quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

pesos e medidas

Interessante o que vem acontecendo na Colômbia. Mais interessante ainda é que não há muito destaque na mídia. Mas e se fosse Chávez no lugar de Uribe?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

eternidades da semana >> raimundos

RAIMUNDOS - Kavookavala
(2002)



Com a saída de Rodolfo da banda, no que me dizia respeito, era o fim dos Raimundos. Na época, sequer procurei saber do humilde primeiro disco da banda sem o cara, o Kavookavala. A começar pelo nome sem sentido e que bate mal no ouvido.

Um belo dia, sete anos após o lançamento: "Caralho, não custa dar uma ouvida no disco". Logo de cara, uma surpresa: apesar da letra ser uma bobagem completa, a primeira música, Fique, Fique é muito boa, ume excelente pegada, um clima meio Lapadas do Povo. Segue com Crocodilo Meio-Kilo, outra letra boba, outro bom hardcore, mas desta vez mais limpo. Logo em seguida a boa pegada morre com Joey, uma tentativa de evocar músicas de sucesso da banda como Mulher de Fases (inclusive tem um pequeno trecho do refrão com a mesma melodia vocal), mas eu não gostei. E segue o disco, com seus altos e baixos e recorrentes tentativas de emular os velhos Raimundos, como a reedição de Nariz de Doze na faixa-título, até a temática da letra é semelhante. E por aí vai, El Mariachi lembra alguma música, cujo nome agora me foge à memória, do Só No Forevis (sim, jovens que não alcançaram a época, eles gravaram um disco com este nome).

No meio do disco, uma pérola chamada Mas Vó, a letra é um pouco melhor que a maioria e a música é algo meio rap com um refrão bem legal. Princesinha é boa pra entrar na trilha de Malhação. Atitude Severa traz um som bem legal, baixo e guitarra mandando muito bem (mas a letra é a média do disco: horrível). Um destaque vai para Baixo Calão, a música mais pesada do disco (talvez da discografia dos Raimundos) e - como era de se esperar - mais boca-suja, uma singela homenagem à classe política brasileira com mensagens amorosas como "Tu e tua família vão sentar no pau do cão". Baixarias à parte - ou talvez justamente por causa delas - é a melhor música do disco, lembrando um DFC em seus momentos mais insanos.

Kavookavala soa como um disco de transição, e na verdade era, com a banda ecoando influências de diversos discos anteriores. Não que a saida de um único integrante tenha que desencadear uma revolução, mas algumas músicas lembram demais outras de discos anteriores. Digão se dá bem substituindo Rodolfo nos vocais e o maior problema do disco são as letras. Saíram com o ex-vocalista as putarias e os hinos maconheiros e entraram algumas letras bobas demais que não chegam a ser engraçadas e soam apenas pueris, com apenas alguns poucos acertos. Infelizmente a transição iniciada neste disco não teve para onde se estender: nunca mais a banda gravou regularmente (há um disco tosco feito em 2005 mas que ninguém ouviu falar). Segundo o Wikipedia a banda ainda está na ativa e deve gravar algo em 2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

eternidades da semana >> falcão

FALCÃO - What Porra is This?
(2006)



Um disco do Falcão lançado em 2006? Eu achava que a carreira do sujeito havia terminado há tempo, mas descobri que ele grava mais ou menos regularmente e este já é o oitavo disco.

As piadas têm o mesmo estilo dos primeiros discos - os únicos outros que conheço, por sinal - mas o som está claramente mais (pop-)roqueiro. Que ninguém espere, claro, algo como AC/DC ou Rolling Stones: trata-se de Falcão, nao se esqueçam. Mas é um pop-rock bregoso que remete a Mamonas Assassinas, legal de se ouvir e combina com a retórica filosófica falconiana. (O início de A Sociedade Não Pode Viver Sem as Pessoas lembra muito Mundo Animal dos Mamonas.) Tem até um forrozinho lá pelo meio do disco mas destoa bastante do conjunto.

Um forte ponto positivo, especialmente por ser exatamente a que o disco se propõe: é engraçado, com as tradicionais tiradas entre a ironia e o nonsense do Falcão: "Se grito resolvesse porco não morria/(...)/Se ferradura desse sorte burro não puxava carroça", em Amanhã Será Tomorrow; "No Brasil nem tudo está perdido, muito ainda há de se perder", em Fome Zero-a-Zero; "E desejo talvez um dia por acaso levá-la ao meu quarto, tirar sua calcinha, arrancar o elástico e fazer um estilingue pra caçar rolinha", em Quem Não Tem Cão Não Caça; "De ser você uma criatura sonsa igualmente a João Gilberto cantando uma bossa nova" em Desculpe Ter-Lhe Visto e por aí vai. A letra de Doa a Quem Doar é bastante inteligente e bem sacada. Na baladinha de violão e percussão Ordem e Progresso, a melhor tirada do disco: "Se Satanás morasse em Brasília seria, com certeza, aprendiz/Se político sem vergonha fosse areia e fila-da-puta fosse pedra-de-mão/Dava pra fazer na Rio-Bahia uma nova pavimentação".

Enfim, é um disco divertido, e um som legal, se você não o levar a sério. Bom pra ouvir tomando cerveja.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nós e as empresas

Tive a infelicidade de passar ontem, por duas vezes - ida e volta -, pelo pedágio da BR-101, localizado em Campos, um pouco antes da divisa com Conceição de Macabu. Não há como evitar a sensação de ser roubado. Ainda mais sabendo dos absurdos de bloqueios em caminhos alternativos e acessos a comunidades1. Seria até explicável a cobrança de pedágios - mas não justificável! - se a BR-101 fosse uma estrada de 3 vias + acostamento em cada mão. Sendo uma ridícula estrada de 1 via por mão e em alguns trechos sem acostamento, não há - repito - como não ter a sensação de sofrer uma grande sacanagem. Além, óbvio, do tempo que se perde nas filas. Como parece que a empresa tem 20 anos para duplicar trechos da BR, parece um consórcio onde todos receberão o prêmio só no final: paga-se agora para ter uma estrada decente sabe lá quando.

