sábado, 30 de agosto de 2008

O fascismo apresenta suas armas

Este assunto, que também diz respeito a você, já que está lendo estas palavras, deveria estar sendo muito, mas muito mais debatido. Contudo, passa em brancas nuvens.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

eternidades da semana >> 23 a 29/08/2008

Mais uma vez, comentários e impressões imediatas a respeito dos discos ouvidos pela primeira vez esta semana.

VIRGULÓIDES - As Aventuras dos Virgulóides
(BMG, 2000)

Toda vez que ouço alguém falar que um artista adquiriu maturidade já fico com a pulga atrás da orelha e imagino uma das opções: (1) o fulano deve ter lançado um disco quadradinho, metido a cabeça e bom pra tocar em barzinho; (2) regravou chatíssimas figuras carimbadas da MPB; (3) está "revisitando" a bossa-nova com batidas eletrônicas e apresentando-a às novas gerações; (4) tudo isso junto...

Porém "maturidade" foi a palavra que me veio à cabeça pra definir o terceiro disco dos Virgulóides. E também ainda não será desta vez que os detratores vão gostar da banda: todos os defeitos ainda estão lá. Bem, quase todos. O vocalista canta a maioria das músicas com uma voz bem melhor do que o esganiço irritante que marcou os dois primeiros discos da banda. Não que eu não goste dos outros dois, gosto bastante até. Mas o vocal sempre foi o ponto fraco da banda. Seguido de perto pelas letras ridículas.

Estas, por sinal, estão melhores, ainda engraçadas (ou metidas a), mas mais contidas e certeiras. Esta mudança já se anunciava no disco anterior, em pérolas como A Tereza Quebrou. As letras continuam bem humoradas, falando sobre maconha, bebedeiras e baladas, porém mais contidas e menos pueris. Melhores, de um modo geral.

O som deixou a indefinição entre pagode e hardcore do segundo disco e apostou de vez no samba-rock. Aposta ganha: o som do Virgulóides neste disco é menos esquizofrênico (o que não é necessariamente bom) e mais bem resolvido (o que é necessariamente bom!). A banda está afiadíssima, com direito a um brasileirinho do capeta no fim de Sou Maloqueiro, E Daí?. O disco tem até mesmo uma balada, Loucura Boa, cuja letra traz um achado: "eu sei que eu não sou normal / e é exatamente isso que eu acho legal". Muito bom!

Com este disco, os Virgulóides pegaram uma ascendente, pena que foi o último.



SYSTEM OF A DOWN - Mesmerize
SYSTEM OF A DOWN - Hypnotize
(Sony, 2005)

Mesmerize e Hypnotize, discos lançados no mesmo ano, na verdade, seriam um disco só, duplo, mas que por questões comerciais acabou sendo lançado em dois discos simples, em um intervalo de aproximadamente 6 meses. O grande problema de se descrever estes discos é descobrir qual é o melhor.

No geral, é o mesmo System of a Down de sempre, o que é ótimo. Porém, algumas mudanças logo se fazem notar, como a atuação do guitarrista Daron Malakian dividindo os vocais com o cantor oficial Serj Tankian. As duas vozes fazem um contraponto bastante interessante em várias músicas, ainda que seja estranho ouvir SOAD com outra voz.

O som está mais melodioso que os anteriores (principalmente o Mesmerize), mas mantendo - e até ampliando - a mistura rítmica que é marca registrada da banda. A pancadaria também ainda está lá, intacta. As famosas misturas com música armênia também se fazem presentes. Destaques para B.Y.O.B., Violent Pornography, Cigaro, Attack, Soldier Side, Kill Rock n' Roll e Stealing Society.

Pra quem gosta da banda, é só alegria. Quem não gosta vai continuar não gostando. Quem não conhece, não sabe o que está perdendo: rock n' roll vigoroso, um pouquinho de metal (mas nada que assuste os não iniciados), excelentes melodias, ótimos músicos e vocalistas. Sofisticado sem ser cabeça e pop sem ser descartável, coisa que pouquíssimos conseguem. SOAD é uma banda extremamente criativa e inovadora, que inventou o próprio estilo. Estes dois discos apenas confirmam e ampliam esse status. Mesmerize/Hypnotize é System of a Down melhor do que nunca!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Fé na urna eletrônica

Quem me conhece - e vem alguém aqui que não me conhece? - sabe que sou desenvolvedor de software nas horas não vagas. Pois numa destas horas descobri um interessante texto a respeito das nossas incensadas urnas eletrônicas, contendo uma esclarecedora entrevista com um especialista em segurança da informação e alguns links para aprofundamento.

