domingo, 1 de novembro de 2026

Defasagem a milhão


Olha quanta coisa tem saído por aí e eu ainda não ouvi:

  • Ed Motta, Chapter 9

  • Marcelo Birck, Timbres Não Mentem Jamais

  • Flores do Clube da Esquina

  • Beck, Modern Guilt

  • Japanische Kampfhörspiele/Are You God?, Split

  • Rogério Skylab, Skylab VIII

  • Misery Index, Traitors

  • Wander Wildner, La Canción Inesperada

  • Pato Fu, Daqui Pro Futuro

  • Manu Chao, La Radiolina

  • Desgraçados do Ritmo, Carnaval 2008

  • The Medina Brothers Orteskra, B.Cab



Isso sem falar em um monte de outros lançamentos cujo artista/banda não conheço mas parecem bem recomendados ou têm títulos interessantes. E nessa lista aí em cima tem coisa até do ano passado mas que eu ainda estou me devendo. Assim que for degustando, vou postando as impressões aqui.

É, acho que ando trabalhando demais...

resenha >> MUKEKA DI RATO - Gaiola

MUKEKA DI RATO - Gaiola
(Läjä Rëkord's, 1999)



Esquentando os tamborins - ou seriam guitarras? - para o show do Mukeka di Rato no próximo dia 916 de agosto em Macaé, vou repostando uma resenha escrita há algum tempo sobre este excelente disco.

Se para você hardcore é aquele som que o CPM 22 e o Detonautas tocam, este CD, definitivamente, lhe é totalmente contra-indicado. Gaiola, segundo disco da banda Mukeka di Rato, são 16 faixas de pancadaria das boas, espremidas em pouco mais de 21 minutos de hardcore ensandecido, com muitos momentos que beiram o grindcore. Tive a oportunidade de assistir a um show da banda na turnê deste CD. É simplesmente destruidor.

Há uma notável evolução desde o álbum de estréia Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra, tanto lírica quanto sonora, principalmente esta última. O som deixou de ser um hardcore limpinho, pesadinho e rapidinho pra se tornar uma massa sonora de extrema violência, chegando a ser ininteligível em alguns poucos pontos. A produção mais tosca, proposital ou não, contribuiu para a elevação da sujeira e agressividade do som do Mukeka a níveis estratosféricos. Não fosse o vocal limpo estaríamos diante de um dos discos mais violentos já gravados no Brasil.

O disco já abre com uma pancada de respeito, Mickey. A letra, muito bem sacada e com a concisão característica do punk, o vocalista Sandro vocifera "Mickey não brinca criança doente/Ele tem medo se contaminar/Mickey só brinca meninos bonitos/Tenham dinheiro para lhe pagar". É difícil descrever, sem cair em repetições, o peso e a agressividade que tem essa e muitas músicas do CD. Insano seria uma palavra bem adequada.

Vitória Poluída, com participação de Stéfano Bebê - que viria posteriormente a ser vocalista do Mukeka - nos vocais, é puro grindcore, trazendo um "belíssimo" dueto dos vocais guturais de Bebê e os vocais gritados de Sandro. O mesmo tipo de crítica ecológica pode ser vista na bem-humorada Praia da Bosta. Não tão pesada quanto a maioria das músicas do disco, diz ironicamente: "Vamos dar um passeio na praia/Pisar em merda e em água de vala/Comer um siri podre com conservante/Cheirinho de lixo de restaurante".

Mais um mérito de Gaiola é trazer músicas tratando de temas românticos sem cair em clichês ou melodramas. Em Nossos Filhos, a balada - se é que se pode chamar assim alguma música do Gaiola - do disco, mostra a projeção de um amor que poderia ter surgido de um encontro. Canta a ótima letra: "Nossos filhos seriam punks, straight edges, crusties, libertários/.../Na estante estariam os livros, Marx, Drummond, Monteiro Lobato/Se naquele dia em Brasília você tivesse me esperado". A turma do emocore tem muito a aprender. A outra música "romântica", Perda, chega a ser surreal, trazendo um lamento de um amor perdido sobre um arranjo absurdo de tão pesado.

As críticas sociais, bastante presentes no primeiro disco, também estão aqui, na Pasqualin na Terra do Xupa-Kabra - sim, é o nome do primeiro CD, mas a música só existe no Gaiola. Pasqualin é um palhaço que vive em Vitória, cidade da banda, retratado nessa música - com ótima melodia e riffs bastante criativos - como mais um dos brasileiros que enfrentam a luta diária pela sobrevivência.

Não há em Gaiola qualquer sinal de virtuosismo, solos e outras coisas que embasbacam a tantos. Gaiola é pura e simplesmente punk, hardcore, grindcore, na sua mais pura e simples significação: rock rápido e pesado contra o sistema. E esse papel, o Mukeka di Rato cumpre com louvor.

faça seu ouvido feliz >> El Efecto


"Faça seu ouvido feliz" é uma série - que começa agora! - onde eu indicarei uma banda ou artista com trabalhos disponíveis para download.

Os primeiros da lista são os cariocas do El Efecto. Qualquer definição do som da banda seria limitá-la. Rock, samba, nu-metal, MPB, cavaquinho, guitarras distorcidas, trompete, flauta, vai de tudo na mistura sonora do El Efecto. Melodias bem sacadas, letras inteligentes, enfim, a boa e velha música brasileira em uma versão caótica a la século XXI. Assisti a um show dos caras em Macaé em 2005 e foi simplesmente um dos melhores shows que já vi. Até os headbangers com os quais eu saí em caravana de Campos pra lá se empolgaram com o show.

