sábado, 3 de maio de 2008

resenha >> CHAKAL - Deadland

CHAKAL - Deadland
(Cogumelo Records, 2002)



Se alguém achava que depois da revolução detonada pelo Sepultura no cenário da música pesada mundial, não havia mais caldo metálico em Minas Gerais, eis que da terra do Clube da Esquina surgiu em 2002 um tremendo cala-boca, confirmando a tradição brasileira de ótimas e revolucionárias bandas de metal.

Falo do ótimo disco Deadland, do Chakal, que, a seis anos do lançamento, já pode ser considerado um clássico.

A faixa título, que abre o CD, já começa com o prenúncio do que vem a seguir: nada de saídas fáceis, nada de apelo a clichês do thrash ou death metal, nada de ortodoxias e tradicionalismos que cerceam a criatividade. Deadland começa - ótima surpresa - com batidas tribais, uma guitarra quase limpa e um vocal que à primeira audição me lembrou vocais de reggae, acompanhados de transmissões radiofônicas e vocalizações ao fundo. Entra uma guitarra pesadíssima e vocais rasgados e desesperados, mesclados com outros quase sussurrantes. Há uma curta seqüência de ruídos, como numa introdução de CD, que explode num thrash-core daqueles que dá vontade de partir pra roda só de escutar, descambando numa seqüência quase nu-metal, mas rápida e empolgante. Introdução perfeita para o CD.

Entra a segunda, Amputation Prayer, que se inicia com um clima semelhante ao fim da música anterior - eu adoro essas "progressivices"! Os vocais são desesperados, temperados por um ótimo baixo. A música é completamente imprevisível - mesmo - e, numa classificação preguiçosa, poderia ser rotulada como nu-metal, mesmo sendo nada parecida com os clichês do gênero. As guitarras, dobradas, têm um peso impressionante. Perfeita para ouvir com fone de ouvido. As quebradas de tempo dão um clima caótico à música. Até som de vinil rola na parada.

Communication Room, com seus 57 segundos, é recheada de barulhos como que de rádios sintonizando. Parece uma inacreditável mistura de Obituary com Marcelo Birck.

A quarta música é Call of the Undead, a mais acessível do CD e candidata imediata a hino underground. Tem um riff matador, que gruda logo de cara e não sai fácil da cabeça, com climas hardcore, um ótimo solo, também bem diferente do usual, caídas de baixo-bateria - baixo muito bem tocado, por sinal - e guitarras psicodélicas.

Lazarus Waltz começa com um clima tribal e um excelente solo de guitarra, meio hendrix-setentista, até descambar numa passagem cadenciada e pesadíssima. Dessa vez o guitarrista é quem mostra a que veio.

Liar (Safe Place) é a balada - se é que pode-se chamar assim - do disco. Nela, a banda mostra toda a sua qualidade. Vejam bem, quando digo qualidade, não é a "qualidade" técnica de guitarristas que excretam - não há outro termo - escalas ininteligíveis à velocidade de zilhões de notas por segundo e nem de bateristas numa bizarra competição do bumbo duplo mais rápido, num inócuo show de exibicionismo, que deixa em êxtase platéias de descerebrados. Nada disso. O Chakal mostra uma incrível união de técnica - que fica a serviço da canção, e nunca o contrário - e - esta sim, é a principal - criatividade. Liar tem passagens que evocam até o rock nacional dos anos 80. Quem ler o que escrevo pode ficar com a falsa noção de uma "salada" sonora. Novamente, nada disso. Todos estes ingredientes - se é que estes foram assim percebidos pela banda - são perfeitamente combinados, sem qualquer tipo de excesso, levando o metal a novos patamares. Tem-se a impressão de que o disco foi concebido com uma radical idéia de não adesão a qualquer rótulo, o que é ótimo, ainda que muitos não gostem e prefiram o metal como em gôndolas de lojas de disco, separadas bonitinho, estilo por estilo, rótulo por rótulo.

A penúltima faixa, Flying to the Empty, mais uma vez, mostra a qualidade instrumental da banda, aliada à criatividade que permeia todo o CD. Não há qualquer preocupação com velocidade, peso ou agressividade. É fácil perceber que estes vêm naturalmente, nada é forçado. Destaque para a bateria, bastante quebrada e muito bem tocada.

Fade Out - nome bastante adequado - , fecha o CD de modo perfeito.

Quanto à produção, o único senão do disco vai para a ausência das letras no encarte. A sonoridade e a estrutura das músicas sugere um conceito, mas, sem as letras, nada posso afirmar. Outro destaque vai para a ótima qualidade de gravação. Infelizmente, o disco não teve uma grande repercussão entre o público. Atribuo isso ao estéril radicalismo e apego reacionário a tradicionalismos que, infelizmente, são comuns entre os fãs de metal. O Chakal paga o preço do pioneirismo.

Em resumo, Deadland é contra-indicado para os reacionários do metal, aqueles adeptos do tradicionalismo, da linha dura, daquilo que chamo de TFP underground. Agora, para quem quer ouvir um CD de uma banda BRASILEIRA que aponta novas e interessantíssimas direções em um estilo tão saturado como o metal, é prato cheio. Deadland mostra uma banda madura, sem excessos, mas com fôlego e criatividade de iniciante. Nota dez é pouco.

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