A conclusão é simples: estamos colocando fé demais em uma tecnologia obscura e fechada (li em algum lugar que só agora, para as eleiçoes de 2008 as urnas utilizarão Linux; o artigo que linkei, porém, fala em WindowsCE), e, nos moldes atuais, de difícil auditoria e pouquíssima transparência. Nota para os não iniciados: o sistema operacional Linux possui o código-fonte aberto, o que facilita auditorias e verificações. O VirtuOS, sistema utilizado até agora, é uma caixa-preta inauditável; o WindowsCE, caso seja utilizado, também. Além do problema tecnológico, os órgãos responsáveis pelas eleições não têm colaborado no que tange à verificabilidade do processo.

É necessário dar o máximo de transparência ao processo, para que a democracia representativa não se torne algo ainda pior do que já é, e com isso eliminando para sempre a já ínfima possibilidade de mudança real pela via institucional.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

resenha >> MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia

MUNDO LIVRE S/A - Guentando a Ôia
(Excelente Discos, 1996)



O mundo livre s/a - se alguém ainda não sabe de quem se trata - é, junto com Chico Science & Nação Zumbi, o maior expoente do movimento Manguebit - ou manguebeat, como o movimento acabou ficando conhecido.

Depois do aclamado début Samba Esquema Noise, o mundo livre s/a surpreende e lança seu disco mais roqueiro, quase punk. Nada dos climas eletrônicos de Carnaval na Obra e Por Pouco, os dois discos imediatamente posteriores. Os pandeiros pouco dão o ar da graça. Em compensação, guitarras, guitarras e mais guitarras.

O discurso - esse, uma constante nos discos da banda - afiadíssimo e inspirado, o Zero Quatro de sempre pondo o dedo na ferida de modo lírico e inteligente.

Guentando a Ôia saiu pela Excelente Discos, gravadora do Carlos Eduardo Miranda na época. Apesar de hoje em dia ser jurado do Ídolos, ele produziu muito do que houve de melhor e mais original na música brasileira dos anos 90: mundo livre s/a, Graforréia Xilarmônica, Raimundos, Virgulóides etc.

Vamos ao disco, que abre com Free World, iniciando com um breve mas belo dueto do cavaquinho de Zero Quatro e da guitarra de Bactéria Maresia - sim, este é o nome artístico do tecladista/guitarrista -, para cair num clima Jorge Ben - ídolo de Zero Quatro - dos velhos e bons tempos. Destaque para a sensacional cozinha de Fábio Malandragem (baixo) e Tony Regalia (bateria).

Segue Destruindo a Camada de Ozônio, com participação de Chico Science dividindo os vocais com Zero Quatro. Creio que um dos únicos registros oficiais dos dois cantando juntos. Originalíssima linha de guitarra de Zero Quatro acompanhada pelos teclados de Bactéria, e uma tímida participação de Otto Fuleiragem nas percussões. Participação tímida, aliás, em todo o disco, tanto nas composições quanto na participação nas músicas, o que provavelmente já era sinal do desgaste de Otto no grupo. Depois deste disco ele saiu da banda, abandonou o "Fuleiragem" do nome artístico, lançou o original e elogiadíssimo Samba Pra Burro e o resto é história.

O pau come em Computadores Fazem Arte, música de Zero Quatro que havia sido gravada por Chico Science & Nação Zumbi dois anos antes, em seu disco de estréia, Da Lama ao Caos. É grande o contraste da versão lenta e suingada do CSNZ com a levada quase hardcore do mundo livre s/a.

Em Desafiando Roma, Zero Quatro saúda o Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, à época praticamente desconhecido no Brasil. O EZLN é uma organização de resistência dos indígenas do estado de Chiapas, no México, contra o governo nacional. É uma canção belíssima, uma das melhores do disco, tem uma delicada cama de teclados (Bactéria) sobre a criativa guitarra de Zero Quatro. "Essa parte do texto eu ainda estou maquinando/Tem de ser direto e epidêmico/Não esquecerei de mencionar os banqueiros americanos/César há de tremer/Viva México!", diz a letra, incorporando Marcos em um de seus manifestos publicados através da Internet.

