terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os (meus) 15 melhores discos de 2013

Aí vai a lista dos 15 melhores discos de 2013. Ou melhor, dos meus 15 melhores discos de 2013. Ou, melhor ainda, dos 15 discos de 2013 que eu mais gostei. Ou seja, completamente subjetiva. E muita coisa eu ainda não ouvi, então talvez haja grandes ausências aqui. Acho meio arbitrário colocar uma ordem de preferência, então fiquem à vontade para desconsiderar a ordem em que os álbuns aparecem. Aqueles disponibilizados pelos autores terão links aqui; os outros, o Google está aí pra isso.

Feliz 2014 a todos!


APANHADOR SÓ - Antes que Tu Conte Outra
indie rock, Brasil(RS)

Quem esperava mais um disco pós-Hermanos legal e bonitinho, ou seja, não esperava muito, caiu do cavalo. A banda colocou a cara na reta e fez um álbum completamente diferente do anterior, muito mais ousado e sem medo de soar estranho a uma primeira audição.



HUMBERTO GESSINGER - Insular
pop rock/regional, Brasil(RS)

Como explicar que um disco com uma sonoridade tão diferente dos Engenheiros do Hawaii dos anos 80 e início dos 90, a ponto de eu nem conseguir classificá-lo como um álbum de (pop-)rock, possa me remeter tanto a esta fase da banda?É o melhor trabalho de Humberto Gessinger (com os Engenheiros ou não) desde o último álbum solo, de 1996.



VARNEY - Varney
indie rock, Brasil(RJ)

O rock brasileiro passa há anos por uma bundamolice crônica, resultado em parte de uma má assimilação do (bom, quero acreditar!) legado dos Los Hermanos. Assim, é um alento ouvir um disco de rock com ótimas letras, melodias inspiradas, refrões grudentos - e que diferente de muitos outros, você não quer que saiam da sua cabeça - e instrumental afiadíssimo. Varney é um trabalho inspirador e provavelmente o disco que mais gostei em 2013.

Download (clique em "Buy now" e coloque um valor - zero é aceito)



THE DILLINGER ESCAPE PLAN - One of Us Is the Killer
mathcore, EUA

Assista isso e ame ou odeie The Dillinger Escape Plan.



SATANIQUE SAMBA TRIO - Bad Trip Simulator #3
regional/experimental, Brasil(DF)

A banda é um quinteto de música instrumental que mistura ritmos nordestinos com jazz e outras influências. Um forró dos diabos, literalmente.



SEPULTURA - The Mediator between Head and Hands Must Be the Heart
thrash metal, Brasil/EUA

Talvez o melhor disco do Sepultura desde Roots (ou seja, desde a saída de Max Cavalera). Pesadão, flerta em vários momentos com o death metal. E ainda tem um cover bem legal de Da Lama ao Caos.



THIS TOWN NEEDS GUNS - 13.0.0.0.0
math pop, Inglaterra

Nem sei se existe o rótulo "math pop", mas foi como melhor consegui enquadrar a banda. O vocal, demasiado melodioso para meus ouvidos acostumados a grindcore, me incomodou um pouco no início, mas é legal. Os trampos de guitarra e bateria são excelentes. Depois dizem que eu implico com pop não brasileiro. Tá aí, ó!



SOULFLY - Savages
thrash metal, Brasil/EUA

Muito bom um ano em que Sepultura e Soulfly lançam ótimos discos! Savages é Max Cavalera em sua melhor forma. Músicas marcantes e cheias de personalidade, que conseguem ser grudentas mesmo nos momentos mais extremos. Destaque para o novo baterista da banda: Zyon Cavalera, filho do Max, aquele mesmo do coração batendo no início de Refuse/Resist (sim, camaradas, estamos todos ficando velhos).



NEVILTON - Sacode
indie pop, Brasil(PR)

Exatamente o que eu esperava o disco do Nevilton. E isso é bom: rock divertido e desencanado. Provavelmente a banda de pop rock mais radiofônica da tal "nova música brasileira".



CHURCH OF MISERY - Thy Kingdom Scum
stoner metal, Japão

Ecos de um Black Sabbath psicopata por toda parte. Mas, que não me apedrejem na rua, o disco dos admiradores é bem mais legal que o novo dos ídolos.



LULINA - Pantim
indie/MPB, Brasil(PE)

Pantim revela uma Lulina mais sombria que em Cristalina. Um bom disco, pena que ouvi muito no fim do ano e ainda é um trabalho a ser melhor digerido.



TODTGELICHTER - Apnoe.
avant-garde black metal, Alemanha

Bem mais "avant-garde" que "black metal" (eu quase tasquei um "indie rock" nele), é um disco bem interessante, atmosférico e melodioso, quase não tem vozes guturais. Não tenho muito pra falar do disco por ter pouco referencial, mas gostei bastante.



WADO - Vazio Tropical
MPB/indie, Brasil(AL)

Wado ainda não conseguiu fazer outro disco tão legal quanto Terceiro Mundo Festivo, de 2004, mas felizmente segue tentando. Esse tem produção de Marcelo Camelo, para o bem ou para o mal. Sobressaem-se as ótimas melodias.

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HURTMOLD - Mils Crianças
post rock, Brasil(SP)

Nunca havia parado pra escutar um disco deles, o que agora me parece ser um erro. Ótimo disco instrumental.



PECULATE - Collateral Damage, Pt. I

PECULATE - The Great Gesticulator

PECULATE - Pax Tecum

PECULATE - Fiscal Cliffs

PECULATE - The Anarchist Prince

PECULATE - Anti-Christ(mas)
progressive metal/experimental, EUA

Pense numa banda/projeto que lança esse número absurdo de EPs no ano de estreia, fazendo metal cheio de influências das mais diversas. No mínimo, merece que você pare e ouça (eu pelo menos sempre faço isso com esse tipo de loucura). Incluí esses EPs todos, mas considerem como um, por gentileza.

Download



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tributos e mais tributos

Há algum tempo tive uma discussão, digamos, acalorada no Facebook a respeito de tributos. O assunto da discussão era, mais especificamente, o conceito de "tributo". Um tributo seria simplesmente um show com os "greatest hits" de uma banda, tocados na versão mais assimilável disponível na discografia da banda, de modo a atrair e não causar nenhum tipo de estranhamento no público médio? Ou seria uma espécie de celebração feita por e para os fãs de uma banda? Ou um pouco das duas?

A segunda opção é a ideal. A terceira é até aceitável. A primeira - e a mais comum - não merece o nome de tributo.