No site da banda, no link Museu da Imagem e do Som, tem os dois discos lançados por eles, Como Qualquer Outra Coisa (2004) e Cidade das Almas Adormecidas (2007).

resenha >> CHAKAL - Deadland

CHAKAL - Deadland
(Cogumelo Records, 2002)



Se alguém achava que depois da revolução detonada pelo Sepultura no cenário da música pesada mundial, não havia mais caldo metálico em Minas Gerais, eis que da terra do Clube da Esquina surgiu em 2002 um tremendo cala-boca, confirmando a tradição brasileira de ótimas e revolucionárias bandas de metal.

Falo do ótimo disco Deadland, do Chakal, que, a seis anos do lançamento, já pode ser considerado um clássico.

A faixa título, que abre o CD, já começa com o prenúncio do que vem a seguir: nada de saídas fáceis, nada de apelo a clichês do thrash ou death metal, nada de ortodoxias e tradicionalismos que cerceam a criatividade. Deadland começa - ótima surpresa - com batidas tribais, uma guitarra quase limpa e um vocal que à primeira audição me lembrou vocais de reggae, acompanhados de transmissões radiofônicas e vocalizações ao fundo. Entra uma guitarra pesadíssima e vocais rasgados e desesperados, mesclados com outros quase sussurrantes. Há uma curta seqüência de ruídos, como numa introdução de CD, que explode num thrash-core daqueles que dá vontade de partir pra roda só de escutar, descambando numa seqüência quase nu-metal, mas rápida e empolgante. Introdução perfeita para o CD.

Entra a segunda, Amputation Prayer, que se inicia com um clima semelhante ao fim da música anterior - eu adoro essas "progressivices"! Os vocais são desesperados, temperados por um ótimo baixo. A música é completamente imprevisível - mesmo - e, numa classificação preguiçosa, poderia ser rotulada como nu-metal, mesmo sendo nada parecida com os clichês do gênero. As guitarras, dobradas, têm um peso impressionante. Perfeita para ouvir com fone de ouvido. As quebradas de tempo dão um clima caótico à música. Até som de vinil rola na parada.

Communication Room, com seus 57 segundos, é recheada de barulhos como que de rádios sintonizando. Parece uma inacreditável mistura de Obituary com Marcelo Birck.

A quarta música é Call of the Undead, a mais acessível do CD e candidata imediata a hino underground. Tem um riff matador, que gruda logo de cara e não sai fácil da cabeça, com climas hardcore, um ótimo solo, também bem diferente do usual, caídas de baixo-bateria - baixo muito bem tocado, por sinal - e guitarras psicodélicas.

Lazarus Waltz começa com um clima tribal e um excelente solo de guitarra, meio hendrix-setentista, até descambar numa passagem cadenciada e pesadíssima. Dessa vez o guitarrista é quem mostra a que veio.

Liar (Safe Place) é a balada - se é que pode-se chamar assim - do disco. Nela, a banda mostra toda a sua qualidade. Vejam bem, quando digo qualidade, não é a "qualidade" técnica de guitarristas que excretam - não há outro termo - escalas ininteligíveis à velocidade de zilhões de notas por segundo e nem de bateristas numa bizarra competição do bumbo duplo mais rápido, num inócuo show de exibicionismo, que deixa em êxtase platéias de descerebrados. Nada disso. O Chakal mostra uma incrível união de técnica - que fica a serviço da canção, e nunca o contrário - e - esta sim, é a principal - criatividade. Liar tem passagens que evocam até o rock nacional dos anos 80. Quem ler o que escrevo pode ficar com a falsa noção de uma "salada" sonora. Novamente, nada disso. Todos estes ingredientes - se é que estes foram assim percebidos pela banda - são perfeitamente combinados, sem qualquer tipo de excesso, levando o metal a novos patamares. Tem-se a impressão de que o disco foi concebido com uma radical idéia de não adesão a qualquer rótulo, o que é ótimo, ainda que muitos não gostem e prefiram o metal como em gôndolas de lojas de disco, separadas bonitinho, estilo por estilo, rótulo por rótulo.

A penúltima faixa, Flying to the Empty, mais uma vez, mostra a qualidade instrumental da banda, aliada à criatividade que permeia todo o CD. Não há qualquer preocupação com velocidade, peso ou agressividade. É fácil perceber que estes vêm naturalmente, nada é forçado. Destaque para a bateria, bastante quebrada e muito bem tocada.

Fade Out - nome bastante adequado - , fecha o CD de modo perfeito.

Quanto à produção, o único senão do disco vai para a ausência das letras no encarte. A sonoridade e a estrutura das músicas sugere um conceito, mas, sem as letras, nada posso afirmar. Outro destaque vai para a ótima qualidade de gravação. Infelizmente, o disco não teve uma grande repercussão entre o público. Atribuo isso ao estéril radicalismo e apego reacionário a tradicionalismos que, infelizmente, são comuns entre os fãs de metal. O Chakal paga o preço do pioneirismo.

Em resumo, Deadland é contra-indicado para os reacionários do metal, aqueles adeptos do tradicionalismo, da linha dura, daquilo que chamo de TFP underground. Agora, para quem quer ouvir um CD de uma banda BRASILEIRA que aponta novas e interessantíssimas direções em um estilo tão saturado como o metal, é prato cheio. Deadland mostra uma banda madura, sem excessos, mas com fôlego e criatividade de iniciante. Nota dez é pouco.

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