terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Os misteriosos caminhos do ECAD

Não sei o que o ECAD faz além de espezinhar e tungar promotores de eventos independentes. Tudo pelo sagrado direito intelectual do autor, e quem sou eu para discordar? Porém me vieram à mente há pouco dois cenários nos quais não sei o que acontece com os reais arrecadados a título de "direitos".

O primeiro cenário é simples e possui um exemplo real e concreto: eu sou vocalista(?) em uma banda chamada Clássicos Eternos onde tocamos apenas músicas próprias. Digamos que seja um show exclusivamente desta banda, com todas as músicas de autoria dos membros da banda. Por que diabos deveríamos pagar qualquer coisa ao ECAD? E se pagarmos o dinheiro voltará a nós? De que jeito se não somos membros de associações, ordens ou qualquer organização desnecessária do tipo?

O segundo cenário é o de uma banda cujo repertório é composto exclusivamente por covers do Japanische Kampfhörspiele, uma banda alemã semi-obscura de deathgrind. Como o dinheiro pago irá parar nas mãos dos membros do Jaka (o singelo apelido da banda)? Aliás, se parar em qualquer outro lugar - o que é, de longe, o mais provável -, isto seria tão-somente roubo. Este segundo cenário pode ser ainda mais complicado, que é o caso do repertório não ser de apenas uma banda obscura, mas de 20 bandas obscuras, de lugares tão longínquos quanto País de Gales, Austrália, Egito, Polônia, Israel, Venezuela e África do Sul. E aí, o ECAD sai procurando esse povo para distribuir os direitos que lhes cabem?

Assim, entre criadores pagando direitos intelectuais a si próprios (seria mais simples tirar o dinheiro do bolso esquerdo e colocar no bolso direito na presença do fiscal do ECAD, não?) e direitos pagos a artistas que nunca receberão coisa alguma, fica um pouco complicado acreditar no ECAD.

domingo, 25 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> violins

Este ano tentarei escrever algo sobre todos os discos ouvidos e não apenas alguns como venho fazendo até agora. Os meus 2 ou 3 leitores percebem que venho tentando acertar um formato decente para esta coluna faz tempo, vamos ver se desta vez vai.

VIOLINS - Tribunal Surdo
(2007)



Deplorável. Se me pedirem uma única palavra para descrever este álbum, é exatamente esta. Tribunal Surdo expõe a imundície da alma humana sem nenhum tipo de disfarce ou metáfora. É direto, bruto, cru e violento. Um soco na boca do estômago, um chute no saco. Senão vejamos alguns trechos:

Delinquentes belos
se ninguém vir eu nunca peço perdão
se cada um é um assassino sem coração
esperando pra rir dentro de um camburão com sangue nas mãos

nós somos delinquentes belos em mundos possíveis
nós somos imperadores sérios em quartos de hospício
nós somos assassinos ébrios em frente aos seus filhos


O Anti-Herói (pt. 1)
tranque a porta que eu já ouvi barulho lá fora
pode ser que queiram roubar a minha moto nova
e queiram te violentar mas isso nem importa
é bem a cara desse mundo, você só deve olhar pela janela

e de repente eu pensei que puta morte bela se eu morrer
pra defender os bens que eu comprei a prazo e a prestação
e fingir que é teu meu coração, fingir morrer por nós
mas não, eu mato o ladrão e agora você me tem devoção
a mim, um lambedor de chão, que nem sei beber sem te meter a mão


Percebam que o narrador não é um observador da podridão: ele próprio faz parte da desgraceira, refletindo o que existe de toda esta merda dentro de cada um de nós. Mais um pouco:

Grupo de Extermínio de Aberrações
tá faltando soco inglês
o estoque de extintor não chega ao fim do mês
não tô pedindo aqui fortuna pra vocês
a gente quer limpar o mundo de uma vez

e eu garanto que seus filhos agradecem por crescer
sem ter que conviver com bichas e michês, pretos na TV,
discípulos de Che e putas com HIV


Esta última música chegou a ser alvo de denúncias de discriminação. Porém, é evidente a intenção da banda, principalmente quando se escuta o disco inteiro. Esta música, em particular, representa decerto boa parte dos sonhos inconfessáveis da classe média.

Interessante: a banda Terminal Guadalupe toca esta música em shows e substitui o segundo verso do trecho citado acima por "eu sou fiel ao papa bento xvi". Emblemático.