Para exemplificar minha tese, como ninguém por aqui fez ainda um tributo aos Titãs - e acho que é a única banda de nome que ainda não teve um tributo - vou listar dois repertórios de virtuais "tributos" aos Titãs. Um seria a tal festa dos fãs; o outro um "greatest hits" pasteurizado. Se houvesse uma enquete, o resultado seria óbvio: praticamente todos os que conhecem o trabalho da banda escolheriam o primeiro; todos os ouvintes genéricos escolheriam o segundo. Estes, evidentemente, seriam a maioria.

As vantagens do modelo "greatest hits" pasteurizado são inúmeras: potencialmente mais público (qualquer artista tem mais não fãs do que fãs), maior facilidade de tocar, principalmente em se tratando de versões acústicas (ou seja, menos tempo gasto com ensaios), não exige uma maior familiaridade com o trabalho da banda (o que torna mais fácil contratar músicos "de apoio" que muitas vezes as bandas não possuem, como tecladistas).

A desvantagem do modelo "greatest hits", porém, é, na opinião deste que vos escreve, fatal: ao encher um show com hits óbvios e versões acustiquentas, elimina completamente a possibilidade de ver uma verdadeira homenagem à banda e uma festa de e para seus fãs.

Com bandas com poucos discos gravados, como Los Hermanos, não há como errar neste sentido, pois os hits óbvios não são suficientes para um show inteiro. Mas bandas com carreira longa, como os Engenheiros ou Titãs, são candidatas certas para um "tributo" acústico.

Bom, vamos aos repertórios dos meus tributos imaginários aos Titãs. As músicas estão em ordem mais ou menos cronológica, não na ordem que eu acho que deveriam ter em um show. Comparem por si próprios.


TRIBUTO AOS TITÃS

- todas versões dos discos originais

1. Pule Pule by Titãs on Grooveshark
2. Pavimentação Pavimentação by Titãs on Grooveshark
3. Não Vou Me Adaptar Não Vou Me Adaptar by Titãs on Grooveshark
4. Autonomia Autonomia by Titãs on Grooveshark
5. A Face do Destruidor A Face do Destruidor by Titãs on Grooveshark
6. Bichos Escrotos Bichos Escrotos by Titãs on Grooveshark
7. Homem Primata Homem Primata by Titãs on Grooveshark
8. Polícia Polícia by Titãs on Grooveshark
9. Igreja Igreja by Titãs on Grooveshark
10. Mentiras Mentiras by Titãs on Grooveshark
11. Diversão Diversão by Titãs on Grooveshark
12. Lugar Nenhum Lugar Nenhum by Titãs on Grooveshark
13. Armas pra Lutar Armas Pra Lutar by Titãs on Grooveshark
14. Violência Violência by Titãs on Grooveshark
15. Flores Flores by Titãs on Grooveshark
16. O Camelo e o Dromedário O Camelo e o Dromedário by Titãs on Grooveshark
17. O Pulso O Pulso by Titãs on Grooveshark
18. Clitóris Clitóris by Titas on Grooveshark
19. Saia de Mim Saia de Mim by Titas on Grooveshark
20. Já Já by Titas on Grooveshark
21. Será que é Isso que Eu Necessito? Sera Que É Isso o Que Eu Necessito? by Titãs on Grooveshark
22. A Verdadeira Mary Poppins A Verdadeira Mary Poppins by Titãs on Grooveshark
23. Dissertação do Papa sobre o Crime Seguido de Orgia Dissertação do Papa Sobre o Crime Seguida de Orgia by Titãs on Grooveshark
24. Disneylândia Disneylândia by Titãs on Grooveshark
25. Brasileiro Brasileiro by Titãs on Grooveshark
26. Uns Iguais aos Outros Uns Iguais Aos Outros by Titãs on Grooveshark
27. Tudo em Dia Tudo Em Dia by Titãs on Grooveshark
28. Qualquer Negócio Qualquer Negócio by Titãs on Grooveshark
29. Nem Cinco Minutos Guardados Nem 5 Minutos Guardados by Titãs on Grooveshark


"GREATEST HITS" DOS TITÃS PARA UM PÚBLICO GENÉRICO

1. Sonífera Ilha (versão "Volume Dois") Sonifera Ilha by Titãs on Grooveshark
2. Marvin (versão "Acústico MTV") Marvin by Titãs on Grooveshark
3. Querem Meu Sangue (versão "Acústico MTV") Querem meu sangue by Titãs on Grooveshark
4. Toda Cor (versão "Volume Dois") Toda Cor by Titãs on Grooveshark
5. Televisão (versão "Acústico MTV") Televisão by Titãs on Grooveshark
6. Insensível (versão "Volume Dois") Insensível by Titãs on Grooveshark
7. Pra Dizer Adeus (versão "Acústico MTV") Pra Dizer Adeus by Titãs on Grooveshark
8. Polícia (uma versão sem sangue baseada no "Acústico MTV") Polícia by Titãs on Grooveshark
9. Bichos Escrotos (versão parecida com a original, mas tirada do "Bailão do Ruivão") Bichos Escrotos by Nando Reis on Grooveshark
10. Homem Primata (versão "Acústico MTV") Homem primata by Titãs on Grooveshark
11. Comida (versão "Acústico MTV") Comida by Titãs on Grooveshark
12. Miséria (versão "Volume Dois") Miséria by Titãs on Grooveshark
13. Flores (versão "Acústico MTV") Flores by Titãs on Grooveshark
14. Go Back (versão "Acústico MTV") Go back by Titãs on Grooveshark
15. Domingo Domingo by Titãs on Grooveshark
16. Os Cegos do Castelo Os cegos do castelo by Titãs on Grooveshark
17. É Preciso Saber Viver É Preciso Saber Viver by Titãs on Grooveshark
18. Sua Impossível Chance Sua Impossível Chance by Titãs on Grooveshark
19. Amanhã Não Se Sabe Amanhã Nao Se Sabe by Titãs on Grooveshark
20. Gostava Tanto de Você Gostava Tanto de Você by Titãs on Grooveshark
21. Aluga-se Aluga-se by Titãs on Grooveshark
22. Um Certo Alguém Um Certo Alguém by Titãs on Grooveshark
23. Querem Acabar Comigo Querem Acabar Comigo by Titãs on Grooveshark
24. Epitáfio Epitáfio by Titãs on Grooveshark
25. Enquanto Houver Sol Enquanto Houver Sol by Titãs on Grooveshark
26. A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da Última Semana by TITÃS on Grooveshark
27. O Mundo é Bão, Sebastião (versão "MTV Ao Vivo", do Nando Reis) O Mundo é Bao, Sebastiao! by Nando Reis on Grooveshark
28. Isso Isso by Titãs on Grooveshark
29. Por que Eu Sei que é Amor Porque Eu Sei Que E Amor by Titãs on Grooveshark

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Janeiro cultural

Eu queria iniciar este post dizendo que vou inaugurar uma seção no blog para postar uma espécie de "balanço cultural" mensal, mas este blog anda se especializando em promessas não cumpridas, então, nada de seção.

