sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu ajudei a espalhar bobagens sobre um problema sério no Rio

O título do blog é mentiroso: eu não ajudei a espalhar coisa alguma. Mas tem muita gente na blogosfera repercutindo o risível texto "Eu ajudei a destruir o Rio", publicado aparentemente em um tal "Jornal de Brasília" pelo seu editor-chefe, chamado "Sylvio Guedes". Como tem sido praxe no tratamento da mídia a respeito das drogas ilícitas, muito discutidas atualmente após a chamada "reconquista de território" no Complexo do Alemão, o texto resvala no lugar-comum mais rasteiro.

É uma gigantesca inversão da lógica dizer que o consumo é o responsável pelo tráfico de drogas. Ora, só há "tráfico" se uma certa mercadoria foi declarada proibida. Se não há proibição, é impossível haver tráfico. Portanto, seguindo a mesma lógica simplista do autor do texto, posso dizer que a proibição é a responsável pelo tráfico. A história mostra isto com a malfadada "Lei Seca" nos Estados Unidos. "Mas", alguém dirá, "não há venda se não hṕa consumo!" O consumo de drogas é uma prática ancestral da humanidade e é simplesmente impossível querer bani-lo. Pessoas se drogam em uma quantidade absurda em qualquer agrupamento humano, seja álcool, cigarro, ahayuasca, ansiolíticos, maconha, cocaína ou antidepressivos. Algums foram escolhidos para ser ilícitos e outros para ser lícitos segundo certos critérios, que não são absolutos. Portanto, em uma sociedade onde o álcool é um dos principais componentes de socialização (a "cervejinha" é uma verdadeira instituição nacional), falar em proibição de drogas, principalmente leves como a maconha, soa como nonsense ou hipocrisia. Há outros argumentos como gastos com saúde pública que também se quebram à mera citação das drogas lícitas que também enchem os hospitais públicos com seus efeitos nocivos ao organismo.

O que conservadores, a direita, parte da esquerda, a mídia e as pessoas que são levadas pelo senso comum mais tosco não discutem e não trazem à tona é que o problema da violência das drogas no Rio de Janeiro é fruto simplesmente do descaso e do completo abandono das favelas, abrindo espaço para que grupos criminosos (traficantes, milicianos) dominassem e fizessem destas comunidades feudos e quartéis-generais. O termo "controle do território", muito usado ultimamente, é sintomático. Os traficantes nunca precisaram arrancar o território do Brasil, por que agora o território teve que ser "conquistado"? Simplesmente porque favelas eram, do ponto de vista do Estado, terra de ninguém. A única política pública para estas comunidades sempre foi polícia. O que esperavam que ocorresse? Depois de décadas de total abandono do Estado, a culpa é do "artista", do "jornalista" e do "intelectual" maconheiros e cheiradores? Sério mesmo que é isso que eu estou vendo a blogosfera repercutir em peso?

15 comentários:

agitadorcultural disse...

O próprio Roberto Moraes, provavelmente o blog mais lido na cidade, fazendo este papel...

Anônimo disse...

Não acho o texto risível,acho muio coerente.
Nos meus 22 anos, nunca usei drogas,por serem proibidas e se as usasse estaria contribuindo para o tráfico. Concordo q a maior parcela de culpa é do poder público q nada fez para evitar isso tudo, mas que os usuários são culpados também não tenho dúvidas quanto a isso.

Rodrigo Manhães disse...

Se os usuários são culpados ativamente de algo, é apenas de prejudicar a própria saúde, mas aí é problema de cada um.

Essa postura de "eu nunca usei drogas" é uma perspectiva moralista e também risível. Se você - ou qualquer um - usa ou não usa drogas, é problema seu. Atribuir o problema do tráfico a isso é querer encontrar um bode expiatório difuso. Só pode existir tráfico se existe proibição. Neste sentido, é o status quo jurídico quem "ajuda a destruir o Rio". E este status quo interessa a muitos que lucram com o clima de guerra (e afaga religiosos e moralistas em geral), por isto se mantém.

Que o consumidor de drogas ilícitas é um componente nesta equação, é óbvio. Falar, porém, em "contribuir para o tráfico" como se isto fosse uma postura ativa, é moralismo, puro e simples. Espalhar moralismo blogosfera afora é, sim, contribuir para espalhar o ridículo em um debate que deveria ser sério.