Missão de Paz na África
quando você me falou que ia se alistar
para lutar pelo bom eu tava tonto num bar
e eu não pensei que você já falava mesmo em lutar
você pensando em morrer e eu pensando em transar

seja bom se esse é o seu dom.

quando o navio partiu te levando pro mar
eu quis chorar de emoção
eu quis até te avisar que eu amei sua irmã no banco do meu passat
eu te desejo o melhor,
proteja o povo de lá e seja bom se esse é o seu dom


O Anti-Herói (parte 2)
e eu quero mais é te bater em paz
sem ouvir um choro, sem ouvir um 'Socorro'
(...)
e eu quero mais é te comer em paz
sem ouvir um gozo, sem ouvir um 'Socorro'


22
é que eu comprei uma 22 pra mim
e eu nem treinei, não sei como te acertei daqui
foi deus quem mirou por mim e eu sempre quis te ver assim
Você, besta, achou que eu sempre adorei te ver viva andando por aí

eu pensei em fugir levando o stilo mas me deparei com o cerco da polícia
então gritei "foi deus quem agir por mim"
ele sempre quis me usar assim
e vocês sabem bem que eu sempre adorei viver livre andando por aí


Ford
Desculpe o punhal.
É meu jeito de abordar



E tem mais do que isso. Quem ler estes trechos pode se lembrar da escatologia de um Rogério Skylab, mas na obra deste a selvageria vem em forma de escárnio, quase piada. No Tribunal Surdo não: é tudo sério, é tudo verdade, é o pequeno diabo que vive em cada mente. Ao terminar o disco, sente-se um gosto ruim na boca: isto é o ser humano. Não é apenas isto, mas também - e muitas vezes - é isto.

Em termos de som, é um disco sombrio, cheio de guitarras, ainda que a voz limpa e melodiosa de Beto Cupertino (também o autor das letras) destoe um pouco da sujeira geral. As melodias também são bastante interessantes.

Incrível como eu ainda não havia dado a devida atenção a esta banda, talvez pelos nomes de músicas esdrúxulos como Campeão Mundial de Bater Carteira, Vendedor de Rins e Padre Pedófilo (sim, um pré-julgamento tosco, mas fazer o quê?). Violins é uma das grandes bandas da nova geração da música brasileira.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> rogê

ROGÊ - Brasil em Brasa
(2008)



Este é um disco estranho. Rogê é um sambista/pagodeiro/MPBzeiro/reggaeiro e sabe-se-lá-mais-o-quê carioca e é difícil imaginar o que pode sair disto. A constante no disco é o clima de animação que está sempre presente (mesmo com a barra-pesada dos dois covers). O disco abre exatamente neste clima, com a faixa-título, um samba festejando o calor - figurado e literal - do Brasil. Depois vem Numa Cidade que inicia com uma narração: "Numa cidade muito longe daqui/Que tem favelas que parecem com as favelas daqui/Que tem problemas que parecem os problemas daqui...". Quando eu ouvi me pareceu já conhecer isto de algum lugar e depois me lembrei: das cenas finais do filme Tropa de Elite. Depois descobri também que foi gravada por Marcelo D2 e outros. Da letra se extraem ótimos momentos como:
"Porque tem homem mau
Que vira homem bom
Quando ele compra o remédio
Quando ele banca o feijão
Quando ele tira pra dar
Quando ele dá proteção

Porque tem homem da lei
Que vira homem mau
Quando ele vem pra tirar
Quando ele caga no pau
Quando ele vem pra salvar
E sai matando geral"


A letra é realmente muito boa e narra um encontro e um diálogo entre um policial corrupto e um traficante que caem baleados e são levados para a mesma ambulância. Vai um trecho, embalado por um pagode daquele das antigas, com direito a cuíca e tudo mais:
"(bandido) você levou tanto dinheiro meu e agora tá querendo me prender
(policia) eu te avisei, você não se escondeu, deu no que deu e a gente tá aqui pedindo a Deus pro corpo resistir
(ambos) será que ele tá a fim de ouvir?
(policia) você tem tanta pistola, bazuca, fuzil e granada, me diz pra que tu tem tanta munição
(bandido) é que além de vocês nós ainda enfrenta o outro comando, outra facção que só tem alemão sanguinário, um bando de otário marrento querendo mandar. Por isso que eu tô bolado assim
(policia) eu também tô bolado sim, é que o judiciário tá todo comprado, o legislativo tá financiado e o pobre operário que joga seu voto no lixo, não sei se por raiva ou só por capricho coloca a culpa de tudo nos homens do camburão
(ambos) eles colocam a culpa de tudo na população
(bandido) mas se eu morrer vem outro em meu lugar
(polícia) e se eu morrer vão me condecorar
(bandido) e se eu morrer será que vão lembrar?
(polícia) e se eu morrer será que vão chorar?
(bandido) e se eu morrer...
(polícia) e se eu morrer...