Janeiro foi mês de férias, então li/assisti/ouvi um razoável volume de coisas. Vou separá-las por mídia: quadrinhos, música, séries, filmes. Janeiro não teve livros, uma vez que me meti em uma leitura meio pesada e ainda não terminei. Fica pro próximo, quem sabe.

Quadrinhos

Aproveitei o mês de férias para colocar a leitura de quadrinhos em dia, diminuindo a imensa pilha - literalmente - de quadrinhos não lidos. Já que era férias, deixei um pouco de lado os super-heróis não lidos e me dediquei principalmente às melhores obras, mas de leitura mais trabalhosa, que vinha adiando há algum tempo.


Marvels II: Por Trás da Câmera
(Panini Comics/Marvel Comics, Minissérie em 3 edições, abril a junho/2010)
Texto: Kurt Busiek e Roger Stern; Arte: Jay Anacleto


Como qualquer obra que se disponha a ser continuação de um clássico absoluto, Marvels II gerou uma imensa expectativa, que foi cumprida em parte. Mesmo distante do brilhantismo de Marvels, leva a bandeira à frente de modo digno. Perde bastante em relação à primeira por não contar com as pinturas de Alex Ross, apesar da arte de Jay Anacleto ser bem legal. A história, que desta vez Kurt Busiek dividiu com Roger Stern, mostra a trajetória final de Phil Sheldon, tentando manter acesa a esperança nas "maravilhas" em um mundo onde já não é mais tão simples distinguir heróis e vilões. Assim como em Marvels, o desenrolar da vida e dos dramas de pessoas comuns tendo como pano de fundo as mudanças no mundo causadas pelos superpoderosos e seus conflitos muitas vezes sequer compreendidos (mas sempre sofridos) pelas pessoas é o grande atrativo da série. A grande diferença é que não é tão "fascinante" (não me ocorre termo melhor) quanto a primeira Marvels, passa longe daquela sensação única de estar lendo um clássico, mesmo que no momento da leitura ainda não seja.


Tocha Humana
(Panini Comics/Marvel Comics, Minissérie em 2 edições, outubro e novembro/2010)
Texto: Alex Ross e Mike Carey; Arte: Patrick Berkenkotter


Alex Ross (Marvels, Reino do Amanhã, Justiça) e Mike Carey (Hellblazer, Lúcifer) escrevem o roteiro e Patrick Berkenkotter (nunca ouvi falar) desenha uma boa história do Tocha Humana original e de seu sidekick Centelha. Não acompanho o Universo Marvel tão de perto e pensei que era um one-shot relativamente independente, mas é uma história ligada à cronologia dos eventos atuais da Marvel. O "anteriormente", porém, explica tudo razoavelmente, desde que você aceite a ressurreição do Centelha, morto na época da 2ª Guerra (e se você é leitor de quadrinhos de super-heróis, você vai aceitar numa boa), com a mesma idade que tinha na época. A história em si começa muito bem, envolvente, mesmo para quem, como eu, mal conhecia os personagens; depois, vira uma palhaçada com o lance dos zumbis (só vendo) e, do meio em diante, volta a se salvar. No fim, a trama, cheia de reviravoltas, se salva. Me agrada também a metalinguagem embutida no encontro com o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, seguindo uma tradição muito comum nas histórias da DC Comics. Vale a pena.


Red: Aposentados e Perigosos
(Panini Comics/Wildstorm, novembro/2010)
Texto: Warren Ellis; Arte: Cully Hammer


Há algum tempo eu já venho me perguntando quais as consequências de quadrinhos se tornarem fontes de roteiros para o cinema, se isto não faria dos quadrinhos laboratórios de roteiros cinematográficos. Aí me vem Warren Ellis e confirma meus piores temores (apesar da boa arte de Cully Hammer). Red é uma leitura fácil e rápida, até chega a divertir quem gosta muito de quadrinhos, mas me parece tão-somente uma tentativa de roteiro para um filme de Steven Seagal. Aliás, fizeram mesmo um filme baseado nesta história. Assim, contas bancárias de Ellis e Hammer com alguns zeros a mais, missão cumprida.


10 Pãezinhos: Mesa para Dois
(Devir, 2006)
Texto e arte: Fabio Moon e Gabriel Bá


Mais um ótimo trabalho dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, sob o selo 10 Pãezinhos, desta vez é a história da garçonete Julia, que se torna assistente do escritor Milo Solano (inspirado em Lourenço Mutarelli). Seu trabalho consiste unicamente em conversar com o escritor sobre seu dia, sua vida, enfim, qualquer coisa, para assim abastecê-lo com ideias. Neste processo Julia descobre mais sobre sua própria vida e sobre as pessoas que a cercam. É impressionante como, em uma história curta, os autores são capazes de criar personagens sobre os quais o leitor realmente se importa. Só de me fazer gostar de uma história romântica, já é um sinal de que é um ótimo trabalho! Excelente ver bons quadrinhos brasileiros e que não sejam infantis ou cópias bisonhas de comics ou mangás. Recomendo!


Reino dos Malditos
(Pixel Media/Dark Horse Books, 2006)
Texto: Ian Edington; Arte; D'Israeli


Reino dos Malditos é uma daquelas obras que confirmam os quadrinhos como uma verdadeira arte, a despeito do que muitos pensam. A história gira em torno do escritor de livros infantis Chris Grahame e suas constantes dores de cabeça e desmaios que o levam a Castrovalva, mundo fantástico criado pelo escritor quando criança, para entreter a si próprio. Só que agora Castrovalva não é mais assim tão brilhante quanto era quando foi criada: há guerra, morte e destruição por toda parte. Excelente história, com subtextos psicanalíticos e filosóficos. Muito bom mesmo!


Hellblazer: Sangue Real
(Pixel/Vertigo, 2008)
Texto: Garth Ennis; Arte: William Simpson (primeiro arco) e Steve Dillon (segundo)


"Sangue Real" traz os dois únicos arcos de Hellblazer escritos por Garth Ennis que ainda não haviam sido publicados no Brasil. O primeiro, que é o arco que dá nome ao encadernado, desenhado por Wiliiam Simpson, é de longe o melhor dos dois, trazendo tudo o que se poderia esperar de Hellblazer por Ennis: violência extrema, demônios e sarcasmo político elevados à máxima potência. Um homem extremamente influente na Inglaterra está massacrando pessoas com as própŕias mãos e John Constantine é chamado para intervir. No segundo arco, bem mais fraco - e mais curto - corpos são roubados para servirem de alvos em testes balísticos. Um dos corpos é próximo a Constantine. O grande destaque deste arco é ver a dupla Garth Ennis e Steve Dillon em ação.