Anônimo disse...

É Rodrigo, continuo não concordando e não me considero moralista.
O legal disso tudo é que descobri seu blog.
Mariana Areas Pedra

Rodrigo Manhães disse...

Olá Mariana, discordar faz parte. O meu post, na verdade, é que foi a discordância de um quase-consenso. Obrigado pela visita e volte sempre!

Anônimo disse...

inda que o governo deva cumprir com seu papel institucional, temos que considerar que, mesmo sendo vítimas, os usuários têm sua parcela negativa de contribuição para o tráfico de drogas. É importante destacar que, hoje, circulam nos meios de comunicação informações relevantes acerca do abuso de drogas. Há informação, mas não há conscientização.

agitadorcultural disse...

Drogas não tem nada a ver com conscientização. Se conscientizar resolvesse o problema, as campanhas do governo e outdoors pela cidade resolveriam o problema. Veja os fumantes de cigarro: todo mundo sabe que cigarro faz mal (tem consciencia) e não param de fumar.

Anônimo disse...

Essa é uma discussão interminável.
São pontos de vista diferentes!
Eu sou totalmente contra o uso, e não me julgo careta por isso.
E também não acho que os usuários
só prejudiquem a própria saúde, a todo um contexto não só familiar, como social envolvido no problema e isso afeta a todos.

Mariana Arêas

uariana Areâs

Anônimo disse...

Acho também que o governo faz campanhas informativas, mas não de conscientização. A uma grande diferença entre informar(ter conhecimentos, buscar mudanças ), mas só estamos conscientizados quando saímos do plano do desejo e passamos a ter atitudes renovadoras com formação de novos hábitos.
Pode falar: sou enjuadinha mesmo!!rs

Mariana Arêas

Anônimo disse...

Correção: Há uma grande diferença e não "A uma grande diferença'.

Mariana Arêas

Anônimo disse...

Eu fumo, eu bebo, eu cheiro e o problema é meu! Nunca dei uma arma pra nenhum traficante. Gostaria muito de poder comprar meu baseado como minha mãe compra o rivotril dela, sem receita, sem problemas.

Rodrigo Manhães disse...

Bom, eu penso que a Mariana tem todo o direito de ser contra as drogas (e certamente não é careta por isto), assim como o anônimo-junkie-cuja-mãe-toma-rivotril tem todo o direito de gostar delas.

Mariana, drogas são um problema de saúde pública, concordo com você, e é assim que todos os que defendem a legalização querem que ele seja tratado.

Ainda sobre o anônimo-junkie, a comparação dele sobre o "baseado" e o rivotril é perfeita. Como eu disse no post, algumas drogas "foram escolhidos para ser ilícitos e outros para ser lícitos segundo certos critérios, que não são absolutos".

Agitador, também não entendi o que a conscientização tem a ver com a história.


Obrigado a todos pelos comentários e pelo debate!

agitadorcultural disse...

O discurso muitas vezes segue a linha do "temos que conscientizar a população sobre isso ou aquilo", sobre o uso da camisinha, das drogas, da boa alimentação ou da importância do cinto de segurança. E muitas vezes fatores inconscientes não são levados em consideração. O consumismo está totalmente ligado a uma compulsão. Em psicanálise essas compulsões (sexo, drogas, jogatina, esportes, comida)estão intrinsicamente ligadas ao Real, ao Inconsciente, ao Gozo mortífero. Existem questões latentes em cada indivíduo que fazem com que eles se comportem de tal maneira. Cada sujeito é único, barrado, castrado... por isso o discurso da conscientização é um discurso furado. Não tem direção, é vazio, não encontra o objeto. A questão só toca o sujeito quando toca algo que remete a um significante. Significados soltos (conscientização) são meramente pedagógicos (e até importantes), mas não tocam no X da questão, naquilo que é exclusivamente da ordem do Real.

Rodrigo Manhães disse...

Essa aula de psicologia aí rende um post! Verei em breve no agitador cultural?

Rogério Azevedo disse...

"Se os usuários são culpados ativamente de algo, é apenas de prejudicar a própria saúde, mas aí é problema de cada um." Na minha opinião este foi um comentário reducionista. Não deveríamos considerar o dano social / familiar causado pelos usuários de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas? Porque você considera uma perspectiva moralista "risível"? Não entendi...