sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Janeiro cultural

Eu queria iniciar este post dizendo que vou inaugurar uma seção no blog para postar uma espécie de "balanço cultural" mensal, mas este blog anda se especializando em promessas não cumpridas, então, nada de seção.

Janeiro foi mês de férias, então li/assisti/ouvi um razoável volume de coisas. Vou separá-las por mídia: quadrinhos, música, séries, filmes. Janeiro não teve livros, uma vez que me meti em uma leitura meio pesada e ainda não terminei. Fica pro próximo, quem sabe.

Quadrinhos

Aproveitei o mês de férias para colocar a leitura de quadrinhos em dia, diminuindo a imensa pilha - literalmente - de quadrinhos não lidos. Já que era férias, deixei um pouco de lado os super-heróis não lidos e me dediquei principalmente às melhores obras, mas de leitura mais trabalhosa, que vinha adiando há algum tempo.


Marvels II: Por Trás da Câmera
(Panini Comics/Marvel Comics, Minissérie em 3 edições, abril a junho/2010)
Texto: Kurt Busiek e Roger Stern; Arte: Jay Anacleto


Como qualquer obra que se disponha a ser continuação de um clássico absoluto, Marvels II gerou uma imensa expectativa, que foi cumprida em parte. Mesmo distante do brilhantismo de Marvels, leva a bandeira à frente de modo digno. Perde bastante em relação à primeira por não contar com as pinturas de Alex Ross, apesar da arte de Jay Anacleto ser bem legal. A história, que desta vez Kurt Busiek dividiu com Roger Stern, mostra a trajetória final de Phil Sheldon, tentando manter acesa a esperança nas "maravilhas" em um mundo onde já não é mais tão simples distinguir heróis e vilões. Assim como em Marvels, o desenrolar da vida e dos dramas de pessoas comuns tendo como pano de fundo as mudanças no mundo causadas pelos superpoderosos e seus conflitos muitas vezes sequer compreendidos (mas sempre sofridos) pelas pessoas é o grande atrativo da série. A grande diferença é que não é tão "fascinante" (não me ocorre termo melhor) quanto a primeira Marvels, passa longe daquela sensação única de estar lendo um clássico, mesmo que no momento da leitura ainda não seja.


Tocha Humana
(Panini Comics/Marvel Comics, Minissérie em 2 edições, outubro e novembro/2010)
Texto: Alex Ross e Mike Carey; Arte: Patrick Berkenkotter


Alex Ross (Marvels, Reino do Amanhã, Justiça) e Mike Carey (Hellblazer, Lúcifer) escrevem o roteiro e Patrick Berkenkotter (nunca ouvi falar) desenha uma boa história do Tocha Humana original e de seu sidekick Centelha. Não acompanho o Universo Marvel tão de perto e pensei que era um one-shot relativamente independente, mas é uma história ligada à cronologia dos eventos atuais da Marvel. O "anteriormente", porém, explica tudo razoavelmente, desde que você aceite a ressurreição do Centelha, morto na época da 2ª Guerra (e se você é leitor de quadrinhos de super-heróis, você vai aceitar numa boa), com a mesma idade que tinha na época. A história em si começa muito bem, envolvente, mesmo para quem, como eu, mal conhecia os personagens; depois, vira uma palhaçada com o lance dos zumbis (só vendo) e, do meio em diante, volta a se salvar. No fim, a trama, cheia de reviravoltas, se salva. Me agrada também a metalinguagem embutida no encontro com o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, seguindo uma tradição muito comum nas histórias da DC Comics. Vale a pena.


Red: Aposentados e Perigosos
(Panini Comics/Wildstorm, novembro/2010)
Texto: Warren Ellis; Arte: Cully Hammer


Há algum tempo eu já venho me perguntando quais as consequências de quadrinhos se tornarem fontes de roteiros para o cinema, se isto não faria dos quadrinhos laboratórios de roteiros cinematográficos. Aí me vem Warren Ellis e confirma meus piores temores (apesar da boa arte de Cully Hammer). Red é uma leitura fácil e rápida, até chega a divertir quem gosta muito de quadrinhos, mas me parece tão-somente uma tentativa de roteiro para um filme de Steven Seagal. Aliás, fizeram mesmo um filme baseado nesta história. Assim, contas bancárias de Ellis e Hammer com alguns zeros a mais, missão cumprida.