Hellblazer: Congelado
(Panini Comics/Vertigo, 2009)
Hellblazer: Highwater - Pecados do Passado
Hellblazer: Cinzas e Pó na Cidade dos Anjos
(Panini Comics/Vertigo, 2010)

Estes 3 encadernados fecham a fase de Brian Azzarello comandando os destinos de John Constantine. Quando li o início da passagem de Azzarello pelo título, achei tudo muito esquisito: além de tudo parecer estranho e fora de lugar (e o local ser os EUA, ao contrário do ambiente habitual, a Inglaterra), a trama parecia sem pé nem cabeça. Apesar de ter causado muita polêmica (tanto pela estranheza quanto por coisas que seriam spoilers), estes três encadernados eliminam qualquer dúvida: a passagem de Azzarello será lembrada como uma das melhores da longa história de John Constantine.


Loveless: Terra Sem Lei - Vol.1: De Volta pra Casa
Loveless: Terra Sem Lei - Vol.2: Mais Denso que Sangue

(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian Azzarello; Arte: Marcelo Frusin


Escrita por Brian Azzarello (100 Balas, Hellblazer) e com arte de Marcelo Frusin, Loveless se passa logo após o fim da Guerra Civil nos EUA. Wes Cutter, o personagem principal, lutou do lado do Sul escravagista, que, como se sabe, perdeu. Ao regressar à sua cidade, Wes tenta recuperar as suas antigas terras, agora de propriedade da União, e encontrar sua esposa "desaparecida". Um protagonista moralmente ambíguo e um faroeste bem diferente de Tex, por exemplo. Leitura mais que recomendada.


Ex Machina: Estado de Emergência
(Panini Comics/Wildstorm, 2005)
Ex Machina: Símbolo
(Pixel Media/Wildstorm, Minissérie em 3 edições, agosto a outubro/2007)
Ex Machina: Fato vs. Ficção
(Panini Comics/Wildstorm, 2010)
Ex Machina: Marcha à Guerra
Ex Machina: Fumaça e Fogo

(Panini Comics/Wildstorm, 2010)
Texto: Brian K. Vaughan; Arte: Tony Harris


Imagine um sujeito que consegue o poder de falar com máquinas em uma explosão e se torna um super-herói. Esdrúxulo, certo? Porém, após salvar uma das torres do World Trade Center no atentado de 2001, o cara decide se candidatar a prefeito de Nova York, e vence. É daqui que a história começa. Sim, apesar de ter como personagem principal um cara que fala com máquinas, os bastidores da política são o principal mote de Ex Machina. Um brilhante trabalho de Brian K. Vaughan (Y: The Last Man), com arte de Tony Harris (Starman).


100 Balas: Atire Primeiro, Pergunte Depois
100 Balas: Tiro pela Culatra

(Pixel Media/Vertigo, 2007)
100 Balas: Pequenos Vigaristas, Grandes Negócios
100 Balas: Dia, Hora, Minute... Man
100 Balas: Parlez Kung Vous #1 e #2

(Pixel Media/Vertigo, 2008)
100 Balas - Vol. 3: Laços de Sangue
(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian Azzarello; Arte: Eduardo Risso


100 Balas é a obra-prima de Brian Azzarello (história) e Eduardo Risso (arte). Um homem misterioso, que se apresenta como Agente Graves, entrega a uma pessoa que teve sua vida arruinada por alguém uma maleta contendo provas irrefutáveis do culpado pela sua desgraça, uma arma e 100 balas irrastreáveis. Caso a pessoa seja presa com esta arma, será liberada imediatamente. Caso uma investigação colete alguma destas balas, será desviada. O que inicialmente parece uma parábola a respeito do que uma pessoa faria se tivesse a chance de se vingar (o que já seria uma premissa legal) vai se mostrando a ponta do iceberg em uma conspiração muito maior. Se for ler, esteja atento a, literalmente, todo e qualquer detalhe. Tudo é importante. Eu comecei a ler o volume quatro (o cinco também está a espera) mas comecei a me complicar e talvez releia pelo menos o terceiro. O universo de 100 Balas é complexo, mas fascinante. Altamente recomendável.


Y - O Último Homem - Vol. 1: Extinção
Y - O Último Homem - Vol. 2: Ciclos
Y - O Último Homem - Vol. 3: Um Pequeno Passo

(Panini Comics/Vertigo, 2010)
Texto: Brian K. Vaughan; Arte: Pia Guerra


Todos os seres vivos com o cromossomo Y morrem subitamente, exceto Yorick Brown e Ampersand, seu mico de estimação. Em meio ao caos que se segue ele tenta sair dos EUA para encontrar sua noiva que estava na Austrália. Porém, terá que enfrentar o fato de que é, geopoliticamente falando, o ser humano mais importante da Terra, além de vácuos de poder estatal, infraestruturas urbanas completamente desarticuladas, catástrofes de todo tipo (queda de aviões, acidentes nucleares) e guerras de gangues. Leitura muito fluente e cheia de reviravoltas, é impossível soltar a revista antes do fim. Escrito por Brian K. Vaughan (Ex Machina) com arte de Pia Guerra. Totalmente recomendado.


Bórgia - Vol 1: Sangue para o Papa
Bórgia - Vol 2: O Poder e o Incesto
Bórgia - Vol 3: As Chamas da Fogueira

(Conrad, 2010, 2ª ed.)
Texto: Alejandro Jodorowsky; Arte: Milo Manara


Só por ter sido criada por talentos do porte de Alejandro Jodorowsky (El Incal) e Milo Manara (O Clic), Bórgia já é, de cara, uma série digna da grande atenção. Sim, como Manara é o desenhista, haverá sexo a rodo, mas nada gratuito como nas coisas escritas pelo próprio. Aqui ficamos com o melhor de Milo Manara: seus desenhos. Sobre Jodorowsky eu não posso falar muito, uma vez que nunca li a maior de suas obras quadrinísticas, El Incal. Mas esta faz parte da pilha de quadrinhos de que falei no início do post e será finalmente lida em breve. A fama do escritor chileno, porém, o precede. Bom, vamos a Bórgia: a série conta a história da família Bórgia, o patriarca Rodrigo Bórgia e sua eleição a Papa, como Alexandre VI, e seus filhos, inclusive a mais famosa, Lucrécia Bórgia. Baseado em fatos reais, Bórgia mostra até que níveis de violência e degradação podem chegar os seres humanos na ambição do poder. Uma obra-prima, o que só faz aumentar minha expectativa com relação a El Incal. O problema é que ainda não terminou: a quarta parte deve ser produzida este ano (se você está acostumado com quadrinhos de super-heróis, os quadrinhos europeus costumam ter uma produção muito mais cuidadosa, e, por isto, demoram bastante).