O cavaquinho volta à cena, e muito bem trabalhado, em A Música que os Loucos Ouvem (Chupando Balas), uma balada em que a ironia de Zero Quatro chega às raias do punk: "Essa não é a música que os arcebispos ouvem quando estão fornicando/Essa não é a música que os jornalistas ouvem quando estão mentindo". Destaque para o minimalismo e a perfeita integração cavaco/baixo/bateria.

Em Tentando Entender as Mulheres volta o clima Jorge Ben e entra em cena a veia machista pero bem humorada: "Todo homem deveria ter um carro/Ou senão nem precisava ter testículos/De que serve um testículo sem carro?/Sem o carro o testículo é um saco". Engraçadíssima e boa faixa.

Rock 'n' roll puro e guitarras a dar com o pau em Girando em Torno do Sol, que descamba num clima meio psicodélico, cheio de teclados. A faixa termina com a não creditada música incidental Celular de Naná, de Otto, um pagode tocado como que num bar entre copos de cerveja, tambores e cavaquinho. Essa música viria a ser registrada no CD de estréia de Otto, Samba Pra Burro.

A melhor e a mais experimental música do disco é Seu Suor é o Melhor de Você. Se você conhece a música sabe do que estou falando. Se não conhece, tente imaginar: uma guitarra distorcida, cavaquinho e bateria de samba-reggae, um surdo na marcação e surtos hardcore no refrão. Apesar de toda essa salada, a música tem um ritmo irresistível. Fora a letra escatológica: "Você tá cheia da vida/Logo logo vai menstruar/Guarde um pouco pra mim/Você quer foder com o mundo/Basta abrir as pernas/Deixe o resto pra mim". Um dos pontos altos da música brasileira dos 90.

Em Militando na Contra-Informação, a banda inova mais uma vez. Zero Quatro simplesmente repete a conversa do ex-Ministro da Fazenda Rubens Ricupero - aquele do "O que é bom a gente fatura, o que é ruim esconde", lembram? - com o repórter da Rede Globo Carlos Monforte. A conversa foi inadvertidamente transmitida e muitas pessoas conseguiram assistir de suas casas através das antenas parabólicas. Entre outras pérolas, o ministro dizia que fazia campanha para Fernando Henrique Cardoso simplesmente falando bem do Plano Real, que ele era o melhor cabo eleitoral de FHC e ninguém poderia falar nada. E que isso, para a Rede Globo, teria sido "um achado", pois não precisaria dar um "apoio ostensivo" como fez na campanha do Collor. Era só por o ministro no ar elogiando o Real e ninguém poderia falar nada. Seria uma "solução indireta". Ponto para o mundo livre s/a.

Segue Leonor, uma belíssima canção de voz e cavaquinho. As limitações vocais de Zero Quatro ficam em total evidência. Contudo, é exatamente esta sinceridade extrema que dá vida à canção. Diz-se que Carlos Eduardo Miranda, o produtor do disco, teria acordado Zero Quatro no meio da madrugada para gravar a música, já no apagar das luzes das gravações. A impressão é que a música foi gravada em um só take, ou quase. Mais punk impossível, mesmo que só com voz e cavaco.

Hardcore e vocais semi-guturais. Em Roendo os Restos de Ronald Reagan o mundo livre s/a abre a caixa de ferramentas contra o ex-presidente dos Estados Unidos, misturando-o com a lenda recifense da Perna Cabeluda. Só faltou fechar um pouco mais as distorções das guitarras.

Zero Quatro encarna Jorge Ben - é inconfundível a influência, tanto nos vocais quanto em melodias e arranjos - em Pastilhas Coloridas, uma alusão diretíssima às experiências químicas do pessoal da "Ilha Grande". "Quando a erva faltava/Qualquer droga era boa", diz a letra.

A faixa-título fecha o CD, com outro belo experimentalismo rock 'n' roll, alusões ao "Pastor (Roberto?) Marinho", cujo rebanho "goza sofrendo".

