terça-feira, 24 de agosto de 2010

o desastroso trânsito de campos

A cidade de Campos dos Goytacazes/RJ não tem sido famosa por nada de bom. Apesar de ser a terra dos royalties, maná que cai religiosamente do céu (mar?), a cidade é, na falta de melhor termo, uma merda. Diante do lamaçal geral, o desastre que é o trânsito da cidade é mero detalhe. Mas é sintomático do modo como as coisas acontecem na planície.

O trânsito de Campos dos Goytacazes/RJ é uma zona de guerra. Andar, pedalar e dirigir aqui são sempre empreitadas de alto risco. Aqui se tem medo de atravessar com o sinal verde, mesmo de carro. Aliás, aqui semáforos não significam absolutamente nada. Aqui uma imensa porcentagem da frota, especialmente carros de uns 5 anos para cá, é inimputável. Aqui, guardas de trânsito têm uma função desconhecida, uma vez que ignoram todo tipo de infração, em pleno centro da cidade. Aqui, há ruas inteiras exibindo placas erradas. Aqui, esquinas são estacionamentos. Aqui, todas as ruas têm vagas dos dois lados, mesmo que a marcação no asfalto indique o contrário. Aqui, engarrafamentos ocorrem por estacionamentos em fila dupla e todo tipo de parada em lugares proibidos. Aqui (bem, isso talvez nem só aqui), a classe média acha que é dona da cidade. Cidadania? Pfff...

O medo do sinal verde


A regra para atravessar com o sinal verde em Campos é simples. Quando aparecer o sinal verde, espere mais ou menos uns 5 segundos para atravessar, especialmente em horas de maior tráfego. Se a pista estiver limpa, nunca, eu repito, NUNCA atravesse sem parar caso o sinal tenha acabado de abrir. Se você não é daqui e está se perguntando por que, eu explico. Aqui, é comum que 5 ou 6 carros passem após o sinal fechar, mesmo que o verde do outro lado já esteja aceso. Lembrem-se que há um momento que dura uns 2 segundos, onde ambos os sinais estão vermelhos, justamente para evitar acidentes causados por carros passando no vermelho. Não contentes com os 2 segundos, os motoristas de Campos exigem 5 ou 6 (ônibus, vans e caminhões cobram um pouco mais: é lei do mais forte). Nenhum pedestre em Campos atravessa uma faixa sem que os carros estejam parados diante dela. Atravessar com algum carro ainda em movimento, de modo algum. O comportamento incivilizado dos motoristas de Campos é notório, e ninguém arriscaria - na melhor das hipóteses - uma temporada no hospital por confiar que um motorista daqui vá se ater a miudezas como respeitar a sinalização.

Há algum tempo, um carro atropelou uma pessoa em pleno sinal vermelho, e o atropelamento (inclusive o sinal vermelho) foi perfeitamente filmado por uma câmera de vigilância e estampado em todas as emissoras locais de TV. Pensei que, com o impacto visual haveria algum tipo de conscientização ou alguma ação da prefeitura visando domar os animais, mas nada aconteceu. Ingenuidade minha.

Campos é a cidade onde todos os sinais são vermelhos para uns e todos são verdes para outros.

Os carros 007


Alguém se lembra que o agente James Bond, o famoso 007, tinha permissão para matar? Pois é, grande parte da frota de Campos tem permissão, se não para matar, para estacionar em qualquer lugar, furar qualquer sinal vermelho ou cometer qualquer outro atentado à cidadania sem temer multas e coisas do tipo. Trata-se dos carros com placa do Espírito Santo. Para quem não entendeu, permitam-me uma melhor explicação. O IPVA do estado do Rio de Janeiro é absurdamente caro, obra do filho da planície, o sr. Anthony Garotinho, quando foi governador do estado. Com o aumento do imposto, virou padrão que os carros zero vendidos na cidade saiam com placas do estado vizinho do Espírito Santo, onde o imposto é mais barato e não há a necessidade de vistoria anual. Um erro não pode justificar outro.