Avenida Dropsie: A Vizinhança
(Devir, 2009)
Texto e arte: Will Eisner


Como praticamente tudo que Will Eisner fez, Avenida Dropsie: A Vizinhança é genial, uma verdadeira obra-prima, que mostra a evolução do bairro que cerca a Avenida Dropsie, com as diversas gerações e seus conflitos, dramas, amores e tragédias. A narrativa de Eisner é profundamente sensível e artística, mesmo abordando temas pesados como política, corrupção e racismo. Para os desavisados, Eisner foi o maior responsável pela elevação dos quadrinhos ao status de arte. Leitura obrigatória para qualquer admirador de quadrinhos. Fechei janeiro com chave de ouro nos quadrinhos!


Filmes

Como sempre, eu vejo poucos filmes e meu conhecimento na área é mínimo. Mas vamos tentar assim mesmo:

Perdas e Danos
(Damage, Inglaterra/França, 1992)

Filme propagandeado pelo dono da locadora como "bom para casais", é, na verdade, muito estranho se visto por esta ótica. Pense em algo que deveria evocar erotismo, mas pelo jeito que é mostrado, causa mais estranheza e alheamento do que qualquer outra coisa. O enredo é mais um sogro-que-se-envolve-com-nora-e-no-final-acaba-dando-merda. O final é previsível, lá pelo meio do filme já dá pra saber como vai terminar. Não gostei.


Homem de Ferro
(Iron Man, EUA, 2008)

Ver o Afeganistão logo no início atiçou meus temores de tudo descambar num Rambo-like, desta vez com os afegãos como os grandes vilões - os mesmos que, no Rambo 3, foram os heróis, o "valente povo" ao qual foi dedicado o filme (quem for trouxa que compre!). Isto, por sorte, não ocorreu. O filme não desenvolve muito a história, focando basicamente na origem do Homem de Ferro. O final nem chega a ser um final de verdade, chamando descaradamente por uma continuação. Diverte, mas não é um dos melhores filmes da Marvel.


Divã
(Brasil, 2009)

Bom filme nacional, Divã mostra a personagem principal, Mercedes, vivida por Lilia Cabral, em uma jornada de autoconhecimento, de um casamento monótono à aceitação de si mesma, passando, às vezes pouco à vontade, por "baladas", namorados mais jovens e a perda de uma amiga. Os cortes entre as seções de psicanálise e o decorrer da vida da protagonista são interessantes.


Séries

De séries foram, basicamente, V e Simpsons.

V (Temporada 1)

Em um remake da série V dos anos 80 (passava no SBT, eu me lembro que tinha o maior medo dos ETs reptilianos, evitava até ver os comerciais), V é uma ótima série, com um ritmo frenético. A dinâmica me lembrou Prison Break: um pequeno grupo de indivíduos que precisa, contra todos os obstáculos, revelar a verdade ao mundo. O único porém é que força o suspension of disbelief em alguns momentos, mas vale a pena.


Os Simpsons (Temporada 8)
Os Simpsons (Temporada 9, Episódios 1 a 4)


Não há muito o que falar sobre Simpsons que todo mundo já não saiba. Se tiver a oportunidade de, como estou fazendo, tentar assistir a todas as temporadas, faça.


Música

Como música é meio que uma especialidade deste blog, eu deixarei para comentar os álbuns em posts específicos (ou não). Os ouvidos (pela primeira vez) este mês foram:

- Gork, "Tomorow Tecnik" (2010)
- The Dillinger Escape Plan, "Option Paralysis" (2010)
- Huaska, "Bossa Nenhuma" (2010)
- Plastic Fire, "A Última Cidade Livre" (2010)
- Sergio Britto, "SP55" (2010)
- The Ocean, "Anthropocentric" (2010)
- Velotroz, "Parque da Cidade" (2009)
- Violator, "Annihilation Process" (2010)
- Napalm Death, "Enemy of the Music Business" (2000)
- Burro Morto, "Baptista Virou Máquina" (2011)
- Mogwai, "Hardcore Will Never Die, But You Will" (2011)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu ajudei a espalhar bobagens sobre um problema sério no Rio

O título do blog é mentiroso: eu não ajudei a espalhar coisa alguma. Mas tem muita gente na blogosfera repercutindo o risível texto "Eu ajudei a destruir o Rio", publicado aparentemente em um tal "Jornal de Brasília" pelo seu editor-chefe, chamado "Sylvio Guedes". Como tem sido praxe no tratamento da mídia a respeito das drogas ilícitas, muito discutidas atualmente após a chamada "reconquista de território" no Complexo do Alemão, o texto resvala no lugar-comum mais rasteiro.

É uma gigantesca inversão da lógica dizer que o consumo é o responsável pelo tráfico de drogas. Ora, só há "tráfico" se uma certa mercadoria foi declarada proibida. Se não há proibição, é impossível haver tráfico. Portanto, seguindo a mesma lógica simplista do autor do texto, posso dizer que a proibição é a responsável pelo tráfico. A história mostra isto com a malfadada "Lei Seca" nos Estados Unidos. "Mas", alguém dirá, "não há venda se não hṕa consumo!" O consumo de drogas é uma prática ancestral da humanidade e é simplesmente impossível querer bani-lo. Pessoas se drogam em uma quantidade absurda em qualquer agrupamento humano, seja álcool, cigarro, ahayuasca, ansiolíticos, maconha, cocaína ou antidepressivos. Algums foram escolhidos para ser ilícitos e outros para ser lícitos segundo certos critérios, que não são absolutos. Portanto, em uma sociedade onde o álcool é um dos principais componentes de socialização (a "cervejinha" é uma verdadeira instituição nacional), falar em proibição de drogas, principalmente leves como a maconha, soa como nonsense ou hipocrisia. Há outros argumentos como gastos com saúde pública que também se quebram à mera citação das drogas lícitas que também enchem os hospitais públicos com seus efeitos nocivos ao organismo.