Guentando a Ôia, subestimadíssimo disco do mundo livre s/a, é o mais roqueiro e, até certo ponto, mais direto da banda. É dificílimo enquadrar uma banda tão própria como o mundo livre em qualificações. Mesmo para os heterogêneos padrões do manguebit, é um disco bastante atípico. Só ouvindo pra crer. Vale muito a pena, é um - se me perdoam o trocadilho - excelente disco!

domingo, 24 de agosto de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

faça seu ouvido feliz >> wado

A MPB já não é mais aquela. O que é ótimo! Nos anos 00, ela vem se reinventando e trazendo novos artistas que já não mais se dobram em vassalagem às vacas sagradas de sempre, oxigenando e removendo o ar de naftalina da MPB tradicional. Zeca Baleiro e Lenine são talvez os exemplos mais mainstream desta tendência. Comendo pelas beiradas e longe dos holofotes e da MTV vem o alagoano - de coração - Wado.

Conheci o som do cara baixando o disco mais recente, Terceiro Mundo Festivo. O disco é simplesmente excelente. Ótimas melodias, daquelas que grudam, mas sem ser descartáveis. Som minimalista e bem sacado. Letras muito boas. No início achei a voz dele bem estranha - na verdade, é mesmo estranha! - mas depois de algumas músicas eu já estava cantando junto e emulando a voz do cara sem perceber. Não vou me estender tecendo merecidos elogios ao disco: já fizeram isto. Ainda não ouvi os discos anteriores, mas estão com alta prioridade na agenda.

Além de ótimo compositor, o sujeito é antenado com os novos tempos. Seus quatro discos estão disponíveis para download no site oficial. Faça seu ouvido feliz e passa lá. E se os três primeiros têm o mesmo nível do quarto, então, é passagem obrigatória.

domingo, 17 de agosto de 2008

eu fui >> Mukeka di Rato em Macaé (16/08/2008)

Conforme anunciado outro dia aqui no blog, neste sábado fui ao show do Mukeka di Rato em Macaé. No mesmo dia se apresentaram as bandas Residüs (daqui de Campos), Cervical e Protesto Suburbano, ambas de Macaé.

Além de mim, saíram na mesma comitiva os loucos André Zamana, Gustavo "Star Wars", Thiago Kerzer e Érica (noiva do Thiago), arrastada à insanidade por este. Ao chegarmos lá, pouco antes das 19 horas, não havia quase ninguém. Gustavo ficou por lá e saímos os restantes para procurar algum lugar pra comer. Na volta, descobrimos que perdemos o show do Residüs. Mas a esfiha e o kibe estavam ótimos! E provavelmente estávamos ouvindo Bonde do Rolê na hora do show. Nota zero para nós, pois relatos no local - Gustavo - disseram que foi um dos melhores shows da banda.

A seguir, foi a vez do Cervical, do camarada Pascoal. Eu já havia assistido a um show dos caras em Campos e a coisa é realmente destruidora. Um hardcore fodido e muito bem executado. Até entrei na roda, e havia milênios que eu não fazia isso. A grande diferença deste para o show que vi em Campos foram as músicas cantadas em uníssono pela galera. Na empolgação com o show, até esqueci de tirar fotos. Thompson ficaria orgulhoso de meu desempenho como jornalista na cobertura de Residüs e Cervical. Posso dizer apenas que a roda estava do caralho e a banda com excelente presença de palco. Já que não teve foto da banda, pelo menos tirei uma da Água Mineral Cervical, que rolou - na verdade, foi inventada - por lá.

Da metade pra frente decidi abrir mão do purismo gonzo e pelo menos tirar umas fotos dos shows. Era a vez do Protesto Suburbano. A banda já é velha conhecida e fez mais um ótimo show. Assim, como aconteceu com o Cervical, todas as músicas foram berradas em coro pela galera. O ponto alto foi a clássica S.O.S. Praia do Pecado, que me fez entrar na roda e tomar um belo soco - com desculpas prontamente pedidas, como de praxe. E desta vez teve foto!