10 Pãezinhos: Mesa para Dois
(Devir, 2006)
Texto e arte: Fabio Moon e Gabriel Bá


Mais um ótimo trabalho dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, sob o selo 10 Pãezinhos, desta vez é a história da garçonete Julia, que se torna assistente do escritor Milo Solano (inspirado em Lourenço Mutarelli). Seu trabalho consiste unicamente em conversar com o escritor sobre seu dia, sua vida, enfim, qualquer coisa, para assim abastecê-lo com ideias. Neste processo Julia descobre mais sobre sua própria vida e sobre as pessoas que a cercam. É impressionante como, em uma história curta, os autores são capazes de criar personagens sobre os quais o leitor realmente se importa. Só de me fazer gostar de uma história romântica, já é um sinal de que é um ótimo trabalho! Excelente ver bons quadrinhos brasileiros e que não sejam infantis ou cópias bisonhas de comics ou mangás. Recomendo!


Reino dos Malditos
(Pixel Media/Dark Horse Books, 2006)
Texto: Ian Edington; Arte; D'Israeli


Reino dos Malditos é uma daquelas obras que confirmam os quadrinhos como uma verdadeira arte, a despeito do que muitos pensam. A história gira em torno do escritor de livros infantis Chris Grahame e suas constantes dores de cabeça e desmaios que o levam a Castrovalva, mundo fantástico criado pelo escritor quando criança, para entreter a si próprio. Só que agora Castrovalva não é mais assim tão brilhante quanto era quando foi criada: há guerra, morte e destruição por toda parte. Excelente história, com subtextos psicanalíticos e filosóficos. Muito bom mesmo!


Hellblazer: Sangue Real
(Pixel/Vertigo, 2008)
Texto: Garth Ennis; Arte: William Simpson (primeiro arco) e Steve Dillon (segundo)


"Sangue Real" traz os dois únicos arcos de Hellblazer escritos por Garth Ennis que ainda não haviam sido publicados no Brasil. O primeiro, que é o arco que dá nome ao encadernado, desenhado por Wiliiam Simpson, é de longe o melhor dos dois, trazendo tudo o que se poderia esperar de Hellblazer por Ennis: violência extrema, demônios e sarcasmo político elevados à máxima potência. Um homem extremamente influente na Inglaterra está massacrando pessoas com as própŕias mãos e John Constantine é chamado para intervir. No segundo arco, bem mais fraco - e mais curto - corpos são roubados para servirem de alvos em testes balísticos. Um dos corpos é próximo a Constantine. O grande destaque deste arco é ver a dupla Garth Ennis e Steve Dillon em ação.


Hellblazer: Congelado
(Panini Comics/Vertigo, 2009)
Hellblazer: Highwater - Pecados do Passado
Hellblazer: Cinzas e Pó na Cidade dos Anjos
(Panini Comics/Vertigo, 2010)

Estes 3 encadernados fecham a fase de Brian Azzarello comandando os destinos de John Constantine. Quando li o início da passagem de Azzarello pelo título, achei tudo muito esquisito: além de tudo parecer estranho e fora de lugar (e o local ser os EUA, ao contrário do ambiente habitual, a Inglaterra), a trama parecia sem pé nem cabeça. Apesar de ter causado muita polêmica (tanto pela estranheza quanto por coisas que seriam spoilers), estes três encadernados eliminam qualquer dúvida: a passagem de Azzarello será lembrada como uma das melhores da longa história de John Constantine.


Loveless: Terra Sem Lei - Vol.1: De Volta pra Casa
Loveless: Terra Sem Lei - Vol.2: Mais Denso que Sangue

(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian Azzarello; Arte: Marcelo Frusin


Escrita por Brian Azzarello (100 Balas, Hellblazer) e com arte de Marcelo Frusin, Loveless se passa logo após o fim da Guerra Civil nos EUA. Wes Cutter, o personagem principal, lutou do lado do Sul escravagista, que, como se sabe, perdeu. Ao regressar à sua cidade, Wes tenta recuperar as suas antigas terras, agora de propriedade da União, e encontrar sua esposa "desaparecida". Um protagonista moralmente ambíguo e um faroeste bem diferente de Tex, por exemplo. Leitura mais que recomendada.