O que conservadores, a direita, parte da esquerda, a mídia e as pessoas que são levadas pelo senso comum mais tosco não discutem e não trazem à tona é que o problema da violência das drogas no Rio de Janeiro é fruto simplesmente do descaso e do completo abandono das favelas, abrindo espaço para que grupos criminosos (traficantes, milicianos) dominassem e fizessem destas comunidades feudos e quartéis-generais. O termo "controle do território", muito usado ultimamente, é sintomático. Os traficantes nunca precisaram arrancar o território do Brasil, por que agora o território teve que ser "conquistado"? Simplesmente porque favelas eram, do ponto de vista do Estado, terra de ninguém. A única política pública para estas comunidades sempre foi polícia. O que esperavam que ocorresse? Depois de décadas de total abandono do Estado, a culpa é do "artista", do "jornalista" e do "intelectual" maconheiros e cheiradores? Sério mesmo que é isso que eu estou vendo a blogosfera repercutir em peso?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Declaração de voto: Chico Alencar (PSOL)


Esta será a segunda vez que voto no Chico Alencar para deputado federal, e por um motivo simples. Mais que preciso, é absolutamente necessário ter na Câmara vozes de esquerda que não estejam ligadas ao arco de alianças (e esse arco inclui boa (?!) parte da pior direita) que sustentou o governo Lula e sustentará o provável governo Dilma. E, vale dizer, a única voz de esquerda no Congresso fora do governo é o PSOL. Bom, tem o PV e o PPS, que acham que são de esquerda, mas até aí todo mundo tem o direito de achar o que quiser, certo?

Estas vozes de esquerda independentes são importantíssimas exatamente por isto: independência. Não têm que atender a orientações partidárias por conta de questões relativas a alianças. Não têm contas a prestar a financiadores de campanha, pois o PSOL não aceita doações de pessoas jurídicas. Ter deputados verdadeiramente independentes e de esquerda no parlamento é algo que não tem preço.

Enfim, precisamos de parlamentares que defendam o não contingenciamento de investimentos em serviços públicos; que combatam a bancada ruralista e lutem pela reforma agrária; que defendam os direitos humanos; que lutem pela redução da jornada de trabalho e pelos direitos trabalhistas; que lutem pelos direitos das mulheres e dos homossexuais; que combatam o racismo; que apoiem os movimentos sociais; que lutem pelas reformas política e urbana. Além, claro, daquilo que deveria, para além de posicionamentos políticos, ser um pré-requisito para qualquer cargo público (mas acaba virando bandeira - falsa - para muitos): honestidade, probidade, ética, responsabilidade, espírito público.

Tudo isto, e ainda mais, é o que Chico Alencar tem feito na Câmara, raramente não sendo lembrado quando são listados os melhores ou mais atuantes deputados federais.

Diante disto, não tenho dúvidas: é 5050 para deputado federal!

Declaração de voto: Lindberg (PT)

Com meus votos em Lindberg acontece algo como no aforismo de Karl Marx que diz que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. A primeira vez em que votei nele, 1998, foi a tragédia: candidato a deputado federal pelo PSTU (1616, ainda lembro!), teve uma imensa votação (se bem me lembro algo em torno de 90 mil votos) mas não o suficiente para se eleger, uma vez que o PSTU encarava - e este tipo de firmeza eu admiro - sozinho, sem coligações, a eleição. Na mesma eleição, Luiz Sérgio (PT) conseguiu uma vaga com cerca de 15 mil. Certamente foi um baque para Lindberg (foi pra mim que só votei, imagine para o próprio). O que talvez explique - mas decerto não justifica - as suas alianças atuais, cujas propagandas constituem insistentes tentativas de me fazer deixar de votar nele. Se alguém há um ano me dissesse que eu votaria em um sujeito que aparece em placas ao lado de Sergio Cabral e Jorge Picciani, eu certamente diria a este alguém que está variando. Pois é, esta é a minha situação com o voto no 131, e talvez seja esta a "farsa" - ou drama, vai saber - como a qual a história se repete.

Mas você poderia votar nulo no segundo voto pra senador, alguém diria (pois o primeiro, óbvio, é do Milton Temer). O problema são os competidores: além do Lindberg, os cinco candidatos a senador no RJ mais bem colocados nas pesquisas são Marcelo Crivella (PRB), Cesar Maia (DEM), Jorge Picciani (PMDB) e Waguinho (PT do B). Entendeu a merda em que estamos metidos aqui no RJ?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Declaração de voto: Marcelo Freixo (PSOL)


Começo desenrolando o porquê dos meus votos na ordem da urna eletrônica.

O voto pra deputado estadual este ano é para mim a escolha mais fácil, simples e óbvia de todas. Marcelo Freixo (PSOL) fez, certamente, um dos melhores mandatos de deputado estadual que o Rio de Janeiro já teve.

Explico: além dos requisitos mínimos que se esperariam de um político (mas que uma quantidade ínfima de candidatos consegue atingir), Freixo encabeçou a luta contra as milícias no Rio de Janeiro, sendo presidente da CPI das Milícias, tendo indiciado 225 envolvidos, fato que fez com que o deputado esteja sendo ameaçado de morte pela milícia. Caso não seja eleito, Marcelo Freixo terá que deixar o país. Como disse o delegado da Polícia Civil Vinicius George, coordenador da segurança do deputado, o "preço do cadáver de um deputado é muito mais alto do que o de um professor de história". Além disto, militantes que se arriscam a fazer campanha para Freixo em áreas dominadas por milícias são ameaçadas. Após a CPI, alterou-se a visão que as pessoas tinham sobre as milícias, que são nada menos que organizações de tipo mafioso. Antes, havia espaço para seres do naipe de um Cesar Maia chamá-las de "auto-defesa comunitária" ou Eduardo Paes defendê-las abertamente sem se desmoralizar. Hoje não mais.

Só isto já valeria, e muito, o voto no Marcelo Freixo. Mas ainda tem mais. Pediu a cassação de deputados envolvidos na "bolsa fraude", da ALERJ, o que deu na cassação das deputadas Renata do Posto e Núbia Cozzolino. Pediu e obteve aprovação também da cassação do deputado Álvaro Lins. Aprovou lei para o reconhecimento do funk como movimento cultural musical (funk não é muito o perfil deste blog, mas a questão está muito além do gosto musical). Apresentou pedidos de CPIs para investigação de corrupção na Federação de Futebol do Rio de Janeiro e superfaturamento de compra de medicamentos na Secretaria de Saúde; apresentou projetos de lei contra a tortura, pelos direitos humanos, pela fiscalização dos royalties do petróleo e mais.