A última banda a se apresentar foi o Mukeka di Rato. Quem esperava que, agora, com gravadora famosa e tudo mais os caras fossem ficar menos toscos, se enganou. É, ainda bem, o mesmo Mukeka de sempre. Pancadaria desenfreada e uma quantidade tão grande de pessoas em frente ao palco que a roda se tornou uma massa compacta de pessoas deslizando de um lado para outro. Deslizando, porque o chão estava completamente molhado por milhões de cervejas derrubadas no meio da roda. Como eu sou um mukekeiro old school e só conheço os dois primeiros discos, boa parte das músicas eram desconhecidas para mim, mas isto não fez a menor diferença! A atuação do público foi um show à parte (as músicas Mickey e Burzum Marley, por exemplo, foram estupradas por fãs afoitos que subiram para cantar, esta última pelo George, vocal do Residüs). Volta e meia o vocalista Sandro se jogava do palco no meio da galera: numa dessas consegui cantar um pedaço do refrão de Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra. As músicas? Bom, além das já citadas, pude reconhecer Cobra Criada, Heróis da Nação Falida, Quer ir? Vai!, Homem Borracha, Praia da Bosta e outras que não vou me lembrar. Só clássico! Enfim, não foi o melhor show que eu assisti na vida (esse privilégio ainda é dividido entre o Imago Mortis em 1999 e o Sheik Tosado no Rock In Rio 3 [e o El Efecto em Macaé, 2005]), mas Mukeka di Rato é diversão garantida, sendo com certeza um dos melhores shows de hardcore pra se ver no Brasil.

[aviso: Fui editar o post para mexer na foto da água mineral, fiz merda e acabei apagando-o e tive que recuperar uma versão do meu HD. Então, se há alguma coisa diferente nesta versão em relação à anterior, não é o blogspot que ficou maluco.]

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

eternidades da semana >> 09/08/2008 a 15/08/2008

Abrindo mais uma seção no blog, eternidades da semana trará semanalmente (duh!) os discos que eu ouvi pela primeira vez durante a semana, acompanhados de mini-resenha. Só entram discos que eu nunca havia escutado antes, mesmo que sejam mais velhos que Elvis.

Aqui aparecerá música de todo tipo, de gospel a metal extremo, passando por MPB, samba e qualquer outra coisa sonora que passar diante de mim.

Quanto a letras, normalmente só farei comentários a respeito das que forem em português.

Nesta semana, os discos novos que passaram por estes calejados ouvidos foram:

I WRESTLED A BEAR ONCE - I Wrestled a Bear Once
(Independente, 2007)

Indicação de Herr Kerzer, IWABO é uma banda de loucos varridos. Imagine um deathgrind ultraviolento e bastante técnico cantado(!?) com direito a alternância entre guturais e rasgados. Imagine que esses vocais são emitidos por uma mulher, com voz suficiente pra envergonhar muito marmanjo por aí (ainda que provavelmente ela utilize algum complemento eletrônico). Imagine que o som feito pela banda é completamente quebrado, com alterações de tempos e mudanças o tempo inteiro. Imagine, ainda, que um dos membros da banda é um tecladista e DJ e as músicas do grupo têm inúmeras intervenções de instrumentos eletrônicos com passagens dançantes. Imagine que, além disto tudo, há trechos onde a vocalista canta com voz limpa, fazendo a banda soar como um Evanescence experimental. Por fim, ponha nessa banda o esdrúxulo nome de I Wrestled a Bear Once e você terá como resultado o viciante disco aqui comentado.

Mesmo ouvindo de tudo - tudo mesmo! -, não canso de me surpreender (felizmente de modo positivo na maioria das vezes) com essas bandas malucas que volta e meia me aparecem. IWABO, desde já, entrou para o seleto grupo das bandas preferidas.

Veja um clip da banda:



DISKREET - Infernal Rise
(Siege of Amida/Candlelight, 2007)

Normalmente, descarto de cara bandas ou discos com bobagens relativas a demônios, satãs, infernos e coisas do tipo. Porém, atraído pelo estranho nome da banda, acabei arriscando uma audição e Diskreet acabou se revelando uma boa surpresa. Os estadunidenses fazem um death/grind não muito original, seguindo todos os cânones do estilo, mas bastante competente. Destaque para Infernal Throne - apesar do título bobo - e The Bigger Complex. Infernal Rise é o único trabalho da banda até o momento e uma boa pedida para os fãs do chamado "technical death/grind". Pancadaria das grossas.