Quando se fala nisto, as pessoas sempre aludem a evasão fiscal e outras coisas, mas não atentam para um efeito colateral que torna o trânsito de Campos ainda mais intolerável. Carros com placa do ES são simplesmente inimputáveis. Como as multas em vias não federais não são repassadas de um estado da federação a outro, temos que estes carros têm toda a liberdade de tornar o trânsito da cidade um inferno muito pior do que já seria sem eles.

Campos é a cidade fluminense onde metade dos motoristas é "capixaba".

Quem vigia os vigilantes?


A atuação dos guardas municipais é outro ponto que causa estranheza. Em qualquer passagem pelo centro da cidade, é possível ver todo tipo de infração. Logo, deduzo que os guardas de trânsito não multam ninguém. Pois se multassem um quinto dos carros que infringem as leis no centro da cidade, seria a convulsão social da classe média, já que esta só se levanta quando alguém questiona sua liberdade de atropelar a liberdade alheia.

Eu mesmo já presenciei um guarda municipal sugerir a um motorista que estacionava em uma rua estreita do centro na qual é proibido parar e estacionar (em frente à Livro Verde, para quem é daqui se localizar melhor) que este subisse com metade do carro na calçada, "para não obstruir a via".

Na semana passada, na hora do rush, uma cena ainda mais inusitada, na esquina da Conselheiro Otaviano com a Beira-Valão: guardas municipais que paravam o trânsito quando o sinal ficava vermelho e liberavam quando o sinal estava verde. Como os motoristas de Campos não estão acostumados nem a parar no sinal vermelho nem a respeitar os guardas de trânsito, temo pela vida destes bravos funcionários públicos. Percebam o absurdo: o guarda ficava simplesmente repetindo o sinal. Não sei qual era a intenção disto, mas que é uma cena bizarra, mesmo para os padrões de Campos, isso é.

Campos é a cidade onde os guardas municipais são backup de semáforo.

E então...


Como diria João, há muito mais coisas que poderiam ser ditas sobre o completo absurdo que é o trânsito de Campos, mas nem em todos os blogs do mundo caberiam os bytes que seriam escritos. Certamente voltarei ao assunto. Mas acho que, por hoje, já está bom, não acham?

2 comentários:

thiago kerzer disse...

Há muito que campos virou uma grande brincadeira de mal gosto. Mas isso é principalmente causado por causa dessa mentalidade brasileira que me enche de nojo. O jeitinho brasileiro de se resolver tudo. Estacionando em qualquer lugar, burlando o IPVA...
O políticos fodem com nossas vidas e muitos acham que pra resolver a saída é fazer mais merda ainda!
Acabei de quase bater de carro porque um TAXISTA, profissional do volante, havia deixado seu lindo carro parado numa esquina de avenida, obstruindo completamente a visão de quem queria entrar ou atravessar a mesma.
Sem falar de quem me conhece e já veio a minha casa na parte da noite e viu que é impossível se quer tirar o carro da garagem, pois, quando me fazem o favor de não pararem um carro na saída da minha garagem, há carros dos dois lados da rua estacionados a moda caralho por bêbados que no mínimo não tem mãe.
É FODA!
Quando o brasileiro resolver virar alguém que pensa no bem coletivo e não só no bem próprio, a coisa vai estar encaminhada pra começar a melhorar.

Raphael disse...

Além desse trânsito de merda, existe uma síndrome campista por buzina, e achei um blog(http://www.dirigindoseguro.com.br/?p=980) q resumi o q penso perfeitamente.

Levar uma fechada ou se irritar com aquela pessoa que vagarosamente utiliza as duas faixas da rua é motivo para soltarmos um belo “palavrão” e “sentar a mão” na buzina certo?

Mas na hora que fizer isto, cuidado. Esta atitude pode ocasionar uma multa. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) classifica que usar a buzina de forma exagerada e sem motivo é caso para infração.buzina1

O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:

I - para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;
II - fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

No artigo 227 estão as circunstâncias passíveis de multa:

I - em situação que não a de simples toque breve como advertência ao pedestre ou a condutores de outros veículos;
II - prolongada e sucessivamente a qualquer pretexto;
III - entre as vinte e duas e as seis horas;
IV - em locais e horários proibidos pela sinalização;
V - em desacordo com os padrões e freqüências estabelecidas pelo CONTRAN;