E tudo isto não abrindo mão um milímetro de suas posições de esquerda e em defesa dos direitos humanos, e sendo o único deputado de seu partido, o PSOL, partido que não tem aliança com nenhum outro no Rio de Janeiro. Ninguém, repito, fez tanto em uma situação tão adversa, e com tanta coragem, contrariando grandes interesses e a despeito de gravíssimas ameaças de morte.

Por falar nisto, o PSOL caminha com uma dignidade política que não se vê desde os tempos do antigo PT. O PSOL tem parlamentares para reeleger (e parlamentares que estão entre os melhores - se efetivamente não o são - e farão imensa falta ao Brasil e aos estados caso não consigam se reeleger) e, mesmo assim, não se curva às alianças espúrias, vindo sozinho nas eleições, em uma opção corajosa, com o perigo de não conseguir o quociente eleitoral necessário. Além disto, o PSOL não aceita doações de empresas e boa parte da campanha é tocada em trabalho de formiguinha por voluntários, como o dono deste blog vagabundo.

Com tudo isto, devo dizer que nunca votei para deputado com tamanha convicção. 50123 é Freixo!

domingo, 26 de setembro de 2010

declaração de voto

Seguindo o exemplo do caro amigo Vitor Menezes, vou também declarar meus votos nestas eleições.

Na próximaNesta semana, pretendo desenvolver o porquê do voto em cada um. Mas não se enganem, pode ser mais uma daquelas promessas não cumpridas como "dessa vez volto a escrever com regularidade no blog". Vamos lá!

Presidente: Dilma (13 - PT)
Governador: Jefferson Moura (50 - PSOL)
Senador: Milton Temer (500 - PSOL)
Senador: Lindberg (131 - PT)
Dep. Federal: Chico Alencar (5050 - PSOL)
Dep. Estadual: Marcelo Freixo (50123 - PSOL)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

o desastroso trânsito de campos

A cidade de Campos dos Goytacazes/RJ não tem sido famosa por nada de bom. Apesar de ser a terra dos royalties, maná que cai religiosamente do céu (mar?), a cidade é, na falta de melhor termo, uma merda. Diante do lamaçal geral, o desastre que é o trânsito da cidade é mero detalhe. Mas é sintomático do modo como as coisas acontecem na planície.

O trânsito de Campos dos Goytacazes/RJ é uma zona de guerra. Andar, pedalar e dirigir aqui são sempre empreitadas de alto risco. Aqui se tem medo de atravessar com o sinal verde, mesmo de carro. Aliás, aqui semáforos não significam absolutamente nada. Aqui uma imensa porcentagem da frota, especialmente carros de uns 5 anos para cá, é inimputável. Aqui, guardas de trânsito têm uma função desconhecida, uma vez que ignoram todo tipo de infração, em pleno centro da cidade. Aqui, há ruas inteiras exibindo placas erradas. Aqui, esquinas são estacionamentos. Aqui, todas as ruas têm vagas dos dois lados, mesmo que a marcação no asfalto indique o contrário. Aqui, engarrafamentos ocorrem por estacionamentos em fila dupla e todo tipo de parada em lugares proibidos. Aqui (bem, isso talvez nem só aqui), a classe média acha que é dona da cidade. Cidadania? Pfff...

O medo do sinal verde


A regra para atravessar com o sinal verde em Campos é simples. Quando aparecer o sinal verde, espere mais ou menos uns 5 segundos para atravessar, especialmente em horas de maior tráfego. Se a pista estiver limpa, nunca, eu repito, NUNCA atravesse sem parar caso o sinal tenha acabado de abrir. Se você não é daqui e está se perguntando por que, eu explico. Aqui, é comum que 5 ou 6 carros passem após o sinal fechar, mesmo que o verde do outro lado já esteja aceso. Lembrem-se que há um momento que dura uns 2 segundos, onde ambos os sinais estão vermelhos, justamente para evitar acidentes causados por carros passando no vermelho. Não contentes com os 2 segundos, os motoristas de Campos exigem 5 ou 6 (ônibus, vans e caminhões cobram um pouco mais: é lei do mais forte). Nenhum pedestre em Campos atravessa uma faixa sem que os carros estejam parados diante dela. Atravessar com algum carro ainda em movimento, de modo algum. O comportamento incivilizado dos motoristas de Campos é notório, e ninguém arriscaria - na melhor das hipóteses - uma temporada no hospital por confiar que um motorista daqui vá se ater a miudezas como respeitar a sinalização.

Há algum tempo, um carro atropelou uma pessoa em pleno sinal vermelho, e o atropelamento (inclusive o sinal vermelho) foi perfeitamente filmado por uma câmera de vigilância e estampado em todas as emissoras locais de TV. Pensei que, com o impacto visual haveria algum tipo de conscientização ou alguma ação da prefeitura visando domar os animais, mas nada aconteceu. Ingenuidade minha.

Campos é a cidade onde todos os sinais são vermelhos para uns e todos são verdes para outros.

Os carros 007


Alguém se lembra que o agente James Bond, o famoso 007, tinha permissão para matar? Pois é, grande parte da frota de Campos tem permissão, se não para matar, para estacionar em qualquer lugar, furar qualquer sinal vermelho ou cometer qualquer outro atentado à cidadania sem temer multas e coisas do tipo. Trata-se dos carros com placa do Espírito Santo. Para quem não entendeu, permitam-me uma melhor explicação. O IPVA do estado do Rio de Janeiro é absurdamente caro, obra do filho da planície, o sr. Anthony Garotinho, quando foi governador do estado. Com o aumento do imposto, virou padrão que os carros zero vendidos na cidade saiam com placas do estado vizinho do Espírito Santo, onde o imposto é mais barato e não há a necessidade de vistoria anual. Um erro não pode justificar outro.

Quando se fala nisto, as pessoas sempre aludem a evasão fiscal e outras coisas, mas não atentam para um efeito colateral que torna o trânsito de Campos ainda mais intolerável. Carros com placa do ES são simplesmente inimputáveis. Como as multas em vias não federais não são repassadas de um estado da federação a outro, temos que estes carros têm toda a liberdade de tornar o trânsito da cidade um inferno muito pior do que já seria sem eles.

Campos é a cidade fluminense onde metade dos motoristas é "capixaba".

Quem vigia os vigilantes?


A atuação dos guardas municipais é outro ponto que causa estranheza. Em qualquer passagem pelo centro da cidade, é possível ver todo tipo de infração. Logo, deduzo que os guardas de trânsito não multam ninguém. Pois se multassem um quinto dos carros que infringem as leis no centro da cidade, seria a convulsão social da classe média, já que esta só se levanta quando alguém questiona sua liberdade de atropelar a liberdade alheia.

