-produtor do Planet Hemp Marcelo Pereira, a atual esposa e as duas ex e até mesmo uma curta entrevista com o desembargador Siro Darlan, que foi o grande crítico (perseguidor?) do Planet Hemp na mídia. Além, claro, do próprio D2.

Entre os assuntos abordados, a infância, a prisão, a mudança de underground pro mainstream, os casamentos, os filhos, as loucuras e, claro, maconha.

Ainda que a condição do autor ser um amigo tire bastante do interesse, digamos, jornalístico do livro, por outro lado, a familiaridade com o ambiente e a informalidade das entrevistas torna o texto extremamente fluido e interessante, principalmente para os fãs do velho Planet, uma vez que há muito pouca informação sobre coisas ocorridas em tempos pré-internet em termos de bastidores da música.

O problema do caráter chapa-branca do livro é que mesmo as entrevistas onde se esperaria um tom mais áspero, principalmente a ex-mulher Manuela, o clima geral é de ver o D2 como um "menino travesso" ou coisa do tipo. Por outro lado também, eu pessoalmente não curto essa coisa de fuxicar a vida das pessoas. O tom geral do livro é de um documentário onde o próprio autor é também ator e manifesta suas opiniões nunca diretamente, mas sempre através de seus posicionamentos e escolhas. Polêmicas como, por exemplo, brigas entre D2 e os ex-integrantes do Planet Hemp são apenas citadas mas nunca esmiuçadas (isso sim, eu gostaria muito de ler mais detalhes!). Como ponto negativo, o autor deixa entrever algumas vezes que sabe mais do que escreve, o que é natural sendo ele um amigo bem próximo, mas irrita bastante em alguns momentos. A coisa toda chega, em certas situações, às raias de uma hagiografia. Novamente, porém, gostando-se ou não, o leitor foi avisado desde o início.

No fim das contas, é uma boa leitura, especialmente para fãs. Vale a viagem.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

palavras proféticas

Engraçado como são as coisas quando colocadas em perspectiva, vistas após quase 20 anos. No início dos anos 90, o rock brasileiro parecia a muitos olhos praticamente morto, completamente fora da mídia, que estava inteiramente dominada pela música sertaneja e o nascente samba-reggae (mais ou menos a mesma espécie do que hoje é conhecido por "axé music").

Neste contexto surge, de Minas Gerais, uma banda chamada Virna Lisi, que fazia uma mescla de punk com rock brasileiro dos 80, acrescido de tamborins, triângulos e pandeiros. Na época, 1993 se bem me lembro, uma frase, atribuída ao baixista Marcelo de Paula, soou bombástica: "Nós viemos pra acabar com o rock dos 80". Apesar de muito bem recebida pela crítica e pelos aficcionados, a banda nunca conseguiu um apelo de público e acabou em 1997, após gravar 3 ótimos discos.

A famigerada frase gerou alguma polêmica na época e acabou sendo desmentida pela banda, mas, verdade ou não, a frase foi profética. O rock brasileiro nos anos 90 se caracterizou pela mistura de ritmos regionais brasileiros com estilos mais universais como pop rock, metal e hardcore. Mesmo que o Virna Lisi não tenha sido assim tão ouvido, eles foram um dos primeiros desta tendência. Eles, por assim dizer, puseram o pé na porta que foi escancarada um ano depois pelo manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e companhia.

Mais alguns anos depois, a música brasileira assimilou o baque e os resultados estão aí, todo mundo mistura tudo com tudo sem medo de ser feliz. Assim, afinal, a tendência que o Virna Lisi anunciava acabou ou não com o rock dos 80? Daqui de onde eu vejo a resposta é um sonoro sim.

Surpresa das surpresas, fui procurar agora pelo Virna Lisi pra confirmar o nome do baixista e encontrei a notícia de que a banda está de volta.

Mais legal ainda seria se a banda voltasse pra acabar, desta vez, com o rock dos 00. E se não for o Virna Lisi será algum outro. E que venha o novo!!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

JAPANISCHE KAMPFHÖRSPIELE - Bilder Fressen Strom

[2010]



É muito legal ser fã do Japanische Kampfhörspiele (a.k.a. JaKa), já que os caras lançam um disco atrás do outro. Para se ter uma idéia, só em 2009 foram um disco ao vivo, um EP e dois splits. E, melhor que isso, Bilder Fressen Strom é o melhor disco da banda desde Hardcore aus der Ersten Welt, lançado em 2004.