Ex Machina: Estado de Emergência
(Panini Comics/Wildstorm, 2005)
Ex Machina: Símbolo
(Pixel Media/Wildstorm, Minissérie em 3 edições, agosto a outubro/2007)
Ex Machina: Fato vs. Ficção
(Panini Comics/Wildstorm, 2010)
Ex Machina: Marcha à Guerra
Ex Machina: Fumaça e Fogo

(Panini Comics/Wildstorm, 2010)
Texto: Brian K. Vaughan; Arte: Tony Harris


Imagine um sujeito que consegue o poder de falar com máquinas em uma explosão e se torna um super-herói. Esdrúxulo, certo? Porém, após salvar uma das torres do World Trade Center no atentado de 2001, o cara decide se candidatar a prefeito de Nova York, e vence. É daqui que a história começa. Sim, apesar de ter como personagem principal um cara que fala com máquinas, os bastidores da política são o principal mote de Ex Machina. Um brilhante trabalho de Brian K. Vaughan (Y: The Last Man), com arte de Tony Harris (Starman).


100 Balas: Atire Primeiro, Pergunte Depois
100 Balas: Tiro pela Culatra

(Pixel Media/Vertigo, 2007)
100 Balas: Pequenos Vigaristas, Grandes Negócios
100 Balas: Dia, Hora, Minute... Man
100 Balas: Parlez Kung Vous #1 e #2

(Pixel Media/Vertigo, 2008)
100 Balas - Vol. 3: Laços de Sangue
(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian Azzarello; Arte: Eduardo Risso


100 Balas é a obra-prima de Brian Azzarello (história) e Eduardo Risso (arte). Um homem misterioso, que se apresenta como Agente Graves, entrega a uma pessoa que teve sua vida arruinada por alguém uma maleta contendo provas irrefutáveis do culpado pela sua desgraça, uma arma e 100 balas irrastreáveis. Caso a pessoa seja presa com esta arma, será liberada imediatamente. Caso uma investigação colete alguma destas balas, será desviada. O que inicialmente parece uma parábola a respeito do que uma pessoa faria se tivesse a chance de se vingar (o que já seria uma premissa legal) vai se mostrando a ponta do iceberg em uma conspiração muito maior. Se for ler, esteja atento a, literalmente, todo e qualquer detalhe. Tudo é importante. Eu comecei a ler o volume quatro (o cinco também está a espera) mas comecei a me complicar e talvez releia pelo menos o terceiro. O universo de 100 Balas é complexo, mas fascinante. Altamente recomendável.


Y - O Último Homem - Vol. 1: Extinção
Y - O Último Homem - Vol. 2: Ciclos
Y - O Último Homem - Vol. 3: Um Pequeno Passo

(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian K. Vaughan; Arte: Pia Guerra


Todos os seres vivos com o cromossomo Y morrem subitamente, exceto Yorick Brown e Ampersand, seu mico de estimação. Em meio ao caos que se segue ele tenta sair dos EUA para encontrar sua noiva que estava na Austrália. Porém, terá que enfrentar o fato de que é, geopoliticamente falando, o ser humano mais importante da Terra, além de vácuos de poder estatal, infraestruturas urbanas completamente desarticuladas, catástrofes de todo tipo (queda de aviões, acidentes nucleares) e guerras de gangues. Leitura muito fluente e cheia de reviravoltas, é impossível soltar a revista antes do fim. Escrito por Brian K. Vaughan (Ex Machina) com arte de Pia Guerra. Totalmente recomendado.


Bórgia - Vol 1: Sangue para o Papa
Bórgia - Vol 2: O Poder e o Incesto
Bórgia - Vol 3: As Chamas da Fogueira

(Conrad, 2010, 2ª ed.)
Texto: Alejandro Jodorowsky; Arte: Milo Manara


Só por ter sido criada por talentos do porte de Alejandro Jodorowsky (El Incal) e Milo Manara (O Clic), Bórgia já é, de cara, uma série digna da grande atenção. Sim, como Manara é o desenhista, haverá sexo a rodo, mas nada gratuito como nas coisas escritas pelo próprio. Aqui ficamos com o melhor de Milo Manara: seus desenhos. Sobre Jodorowsky eu não posso falar muito, uma vez que nunca li a maior de suas obras quadrinísticas, El Incal. Mas esta faz parte da pilha de quadrinhos de que falei no início do post e será finalmente lida em breve. A fama do escritor chileno, porém, o precede. Bom, vamos a Bórgia: a série conta a história da família Bórgia, o patriarca Rodrigo Bórgia e sua eleição a Papa, como Alexandre VI, e seus filhos, inclusive a mais famosa, Lucrécia Bórgia. Baseado em fatos reais, Bórgia mostra até que níveis de violência e degradação podem chegar os seres humanos na ambição do poder. Uma obra-prima, o que só faz aumentar minha expectativa com relação a El Incal. O problema é que ainda não terminou: a quarta parte deve ser produzida este ano (se você está acostumado com quadrinhos de super-heróis, os quadrinhos europeus costumam ter uma produção muito mais cuidadosa, e, por isto, demoram bastante).