Eu mesmo já presenciei um guarda municipal sugerir a um motorista que estacionava em uma rua estreita do centro na qual é proibido parar e estacionar (em frente à Livro Verde, para quem é daqui se localizar melhor) que este subisse com metade do carro na calçada, "para não obstruir a via".

Na semana passada, na hora do rush, uma cena ainda mais inusitada, na esquina da Conselheiro Otaviano com a Beira-Valão: guardas municipais que paravam o trânsito quando o sinal ficava vermelho e liberavam quando o sinal estava verde. Como os motoristas de Campos não estão acostumados nem a parar no sinal vermelho nem a respeitar os guardas de trânsito, temo pela vida destes bravos funcionários públicos. Percebam o absurdo: o guarda ficava simplesmente repetindo o sinal. Não sei qual era a intenção disto, mas que é uma cena bizarra, mesmo para os padrões de Campos, isso é.

Campos é a cidade onde os guardas municipais são backup de semáforo.

E então...


Como diria João, há muito mais coisas que poderiam ser ditas sobre o completo absurdo que é o trânsito de Campos, mas nem em todos os blogs do mundo caberiam os bytes que seriam escritos. Certamente voltarei ao assunto. Mas acho que, por hoje, já está bom, não acham?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ECAD novamente (a última, espero!) + blog abandonado

Este ano eu deixei o blog abandonado. Apesar disto ser um clichê, creio que no meu caso seja verdade: peço desculpas a meus 7 leitores e estou agora em mais uma tentativa de mantê-lo regularmente atualizado. Vamos lá!

Já que o momento é de volta, é hora de tocar a bola pra frente, mas não sem antes pagar algumas dívidas com o passado. Há alguns meses, iniciei uma discussão aqui sobre ECAD e direitos autorais, inicialmente questionando os caminhos pelos quais o dinheiro vai parar nas mãos de quem é, em tese, devido. Depois, levantei a bola de novo ao ver a Karina Buhr reclamar em seu twitter a respeito das cobranças do ECAD. Em ambas as postagens, as discussões nos comentários foram mais interessantes que o meu texto e vale a pena que sejam lidas.

E o que isso tem a ver com as tais "dívidas com o passado"?

Algum tempo depois da segunda postagem, recebi um e-mail de alguém que assinava por "Marketing ECAD" discorrendo a respeito da lisura e idoneidade da instituição. Porém, os pontos questionados por mim e pelos comentaristas (que inclusive contaram casos reais acontecidos com os próprios) não foram atacados:
  • Como se pode aceitar pagamento sem saber exatamente quais foram as músicas e seus autores?
  • Uma vez que o pagamento é feito mesmo se as músicas tocadas não forem registradas, o dinheiro vai pra quem?
  • Se as músicas forem de domínio público, o dinheiro vai pra quem?
  • Se as músicas forem de autores que, por um motivo ou outro, não podem ser facilmente encontrados, o que se faz com o dinheiro?
  • É verdade que o dinheiro que sobra - esse aí mesmo que não vai pra ninguém - é dividido entre o top 50 (ou algum outro número)? Se é verdade, isto é justo? Ou não é um Robin Hood ao inverso?

Enfim, nenhuma destas perguntas foi respondida pelo "Marketing ECAD". Segue abaixo a íntegra da mensagem.


de ecadnaweb@ecad.org.br
para rmanhaes@gmail.com
data 28 de dezembro de 2009 17:18
assunto Ecad
enviado por ecad.org.br

28/12/09

Prezado Rodrigo Manhães,

O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) está direcionando seus esforços para aprimorar o relacionamento com os usuários de música, com o objetivo de intensificar os esclarecimentos sobre o pagamento de direitos autorais de execução pública musical no Brasil.

Percebemos que você postou um comentário no no blog “Fanatismo Indeciso” sobre a falta de fiscalização do Ecad. Gostaríamos de esclarecer que o trabalho do Ecad é auditado anualmente por empresas independentes de renome no mercado, e por órgãos públicos como Receita Federal e INSS, sendo seu desempenho aprovado ano após ano. Além disso, apesar de não haver obrigação da instituição em divulgar seu Balanço Patrimonial e Social e Relatório de Sustentabilidade, por ser uma entidade privada sem fins lucrativos, a instituição faz questão de divulgar tais resultados em jornal de grande circulação e no site www.ecad.org.br, comprovando sua transparência e ética profissional. Sua conduta correta levou a instituição a receber prêmios como o Certificado de Empresa Cidadã, concedido duas vezes pelo Conselho Regional de Contabilidade do Rio de Janeiro; Prêmio Responsabilidade Social – Segmento de Serviços Diversos, concedido pela Revista Isto É Dinheiro; e Prêmio Balanço Social, recebido por dois anos seguidos.

Informamos que, em 2008, fruto de um trabalho sério e responsável, o Ecad distribuiu R$ 271 milhões em direitos autorais de execução pública musical para 73.700 titulares de música como compositores, cantores, músicos, editoras musicais e gravadoras. Ao longo dos último 8 anos, o desempenho da instituição fez com que a distribuição de direitos autorais crescesse 222%, resultado dos investimentos feitos em tecnologia, controle dos processos, qualificação das equipes e na comunicação com o mercado.

Por fim, ressaltamos que sempre trabalhamos e continuaremos a atuar na defesa de milhares de compositores, intérpretes e músicos aos quais representamos. E é justamente o respeito e apoio da classe artística que nos dão forças para cada vez mais vencer resistências de grupos que buscam desacreditar o trabalho da instituição e desrespeitam a propriedade intelectual. Refletem esse apoio a participação gratuita de artistas como Fagner, Sérgio Reis, Alcione, Dudu Nobre, Tato, João Roberto Kelly, Martinho da Vila, Durval Lelys, na campanha "Vozes em defesa do direito autoral", que tem como objetivo a valorização do talento dos criadores musicais reconhecido através do pagamento dos direitos autorais.

Agradecemos seu contato, colocando-nos à disposição para eventuais esclarecimentos.

Atenciosamente,
Marketing Ecad.


Percebam que "Marketing ECAD" agradece o contato (apesar de eu não ter feito nenhum) e simpaticamente se coloca à disposição para maiores esclarecimentos. Infelizmente, eu não respondi na época oportuna o e-mail, e não o farei agora, quase 7 meses depois. Porém, fica o registro pra quem acompanhou a discussão e o endereço pra quem quiser estender o papo.

Eu estava pra colocar isso aqui faz um tempão e toda vez que ia postar não lembrava.

Bom, dívida paga, bola pra frente!