LYE BY MISTAKE - Arrangements for Fulminating Vective
(Lambgoat, 2006)

Um dos melhores e mais inovadores discos ouvidos nos últimos tempos. Basicamente, é uma banda de mathcore com fortes influências de grindcore e jazz, levada a cabo por um quarteto de virtuoses. O disco é simplesmente excelente, porém não possuo condições de descrevê-lo de modo adequado, tamanha a quantidade de elementos e a complexidade das músicas. Definitivamente, não é música ambiente. Vale a pena MESMO. Forte candidato, desde já, a melhor eternidade da semana de 2008.

Os caras tocando ao vivo a música mais legal do disco, Nero's Intention:



BONDE DO ROLÊ - With Lasers
(Domino, 2007)

Logo de cara um aviso: Bonde do Rolê é uma "banda" de funk. Nada de James Brown, estou falando de funk carioca, pancadão, mas uma banda curitibana formada por brancos de classe média. Isto faz toda a diferença (não necessariamente pra melhor!), ou seja, não é funk "de raiz", mas um pastiche que junta o escracho grosseiro e a batida do funk com samplers improváveis de guitarras distorcidas e um grande número de eletroniquices alheias ao funk mais tradicional.

Além de um DJ, a banda é formada por dois vocalistas, um homem e uma mulher. Ela se dá bem, pois canta(?!) à moda das funkeiras de Dança da Motinha e afins. O vocal dele é uma merda sem muito destaque, mas quem se importa? As músicas versam sobre temas tais como a relevância sexual do ânus, a sexualidade de James Bond e as desventuras sexuais de uma cachorra (a vocalista, no caso), tudo narrado nas mais escatológicas minúncias.

Por incrível que pareça, a banda tem feito muito sucesso no exterior. Caso algum leitor se interesse por correr atrás da coisa, prepare o coração pois a baixaria é extrema. Se você se leva a sério, passe longe. Só escute se tiver - muito! - senso de humor.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ainda Raul Seixas

Algumas pessoas que leram o post sobre Raul Seixas perguntaram se eu nunca havia escutado Tente Outra Vez, Medo da Chuva, A Maçã e outras, que não têm nada do rock 'n roll de que eu falei no post. Pensando mais um pouco, deduzi que, realmente, uma grande quantidade de sucessos do sujeito são baladinhas.

Comecei a pensar se essa associação do sujeito com a imagem de roqueiro tradicionalzão não seria apenas uma maluquice minha e fui pesquisar na Internet. Eis que encontrei um texto do Lobão afirmando a mesma coisa:
O Raul não era esse eterno roqueiro, ele era um músico popular brasileiro. O rock é um artifício para ele ser um artista, para poder elaborar e pensar em outras possibilidades. Existe uma endeusamento equivocado em amá-lo pelo que ele não é. Colocam o trabalho do Raul como uma coisa do ponto de vista muito simplista, como se ele fosse um heróis de história em quadrinhos. Ele era mais que isso, viveu uma série de coisas muito mais intensas e mais diversificadas do que a imagem póstuma que ficou cristalizada.

Assim fico mais tranquilo, não estou - tão - maluco.

sábado, 9 de agosto de 2008

Raul Balada Seixas

Como bom fã de coisas-que-quase-ninguém-conhece como Graforréia Xilarmônica, Japanische Kampfhörspiele, Mula Manca, Behold... the Arctopus e El Efecto, costumo torcer o nariz para medalhões. Como um exemplo disto, só fui parar pra ouvir Los Hermanos de verdade em 2007, quando todo mundo e mais mil já sabiam de cor todas as músicas.

Assim, eu nunca havia ouvido Raul Seixas com atenção. Aproveitando que o clássico eterno Thiago Kerzer tem todos os discos, livros e badulaques afins do Raulzito, resolvi dar uma chance ao "pai do rock brasileiro", segundo o seu verbete no Wikipedia. Nunca me interessei muito por me evocar a imagem estereotipada do roqueiro tradicional, ortodoxo. E ortodoxo, no meu dicionário pessoal, significa "chato pra caralho". Definitivamente, essa coisa de Raul "Rock" Seixas nunca me atraiu. Gosto muito de rock, mas nada de ortodoxia. Porém, o cara é um clássico, não conhecê-lo decentemente é uma lacuna imperdoável e tal. Desse modo, resolvi essa semana saldar esta pequena dívida comigo mesmo e simplesmente colocar o baiano pra cantar. E não é que o bagulho é do bom? Do bom e bem diferente do que eu imaginava.