Avenida Dropsie: A Vizinhança
(Devir, 2009)
Texto e arte: Will Eisner


Como praticamente tudo que Will Eisner fez, Avenida Dropsie: A Vizinhança é genial, uma verdadeira obra-prima, que mostra a evolução do bairro que cerca a Avenida Dropsie, com as diversas gerações e seus conflitos, dramas, amores e tragédias. A narrativa de Eisner é profundamente sensível e artística, mesmo abordando temas pesados como política, corrupção e racismo. Para os desavisados, Eisner foi o maior responsável pela elevação dos quadrinhos ao status de arte. Leitura obrigatória para qualquer admirador de quadrinhos. Fechei janeiro com chave de ouro nos quadrinhos!


Filmes

Como sempre, eu vejo poucos filmes e meu conhecimento na área é mínimo. Mas vamos tentar assim mesmo:

Perdas e Danos
(Damage, Inglaterra/França, 1992)

Filme propagandeado pelo dono da locadora como "bom para casais", é, na verdade, muito estranho se visto por esta ótica. Pense em algo que deveria evocar erotismo, mas pelo jeito que é mostrado, causa mais estranheza e alheamento do que qualquer outra coisa. O enredo é mais um sogro-que-se-envolve-com-nora-e-no-final-acaba-dando-merda. O final é previsível, lá pelo meio do filme já dá pra saber como vai terminar. Não gostei.


Homem de Ferro
(Iron Man, EUA, 2008)

Ver o Afeganistão logo no início atiçou meus temores de tudo descambar num Rambo-like, desta vez com os afegãos como os grandes vilões - os mesmos que, no Rambo 3, foram os heróis, o "valente povo" ao qual foi dedicado o filme (quem for trouxa que compre!). Isto, por sorte, não ocorreu. O filme não desenvolve muito a história, focando basicamente na origem do Homem de Ferro. O final nem chega a ser um final de verdade, chamando descaradamente por uma continuação. Diverte, mas não é um dos melhores filmes da Marvel.


Divã
(Brasil, 2009)

Bom filme nacional, Divã mostra a personagem principal, Mercedes, vivida por Lilia Cabral, em uma jornada de autoconhecimento, de um casamento monótono à aceitação de si mesma, passando, às vezes pouco à vontade, por "baladas", namorados mais jovens e a perda de uma amiga. Os cortes entre as seções de psicanálise e o decorrer da vida da protagonista são interessantes.


Séries

De séries foram, basicamente, V e Simpsons.

V (Temporada 1)

Em um remake da série V dos anos 80 (passava no SBT, eu me lembro que tinha o maior medo dos ETs reptilianos, evitava até ver os comerciais), V é uma ótima série, com um ritmo frenético. A dinâmica me lembrou Prison Break: um pequeno grupo de indivíduos que precisa, contra todos os obstáculos, revelar a verdade ao mundo. O único porém é que força o suspension of disbelief em alguns momentos, mas vale a pena.


Os Simpsons (Temporada 8)
Os Simpsons (Temporada 9, Episódios 1 a 4)


Não há muito o que falar sobre Simpsons que todo mundo já não saiba. Se tiver a oportunidade de, como estou fazendo, tentar assistir a todas as temporadas, faça.


Música

Como música é meio que uma especialidade deste blog, eu deixarei para comentar os álbuns em posts específicos (ou não). Os ouvidos (pela primeira vez) este mês foram:

- Gork, "Tomorow Tecnik" (2010)
- The Dillinger Escape Plan, "Option Paralysis" (2010)
- Huaska, "Bossa Nenhuma" (2010)
- Plastic Fire, "A Última Cidade Livre" (2010)
- Sergio Britto, "SP55" (2010)
- The Ocean, "Anthropocentric" (2010)
- Velotroz, "Parque da Cidade" (2009)
- Violator, "Annihilation Process" (2010)
- Napalm Death, "Enemy of the Music Business" (2000)
- Burro Morto, "Baptista Virou Máquina" (2011)
- Mogwai, "Hardcore Will Never Die, But You Will" (2011)