(narrador) chega de ser subjugado, subnutrido, subtraído, sub-bandido de um submundo, subtenente de um sublugar, um subproduto de um subpaís, sub-infeliz


Só esta música já vale o disco. E dá o que pensar.

Outro bom destaque do disco é outra versão: Construção. O sujeito teve a manha de transformar a música em um reggae e, sim!, ficou muito bom, inclusive o crescendo que existe na música original. A inserção de Deus lhe Pague também ficou excelente, algo meio rap. É assim que se faz versões, inovando, acrescentando elementos, sem pagação de pau. Ponto pro Rogê.

O resto do disco é preenchido por sambinhas, coisas meio Nando Reis e até um samba-rock. Eu gostei bastante e recomendaria o disco se tivesse a mais vaga idéia de quem gostaria de um disco de samba tão incomum.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> jards macalé

JARDS MACALÉ - Macao (2008)


Jards Macalé é um dos grandes-nomes-que-ninguém-conhece da MPB, também chamados "malditos". Neste disco, com violões até dizer chega, Macalé traz músicas antigas suas, como Farinha do Desprezo (famosa nos 80 nas mãos do Camisa de Vênus), Boneca Semiótica e The Archaic Lonely Star Blues. Tem ainda covers famosos como Ne Me Quitte Pas (sim, é aquela), Corcovado (Tom Jobim), Um Favor (Lupicínio Rodrigues), Só Assumo Só (Luiz Melodia) e Ronda (sim, é "à noite eu rondo a cidade...") e algumas inéditas.

É um disco estranho, e não se esperaria outra coisa de Jards Macalé e sua inconfundível voz ovo-na-boca (quem não conhece pasme: ele ganha fácil do Eddie Vedder). Os arranjos dos covers soam estranhos (só Ronda soa tradicional - até demais, diga-se), as músicas voz e violão soam estranhas (talvez justamente pela voz - também estranha). E a onipresença da estranheza é justamente o mais legal do disco.

O único porém do disco são as inéditas Engenho de Dentro, Se Você Quiser e Balada: não que sejam ruins (estão longe disto), mas esteticamente estão deslocadas do disco, são sambinhas elegantes em meio à depressividade minimalista de voz e violão do resto do disco.

domingo, 4 de janeiro de 2009

eternidades da semana >> etno

ETNO - Revolução Silenciosa (2008)


Na boa, "Etno" é um péssimo nome pra uma banda, parece mais um grupo de estudos antropológicos ou algo do tipo1. O som, porém, é um bem executado algo entre um nu-metal não muito pesado com vocais a la heavy metal e a mistureba feita pelo Rappa de Lado B Lado A, mas sem as eletroniquices. As letras são cantadas em português, espanhol, inglês e francês, o que por si só já me dá vontade de ouvir.

O disco começa muito bem, com Siglos, cantada meio espanhol, meio português. Meio metal, meio balada, o tipo de coisa que é um verdadeiro campo minado, mas a banda se sai incólume.

Destaques para A Mesma Dor, onde a banda emula O Rappa (e não cito isto como demérito, pelo contrário, até porque não soa como imitação), o metal inglês/português de Recall e a balada em francês/português Moi et le Monde.

Engraçado, acabo de perceber que eu sempre comento com mais detalhes as primeiras músicas. Primeiras músicas dizem muito sobre um disco, as interpreto como uma espécie de introdução do trabalho.

O vocalista tem alguns momentos Ídolos, mas nada que estrague o resultado. Por sinal, as melodias vocais são bem legais. As letras também são interessantes, defesa da ecologia, contra o racismo: de bandeiras o Etno vai muito bem, obrigado! Recomendo.

1 Tudo bem que eu já toquei em uma banda chamada Desencantamento do Mundo, mas convenhamos: é uma expressão com muito mais potencial poético que Etno, não?