Primeiro, um monte de baladas. Muitas, inúmeras, sem fim. Começa a rachar a caricatura - que eu mesmo fiz sem conhecer - do tal Raul Rock Seixas (assim era como eu sempre pensava no sujeito). Depois, um bom número de intervenções de música nordestina, e isso bem antes do manguebit. Como foi uma maratona - acho que ouvi uns 15 discos em menos de uma semana - não me lembro de detalhes da maioria das músicas nem qual faixa é de qual disco. Se por um lado o viés "esotérico" algumas - muitas? - letras e algumas bobagens como Rock das Aranha me aborreceram um pouco, por outro há verdadeiros achados como Sapato 36 e Ouro de Tolo (esta eu já conhecia, também não sou tão desconhecedor-de-tudo-que-é-conhecido assim, mas não lembrava como era boa a letra). Outra coisa interessante foi ouvir novamente, coisa pouca de mais de 20 anos depois, Carimbador Maluco e sacar que há mais sentido do que supunha a minha infantil filosofia. Fãs do Raulzito normalmente são saudosistas e lembrei bastante deles ao ouvir A Verdade sobre a Nostalgia.

As melodias em geral são bem legais e, apesar de não ter uma boa voz, o sujeito é estiloso e carismático de sobra, tornando interessantes até mesmo músicas não tão boas.

Isto aqui não tem intenção de ser uma resenha, e eu nem ouvi com este sentido (e nem seria possível dada a quantidade de coisas, a maioria eu ainda nem assimilei). A idéia é apenas compartilhar impressões imediatas e relatar como os estereótipos escondem a verdade sobre as coisas. Por trás da imagem de roqueiro, "diabo é o pai do rock" e coisas assim se esconde um artista inquieto, multifacetado e, por vezes, genial. Um baladeiro que se dá bem até mesmo quando inventa uns forrozinhos. Pai do rock? Pffff...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Uma desmesurada predileção por terno-e-gravata

Enquanto ficamos no momento com apenas três candidatos a prefeito em Campos mas ninguém acredita que isto vá durar, fico pensando: como é que a imensa maioria das condenações de políticos e outros naipes de colarinho branco por juizados de primeira instância são tão fácil e repetidamente derrubados em instâncias superiores?

Das duas uma: ou os juízes de primeira instância são uns ineptos que não conhecem nada de direito (o que não acredito, a despeito da opinião do Excelentíssimo Senhor Doutor Gilmar Mendes), ou os juízes de altas cortes têm uma desmesurada predileção por senhores de colarinho branco.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

utilidade pública >> HARDCORE SOLIDÁRIO: Mukeka di Rato, Protesto Suburbano, Cervical e Residuus

Como no post com a resenha do Gaiola eu coloquei a data errada do show - já devidamente corrigida -, vou fazer a coisa direito e mandar o recado por aqui.

Defasagem a milhão


Olha quanta coisa tem saído por aí e eu ainda não ouvi:

  • Ed Motta, Chapter 9

  • Marcelo Birck, Timbres Não Mentem Jamais

  • Flores do Clube da Esquina

  • Beck, Modern Guilt

  • Japanische Kampfhörspiele/Are You God?, Split

  • Rogério Skylab, Skylab VIII

  • Misery Index, Traitors

  • Wander Wildner, La Canción Inesperada

  • Pato Fu, Daqui Pro Futuro

  • Manu Chao, La Radiolina

  • Desgraçados do Ritmo, Carnaval 2008

  • The Medina Brothers Orteskra, B.Cab



Isso sem falar em um monte de outros lançamentos cujo artista/banda não conheço mas parecem bem recomendados ou têm títulos interessantes. E nessa lista aí em cima tem coisa até do ano passado mas que eu ainda estou me devendo. Assim que for degustando, vou postando as impressões aqui.

É, acho que ando trabalhando demais...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

resenha >> MUKEKA DI RATO - Gaiola

MUKEKA DI RATO - Gaiola
(Läjä Rëkord's, 1999)



Esquentando os tamborins - ou seriam guitarras? - para o show do Mukeka di Rato no próximo dia 916 de agosto em Macaé, vou repostando uma resenha escrita há algum tempo sobre este excelente disco.