Na modesta opinião deste escriba, JaKa é o melhor deathgrind da atualidade, e já há um bom tempo, o que este disco apenas confirma. São 27 músicas de puro deleite. Esqueça a embolação e a busca por velocidade quase que como um fim em si mesma típicas do estilo. Esqueça o purismo grindcore em que cada música tem que ser mais rápida e incompreensível que a anterior. Aqui pressão, velocidade, vocais alucinados, cozinha brutal, riffs matadores, bateria muito bem tocada e criativa vêm dosados em uma verdadeira aula de metal (ou grindcore ou death metal, whatever...).

Na verdade, apesar da banda se definir como "grindpunk", o som deles vem gradualmente se tornando mais próximo do death metal. Neste disco, por exemplo, há muito mais groove que blast beats, o que em mãos menos talentosas poderia se assemelhar a uma adesão ao sistema ou qualquer coisa do tipo. Mas não aqui.

O disco começa rapidíssimo e completamente quebrado com os mais de 5 minutos de Die Schlachtung. Porém o disco traz de instrumentais quase viajantes como Milchkrieg até experimentalismos proto-eletrônicos em Jochbeinbruch. Mas nem só de "novidades" vive Bilder Fressen Strom: as faixas com menos de 30 segundos estão lá para alegrar a nação grindcore, como Deutschland sucht den Superstar, Tod im Tank, Goldene Mitte, Der Arsch, Angriff auf der Zivilisation e Auto.

Outros destaques vão para o ótimo ritmo de Schmerzrakete (outra instrumental); Effizienz, um thrashão muito legal; o dueto de vocais (?!) de Fresssucht; Lebendgewicht,outro instrumental bem quebrado, chegando a lembrar os Dream Theaters da vida. E, em meio a tanta novidade, até mesmo um JaKa mais tradicional em Sorgsam Durcheinandergebracht e Everything Is Fine.

O vocal gritado de Markus Hoff está mais limpo, sequer chegando a poder ser considerado rasgado, enquanto o gutural de Martin Freund é a mesma podreira de sempre. Christof Kather continua detonando na bateria e seu instrumento continua sendo o carro chefe da banda, ainda que não se sobressaia tanto quanto nos trabalhos anteriores da banda. O que é bom, pois antes era um pouco excessivo. O disco tem um monte de faixas instrumentais, o que remete a Sektion Jaka, primeiro disco da banda (que, modestamente, a banda chama de "demo").

Os aficcionados que me perdoem, mas o metal é um estilo que carece de boas cabeças, que façam coisas diferentes, que inovem. No metal vigora meio que um sentimento de tribo onde se dá muito valor e importância ao reforço das características padrão do gênero. O resultado disto é que o metal é um estilo bastante saturado, com um monte de gente fazendo coisas iguais às outras e, particularmente no mundo grind, tentando soar mais rápidos e pesados que os outros. Bilder Fressen Strom, ao contrário da corrente, é basicamente um disco de canções, em uma busca constante de novos caminhos.

Enfim, Bilder Fressen Strom é um excelente disco. Agora é rodar até furar e esperar que o próximo venha tão breve quanto este.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ARNALDO ANTUNES - Iê Iê Iê

[2009]




A primeira impressão foi "esse disco é uma merda!". Iê Iê Iê é, sem dúvida, um disco estranho. Principalmente para quem não é lá muito fã de pop, é preciso querer gostar dele e superar a primeira e, talvez, a segunda e a terceira impressões. O título do disco não é à toa: o tom é neojovemguardista do início ao fim. Mas por trás da duvidosíssima estética, é o bom e velho Arnaldo Antunes em ótima forma, principalmente em se tratando das letras.

Musicalmente é aquela coisa jovem-guarda, o instrumental é contido e sem maiores destaques (a exceção talvez seja a faixa-título), recitando melodias ultrapops (mas que soam esquisitíssimas algumas vezes sob a tétrica voz do Arnaldo, mesmo que ele nunca tente soar assim). Em um trabalho assim, as letras chamam bastante atenção. Não fosse Arnaldo um excelente letrista e - por que não? - intérprete de suas próprias composições, o disco estaria seriamente prejudicado.

O disco, após um bom começo com a faixa-titulo Iê Iê Iê, mas deslancha mesmo a partir da sexta música, Invejoso, com bons ritmo e letra. A partir daí é uma música legal atrás da outra, com destaques para Envelhecer, Sua Menina e Um Kilo.

Certamente não é o melhor disco da carreira solo do Arnaldo Antunes, mas é um bom disco: Iê Iê Iê é muito mais do que se poderia esperar de um disco com motivos jovemguardistas. Porém, com a evidente exceção das letras - e ainda que a intenção não seja exatamente a mesma -, ainda prefiro Graforréia Xilarmônica ou Video Hits fazendo isso.