Em casos assim se observa facilmente o imenso abismo de forças que há entre empresas e cidadãos. Seja em relações trabalhistas, seja como consumidor/cliente, seja como "usuário" - compulsório, diga-se - de postos de pedágio.

É interessante como a natureza das relações se altera dependendo da via, se empresa-->cidadão ou cidadão-->empresa. Imagine que a você é prestado um serviço qualquer: luz, telefone, internet, tv a cabo, entrega de mobília comprada em uma loja. Qualquer um, não importa. Imagine que há uma falha qualquer no serviço: atraso de entrega, corte no serviço, intermitẽncia, serviço inferior ao contratado, cobrança indevida, qualquer um, também não importa. Se você entrar em contato para reclamar, invariavelmente vai ouvir educadas desculpas e "estamos trabalhando para resolver seu problema". Veja, é uma relação pessoal, parece que você está falando com um amigo: "Pô, foi mal aí, pode deixar que eu resolvo e mais tarde a gente toma uma cerveja, valeu sangue?". Se, por outro lado, é o cliente que falha com a empresa - atraso de pagamento, basicamente - a relação é contratual: multa e juros. Ora, aqui não valem as desculpas "estamos trabalhando para pagar seu boleto"? Ou imagine ser cliente e funcionário da mesma empresa e estar com salários atrasados - que serão pagos um dia sem um centavo de juros - mas ter que pagar o boleto em dia ou então encarar o par multa-e-juros. Afinal, o cliente tem que "compreender", o funcionário tem que "vestir a camisa". E a boa e velha recíproca, fica onde?

No fundo, é a reedição de um velho ditado: "Para as empresas, tudo; para os cidadãos, a lei".


1 Sinta a dimensão da agressão ás comunidades lendo os comentários ao post linkado.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

resenha >> a caixa preta de darwin

Acabo de ler um curioso livro, chamado A Caixa Preta de Darwin: O Desafio da Bioquímica à Teoria da Evolução (1997), escrito pelo bioquímico Michael Behe, que defende o chamado design inteligente. Design inteligente representa, em bom português, a mais recente ponta-de-lança criacionista contra o evolucionismo. O argumento básico do livro - e também de DI, creio eu - é o seguinte: a complexidade de algumas estruturas presentes nos seres vivos não poderia ter surgido do mecanismo de mutações aleatórias + seleção natural conforme defendem os neodarwinistas, concluindo-se, daí, que apenas poderiam ter surgido pela intervenção de um projetista inteligente.

O livro argumenta que algumas estruturas e processos estudados pela bioquímica, como o funcionamento do sistema imunológico, a coagulação do sangue, a fotossíntese e outros, não poderiam ter surgido de acordo com o neodarwinismo, devido à sua imensa complexidade, tida pelo autor como uma "complexidade irredutível". Por este termo, ele entende que estes sistemas e processos não poderiam desenvolver-se gradualmente devido à imensa interdependência entre as partes e à inutilidade do sistema como um todo caso algum componente não exista ou não funcione como o esperado. Não quero fazer um espantalho com este resumo relâmpago da primeira parte do livro, qualquer coisa neste sentido é deficiência da minha explicação. Ao contrário, ele parece bastante convincente, principalmente a um curioso como eu.

Na parte final do livro ele apresenta o design inteligente como único modo de se criar "complexidade irredutível". Neste ponto a argumentação se torna um queijo suíço, caindo na mesma falácia em que costumeiramente caem os criacionistas tradicionais. Vamos partir do ponto que, realmente, a evolução não explica os tais mecanismos bioquímicos de "complexidade irredutível". Partir disto para dizer que apenas um "projetista inteligente" poderia ter criado tais sistemas é um salto lógico absurdo. Ademais, se estamos falando de ciência, isto é como a explicação da origem da vida na Terra pela panspermia: apenas empurra a questão da origem da vida para mais longe. Quem ou o que é o projetista? Como surgiu? A partir do quê criou os sistemas de "complexidade irredutível"? O autor chega a sugerir que simplesmente esta questão seja afastada como insondável. O autor, em certo ponto, questiona a ausência de trabalhos científicos sobre bioquímica evolutiva; não vi no livro, porém, referências a papers sobre design inteligente.

A posição do autor - e do design inteligente de modo geral - é perigosa. É trazer noções religiosas para a ciência. E o design inteligente é a mais recente tentativa religiosa de combater o evolucionismo. E, em um cenário de aceitação disto pelo mainstream científico, como quer o autor, não tarda para certas coisas passarem a ser consideradas heresia, como, por exemplo, o próprio evolucionismo. Não houvesse quem separasse religião de ciência, pensaríamos até hoje que o universo gira ao redor da Terra.

Os esforços de religiosos de diversos matizes contras as buscas e descobertas científicas são inúteis, pois não há ponto de colisão perceptível entre o estudo do universo que nos cerca e as crenças religiosas. O heliocentrismo, a evolução de Darwin, o inconsciente de Freud, o fetichismo de Marx, tudo isto foi arrancando do homem a ilusão de controle e poder, mas em nada abalou a religião. Aliás, muitos evolucionistas, freudianos e marxistas são religiosos e não vêem problema algum nisto. Acreditem, há religiosos até entre os que crêem que a Terra se move ao redor do sol.