terça-feira, 5 de agosto de 2008

resenha >> MUKEKA DI RATO - Gaiola

MUKEKA DI RATO - Gaiola
(Läjä Rëkord's, 1999)



Esquentando os tamborins - ou seriam guitarras? - para o show do Mukeka di Rato no próximo dia 916 de agosto em Macaé, vou repostando uma resenha escrita há algum tempo sobre este excelente disco.

Se para você hardcore é aquele som que o CPM 22 e o Detonautas tocam, este CD, definitivamente, lhe é totalmente contra-indicado. Gaiola, segundo disco da banda Mukeka di Rato, são 16 faixas de pancadaria das boas, espremidas em pouco mais de 21 minutos de hardcore ensandecido, com muitos momentos que beiram o grindcore. Tive a oportunidade de assistir a um show da banda na turnê deste CD. É simplesmente destruidor.

Há uma notável evolução desde o álbum de estréia Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra, tanto lírica quanto sonora, principalmente esta última. O som deixou de ser um hardcore limpinho, pesadinho e rapidinho pra se tornar uma massa sonora de extrema violência, chegando a ser ininteligível em alguns poucos pontos. A produção mais tosca, proposital ou não, contribuiu para a elevação da sujeira e agressividade do som do Mukeka a níveis estratosféricos. Não fosse o vocal limpo estaríamos diante de um dos discos mais violentos já gravados no Brasil.

O disco já abre com uma pancada de respeito, Mickey. A letra, muito bem sacada e com a concisão característica do punk, o vocalista Sandro vocifera "Mickey não brinca criança doente/Ele tem medo se contaminar/Mickey só brinca meninos bonitos/Tenham dinheiro para lhe pagar". É difícil descrever, sem cair em repetições, o peso e a agressividade que tem essa e muitas músicas do CD. Insano seria uma palavra bem adequada.

Vitória Poluída, com participação de Stéfano Bebê - que viria posteriormente a ser vocalista do Mukeka - nos vocais, é puro grindcore, trazendo um "belíssimo" dueto dos vocais guturais de Bebê e os vocais gritados de Sandro. O mesmo tipo de crítica ecológica pode ser vista na bem-humorada Praia da Bosta. Não tão pesada quanto a maioria das músicas do disco, diz ironicamente: "Vamos dar um passeio na praia/Pisar em merda e em água de vala/Comer um siri podre com conservante/Cheirinho de lixo de restaurante".

Mais um mérito de Gaiola é trazer músicas tratando de temas românticos sem cair em clichês ou melodramas. Em Nossos Filhos, a balada - se é que se pode chamar assim alguma música do Gaiola - do disco, mostra a projeção de um amor que poderia ter surgido de um encontro. Canta a ótima letra: "Nossos filhos seriam punks, straight edges, crusties, libertários/.../Na estante estariam os livros, Marx, Drummond, Monteiro Lobato/Se naquele dia em Brasília você tivesse me esperado". A turma do emocore tem muito a aprender. A outra música "romântica", Perda, chega a ser surreal, trazendo um lamento de um amor perdido sobre um arranjo absurdo de tão pesado.

As críticas sociais, bastante presentes no primeiro disco, também estão aqui, na Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra - sim, é o nome do primeiro CD, mas a música só existe no Gaiola. Pasqualin é um palhaço que vive em Vitória, cidade da banda, retratado nessa música - com ótima melodia e riffs bastante criativos - como mais um dos brasileiros que enfrentam a luta diária pela sobrevivência.

Não há em Gaiola qualquer sinal de virtuosismo, solos e outras coisas que embasbacam a tantos. Gaiola é pura e simplesmente punk, hardcore, grindcore, na sua mais pura e simples significação: rock rápido e pesado contra o sistema. E esse papel, o Mukeka di Rato cumpre com louvor.

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