Se para você hardcore é aquele som que o CPM 22 e o Detonautas tocam, este CD, definitivamente, lhe é totalmente contra-indicado. Gaiola, segundo disco da banda Mukeka di Rato, são 16 faixas de pancadaria das boas, espremidas em pouco mais de 21 minutos de hardcore ensandecido, com muitos momentos que beiram o grindcore. Tive a oportunidade de assistir a um show da banda na turnê deste CD. É simplesmente destruidor.

Há uma notável evolução desde o álbum de estréia Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra, tanto lírica quanto sonora, principalmente esta última. O som deixou de ser um hardcore limpinho, pesadinho e rapidinho pra se tornar uma massa sonora de extrema violência, chegando a ser ininteligível em alguns poucos pontos. A produção mais tosca, proposital ou não, contribuiu para a elevação da sujeira e agressividade do som do Mukeka a níveis estratosféricos. Não fosse o vocal limpo estaríamos diante de um dos discos mais violentos já gravados no Brasil.

O disco já abre com uma pancada de respeito, Mickey. A letra, muito bem sacada e com a concisão característica do punk, o vocalista Sandro vocifera "Mickey não brinca criança doente/Ele tem medo se contaminar/Mickey só brinca meninos bonitos/Tenham dinheiro para lhe pagar". É difícil descrever, sem cair em repetições, o peso e a agressividade que tem essa e muitas músicas do CD. Insano seria uma palavra bem adequada.

Vitória Poluída, com participação de Stéfano Bebê - que viria posteriormente a ser vocalista do Mukeka - nos vocais, é puro grindcore, trazendo um "belíssimo" dueto dos vocais guturais de Bebê e os vocais gritados de Sandro. O mesmo tipo de crítica ecológica pode ser vista na bem-humorada Praia da Bosta. Não tão pesada quanto a maioria das músicas do disco, diz ironicamente: "Vamos dar um passeio na praia/Pisar em merda e em água de vala/Comer um siri podre com conservante/Cheirinho de lixo de restaurante".

Mais um mérito de Gaiola é trazer músicas tratando de temas românticos sem cair em clichês ou melodramas. Em Nossos Filhos, a balada - se é que se pode chamar assim alguma música do Gaiola - do disco, mostra a projeção de um amor que poderia ter surgido de um encontro. Canta a ótima letra: "Nossos filhos seriam punks, straight edges, crusties, libertários/.../Na estante estariam os livros, Marx, Drummond, Monteiro Lobato/Se naquele dia em Brasília você tivesse me esperado". A turma do emocore tem muito a aprender. A outra música "romântica", Perda, chega a ser surreal, trazendo um lamento de um amor perdido sobre um arranjo absurdo de tão pesado.

As críticas sociais, bastante presentes no primeiro disco, também estão aqui, na Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra - sim, é o nome do primeiro CD, mas a música só existe no Gaiola. Pasqualin é um palhaço que vive em Vitória, cidade da banda, retratado nessa música - com ótima melodia e riffs bastante criativos - como mais um dos brasileiros que enfrentam a luta diária pela sobrevivência.

Não há em Gaiola qualquer sinal de virtuosismo, solos e outras coisas que embasbacam a tantos. Gaiola é pura e simplesmente punk, hardcore, grindcore, na sua mais pura e simples significação: rock rápido e pesado contra o sistema. E esse papel, o Mukeka di Rato cumpre com louvor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

faça seu ouvido feliz >> El Efecto


"Faça seu ouvido feliz" é uma série - que começa agora! - onde eu indicarei uma banda ou artista com trabalhos disponíveis para download.

Os primeiros da lista são os cariocas do El Efecto. Qualquer definição do som da banda seria limitá-la. Rock, samba, nu-metal, MPB, cavaquinho, guitarras distorcidas, trompete, flauta, vai de tudo na mistura sonora do El Efecto. Melodias bem sacadas, letras inteligentes, enfim, a boa e velha música brasileira em uma versão caótica a la século XXI. Assisti a um show dos caras em Macaé em 2005 e foi simplesmente um dos melhores shows que já vi. Até os headbangers com os quais eu saí em caravana de Campos pra lá se empolgaram com o show.

No site da banda, no link Museu da Imagem e do Som, tem os dois discos lançados por eles, Como Qualquer Outra Coisa (2004) e Cidade das Almas Adormecidas (2007).